MEMÓRIA

Bateau Mouche: Quais as causas do naufrágio que matou 55 pessoas no RJ

A tragédia marítima chocou o Brasil no Réveillon de 1988 para 1989; saiba o que aconteceu com os responsáveis

Imagem do Bateau Mouche IV.Créditos: Reprodução de Vídeo/TV Globo
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Uma das maiores tragédias marítimas da história recente chocou o país há quase quatro décadas. Durante o Réveillon de 1988 para 1989, o barco de turismo, batizado como Bateau Mouche IV (Barco Voador) naufragou na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

A embarcação se dirigia até Copacabana para que seus passageiros pudessem celebrar a entrada de 1989, observando a famosa queima de fogos do local.

Porém, o que seria uma festa para celebrar o nascimento de novos tempos acabou em mortes, às 23h50 do dia 31 de dezembro, um sábado de chuva fina e mar agitado. Ao todo, foram registradas 55 vítimas fatais.

Quantos passageiros estavam no Bateau Mouche?

No total, aproximadamente 150 pessoas estavam a bordo do Bateau Mouche, entre tripulação, garçons e passageiros, embora sua capacidade fosse de 62.

Quando o barco foi construído, nos anos 1970, a lotação era de somente 20 pessoas. Após inúmeras reformas, inclusive algumas irregulares, como a instalação de um piso de cimento e novas caixas d'água no convés superior, o número aumentou para 62.

Quando a embarcação estava entre a Ilha de Cotunduba e o Morro da Urca, afundou. De casco chato, mais apropriado a águas tranquilas, o barco não aguentou o excesso de pessoas e, consequentemente, de peso.

A tragédia anunciada poderia ter sido evitada. O Bateau Mouche chegou a ser interceptado pela Capitania dos Portos, por volta das 22 horas daquela noite fatídica. Com isso, a tripulação teve de retornar ao cais para a contagem dos passageiros. Entretanto, estranhamente, acabou sendo foi liberada, dez minutos depois, e partiu em direção à Praia de Copacabana.

Reprodução de Vídeo/TV Globo

Como foi o momento da tragédia?

Quando se aproximava da meia-noite, a proa do Bateau Mouche se levantou e a popa afundou nas águas frias da Baía de Guanabara. Rapidamente, foram lançados ao mar cordas, boias e coletes salva-vidas, com o objetivo de resgatar os passageiros que tinham caído e os que estavam sobre o casco emborcado.

Logo após adernar, o barco virou com o casco para cima. Quando emborcou, os passageiros que estavam no convés superior se atiraram ou foram lançados ao mar. Os que estavam no salão principal ficaram presos no interior do barco. Por volta de 0h10 do dia 1º de janeiro de 1989, o Bateau Mouche foi a pique para desespero de quem estava a bordo.

Os corpos das vítimas e os sobreviventes foram resgatados pela traineira Evelyn Maurício e pelo iate Casablanca, que chegaram ao local em seguida.

Quem era a atriz da Globo que morreu no naufrágio?

A atriz Yara Amaral foi uma das vítimas fatais da tragédia do Bateau Mouche. Ela tinha 52 anos e estava no auge da carreira. Havia feito sucesso atuando em novelas da Globo, como "Dancin' Days" (1978), "Cambalacho" (1986) e "Anos Dourados" (1986).

Yara não sabia nadar e chegou a adiar o passeio de barco por três anos. Porém, em 1988, ela decidiu encarar, mas com companhias. A mãe, Elisa Gomes, que na época tinha 73 anos, também morreu. Um casal de amigos que acompanhou as duas, sobreviveu.,

Os dois filhos da atriz, João Mário e Bernardo, respectivamente com 13 e 15 anos à época, iriam. Porém, resolveram trocar o passeio de barco por uma festa na casa de amigos.

Um mês antes da tragédia no Bateau Mouche, Yara "previu" a própria morte. Durante almoço de família, seus filhos brincaram com o fato dela não saber nadar. A atriz comentou: “Desde pequena, eu sempre tive a impressão de que um dia uma onda me levaria”.

Yara Amaral - Foto: Reprodução de Vídeo/TV Globo

Os responsáveis foram punidos?

Apesar da gravidade, da repercussão nacional e das fortes evidências de negligência dos responsáveis pelo caso, praticamente ninguém foi punido quase 40 anos depois do naufrágio do Bateau Mouche.

Dois laudos, um feito pela Marinha e outro pela Polícia Civil, concluíram que a embarcação estava com excesso de passageiros e uma série de outras irregularidades, como furos no casco, escotilhas abertas e coletes salva-vidas fora do prazo de validade.

Em um primeiro julgamento, o juiz optou por responsabilizar somente o mestre e o engenheiro do barco. Entretanto, ambos não puderam ser punidos porque morreram no naufrágio.

A pressão da opinião pública foi tanta que um segundo julgamento foi marcado. Dessa vez três dos nove sócios do barco (dois espanhóis e um português) foram condenados. Contudo, a pena permitia que eles passassem os dias fora do presídio. Com isso, logo em seguida, todos fugiram do Brasil. Ou seja, na prática, ninguém foi punido.

Caso Bateau Mouche virou filme?

A tragédia virou documentário. “Bateau Mouche: O Naufrágio da Justiça” é uma série documental exibida no Max, com direção e produção de Tatiana Issa e Guto Barra.

“O Bateau Mouche é um caso muito emblemático, porque é muito mais do que a noite de 31 de dezembro daquele ano. Ele é uma história que se estende até hoje. É uma história de impunidade, de corrupção, de falhas e morosidade da Justiça. É uma história importante de ser contada”, afirmou Tatiana.

“São muitas vítimas, e não é uma história só da tragédia lá atrás, da morte, é a história da indignação. Ainda tem gente que, até hoje, que está lidando com o processo, que está esperando”, acrescentou Guto.

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