Por que a pele preta no Brasil continua sendo vista como alvo? O caso de Igor Melo, estudante universitário baleado pelas costas por um policial reformado no Rio de Janeiro e falsamente acusado de roubo, é um soco no estômago. Ele sobreviveu, mas quantos não sobrevivem? Quantos não têm nem a chance de contar sua história? Quantos corpos negros já tombaram sob o mesmo roteiro macabro da violência estatal?
Igor voltava do trabalho quando foi confundido com um criminoso por um PM que decidiu fazer justiça com as próprias mãos. A história, que poderia ser só um equívoco, se repete à exaustão: jovem negro, periferia, suposição de crime, abordagem violenta, tiros. Nem importa se há prova, se há motivo. A suspeita basta. Basta ser negro.
A farsa se desmonta logo: nenhuma arma, nenhum celular roubado. Mas Igor já tinha sido baleado, mutilado, tratado como culpado antes de qualquer investigação. A Justiça arquivou as acusações contra ele, reconhecendo que era inocente. Mas ser inocente no Brasil não protege o jovem negro do tiro, da violência, da execução. Ser inocente não impede a dor, não devolve o rim perdido, não apaga o trauma de acordar no hospital sob custódia policial, rodeado por fardados como se fosse ele o criminoso.
O caso de Igor não é um acidente. Ele está inserido numa engrenagem perversa em que a cor da pele determina quem vive e quem morre. O Brasil vive um regime de pena de morte informal, seletiva, sem julgamento, sem direito à defesa. A execução sumária é a regra para a juventude negra.
Em 2022, 65,7% das vítimas de mortes cometidas pela polícia eram negras. Se retirarmos os casos sem informação racial, essa proporção chega a 87,4%. Negros são 80% das vítimas de homicídios no país. A polícia brasileira mata mais do que as de 15 países do G20 juntos. E as vítimas têm rosto, têm nome: são sempre os mesmos alvos.
Ser negro no Brasil é estar sob permanente estado de exceção. É viver em território ocupado. A guerra às drogas virou guerra às pessoas. Mas não a todas as pessoas: só as pretas, só as pobres, só as periféricas. Nos condomínios da elite, polícia não entra atirando. Nos bairros brancos, criminosos recebem algemas e viaturas, não tiros e covas rasas.
O PM que atirou em Igor sabia que não sofreria consequência. A polícia brasileira age sob um manto de impunidade assustador. Apenas 1,5% das mortes cometidas por policiais em SP resultaram em condenação. No RJ, a maioria dos casos sequer é investigada. Os inquéritos são arquivados com base na palavra do policial, como se seu relato fosse incontestável.
As vítimas não podem contar sua versão, porque estão mortas.
Na Chacina de Jacarezinho (2021), 28 pessoas foram assassinadas em uma operação policial. As provas indicaram execuções, tortura, tiros em pessoas já rendidas. E o que aconteceu? Nada. Policiais absolvidos, famílias desamparadas, e a vida segue como se o Estado não tivesse cometido mais um massacre.
A violência policial não só mata, mas traumatiza. Um levantamento do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania revelou que 51% dos moradores de favelas sob tiroteios frequentes sofrem de transtornos de saúde mental. Depressão, ansiedade, síndrome do pânico. A violência psicológica da presença constante da morte.
A guerra não é só contra pessoas. Escolas fecham, hospitais interrompem atendimentos, crianças perdem aulas. A vida nas comunidades é constantemente paralisada. E a indiferença é brutal. Ninguém vê, ninguém sente. Se a polícia paralisasse 16 escolas na Zona Sul do Rio, o país inteiro falaria disso. Mas se for na Vila Cruzeiro? É normal.
Casos como o de Igor escancaram a falência moral da nossa política de segurança. Continuaremos aceitando execuções sumárias? Seguiremos coniventes com um modelo que protege os algozes e condena as vítimas?
Precisamos de uma reforma radical na polícia, no sistema de justiça, na forma como entendemos a segurança. Nenhuma sociedade que se diz democrática pode permitir que seus agentes do Estado matem impunemente. Nenhuma sociedade civilizada pode aceitar que seus cidadãos negros sejam alvejados por simplesmente existirem.
O caso Igor Melo não pode ser apenas mais um. Ele precisa ser um marco. Um basta. Um grito de revolta que ecoe até o fim da violência estatal e do racismo estrutural que a sustenta. Não queremos mais um caso. Queremos justiça. Queremos vida. Queremos o direito de existir.
(Este texto é escrito por um autor antirracista, comprometido com a luta por justiça social e direitos humanos).
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum