Nos anos 1950, Nelson Rodrigues cunhou a expressão “Complexo de vira-lata”, para se referir a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Não se tratava, necessariamente, de algo novo. De acordo com Jessé Souza, essa suposta premissa de o brasileiro ser pior do que outros povos ganhou consistência décadas antes, principalmente após o lançamento do livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.
Quem já vasculhou o chorume presente na internet, percebeu que jovens de extrema direita atualizaram o Complexo de vira-lata, a partir do uso do termo “Bostil” (justaposição de Brasil com outra palavra que não é necessário dizer). Um novo conceito para um velho e pernicioso sentimento. Para os adeptos desse termo, o Bostil tem como nativo o “bostileiro”.
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Além de propagadores de vira-latismo, os indivíduos que usam o termo Bostil geralmente são jovens, de extrema direita, monarquistas, ressentidos, saudosistas de tempos em que não viveram, com baixo nível intelectual, incels e elitistas (embora a grande maioria não pertença às classes sociais mais abastadas). Seus ídolos são figuras como Kim Kataguiri, Elon Musk, Olavo de Carvalho, Enéas Carneiro e Ludwig Von Mises.
O bostileiro sempre é representado como alguém das classes baixas. Ou seja, os jovens citados neste texto não odeiam todos os brasileiros; somente os pobres (a quem atribuem todos as causas de nosso subdesenvolvimento). A “elite do atraso”, lembrando novamente Jessé Souza, por outro lado, é poupada de críticas. Seus discursos são repletos de clichês contra políticas sociais, CLT (embora nunca tenham trabalhado), corrupção (relacionada somente ao Estado) e cobrança de impostos (nenhuma palavra sobre sonegadores). São tigrões com o Bolsa Família; tchutchucas com o Bolsa Banqueiro – que, diga-se de passagem, consome quase metade do orçamento nacional. Uma revolta seletiva.
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Na realidade alternativa do Bostil, não houve ditadura militar, nosso país era o paraíso na Terra na época da Monarquia, a Globo é comunista, universidades difundem marxismo cultural, a Argentina de Milei tem uma economia pujante e leis como a “Maria da Penha” são misândricas – privilégios das mulheres em detrimento dos homens. Não por acaso, a produtora de conteúdo preferida desse pessoal tem “paralelo” no nome.
Compondo o combo da extrema direita, a manifestação popular mais atacada por esses jovens frustrados é o carnaval, sempre associado à promiscuidade, bebedeira e violência. “A festa do bostileiro”, de acordo com tal visão distorcida. Como quem usa o termo Bostil é uma pessoa intragável, que só consegue interagir, no máximo, com quem pensa de maneira similar, e mesmo assim só virtualmente, não é difícil entender o porquê do ódio a uma época do ano em que as pessoas estão alegres e interagindo em ruas país afora. É a clássica dor de cotovelo.
Vez ou outra, os adeptos do termo Bostil tentam posar de críticos e intelectuais, embora, como dito, são conhecidos pelo baixo nível cognitivo. Consideram funk carioca, futebol, samba e tudo mais que remeta ao povo como “alienação” ou “pão e circo”. Os verdadeiros problemas brasileiros – desigualdade social, concentração fundiária e taxa de juros exorbitante – nunca são mencionados.
Mas uma “qualidade” temos que admitir: eles são sinceros. Diferentemente de outros colegas de espectro político, como os bolsonaristas, os jovens que falam “Bostil” não se fingem de patriotas; escancaram para todo mundo o ódio que sentem pelo Brasil. Só não migram para os Estados Unidos e Europa, porque não têm capacidade de sair do próprio quarto, o que dirá do país.
Em suma, se há alguém que mereça ser chamado de “bostileiro” – com toda a carga semântica pejorativa que o termo carrega – é, ironicamente, quem vive usando o termo “Bostil” nas mais variadas discussões na internet.