FALÁCIA

Folha força comparação entre Bolsonaro e Mensalão e ignora avanços no STF

Reportagem do periódico paulista distorce contexto para sugerir tratamento desigual ao ex-presidente de extrema direita

Reportagem do periódico paulista distorce contexto para sugerir tratamento desigual ao ex-presidente de extrema direita.
Folha força comparação entre Bolsonaro e Mensalão e ignora avanços no STF.Reportagem do periódico paulista distorce contexto para sugerir tratamento desigual ao ex-presidente de extrema direita.Créditos: Wikipedia (Leandro Ciuffo - Flickr)
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Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo neste domingo (23), intitulada "Trama golpista no STF tem ritmo 14 vezes mais rápido que mensalão", traçou um paralelo entre a tramitação da denúncia contra Jair Bolsonaro e o caso do Mensalão (AP 470), mas falha ao ignorar avanços processuais do Supremo Tribunal Federal (STF) e diferenças fundamentais entre os dois casos.

A denúncia contra Bolsonaro foi oferecida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 18 de fevereiro e será analisada pela Primeira Turma do STF na próxima terça-feira (25), um intervalo de 35 dias. Já no Mensalão, a PGR apresentou sua denúncia em março de 2006, e o STF a aceitou apenas em agosto de 2007, 17 meses depois.

Embora a diferença nos prazos seja evidente, a comparação ignora três fatores centrais:

1. A natureza distinta dos julgamentos

  • O Mensalão envolvia um esquema de corrupção com 40 réus, requerendo uma instrução penal complexa antes do julgamento.
     
  • O caso de Bolsonaro trata do recebimento da denúncia, uma etapa preliminar que apenas decide se o ex-presidente se tornará réu.

2. O impacto da digitalização processual

  • Em 2006, o Mensalão ainda não era digitalizado, e a transição dos 14 mil volumes físicos atrasou a tramitação.
     
  • Em 2025, todos os autos da investigação contra Bolsonaro são digitais, permitindo acesso imediato a juízes, procuradores e advogados.

3. Mudanças no rito do STF

  • Em dezembro de 2023, o STF redefiniu sua competência interna, permitindo que denúncias e ações penais fossem julgadas por turmas, e não pelo plenário.
     
  • A mudança busca desafogar a pauta do STF e dar mais celeridade a casos de relevância nacional, como o que envolve Bolsonaro.

Novo modelo do STF agiliza julgamentos sem comprometer a defesa

Antes, o plenário do STF era responsável por julgar todos os processos de grande impacto, incluindo ações penais contra autoridades. No entanto, a superlotação da pauta exigiu ajustes:

  • Superlotação do Plenário - O STF analisa milhares de processos por ano, e a concentração de casos tornava os julgamentos lentos.
     
  • Necessidade de celeridade - O Brasil enfrenta crises políticas e institucionais frequentes, exigindo respostas mais ágeis da Suprema Corte.
     
  • Maior eficiência -  Com apenas cinco ministros decidindo, os processos andam mais rápido, sem perda de rigor técnico.

Composição das turmas do STF

Primeira Turma (responsável pelo julgamento de Bolsonaro)

  1. Alexandre de Moraes (presidente)
     
  2. Cristiano Zanin
     
  3. Luiz Fux
     
  4. Cármen Lúcia
     
  5. Flávio Dino

Segunda Turma

  1. Gilmar Mendes (presidente)
     
  2. Edson Fachin
     
  3. André Mendonça
     
  4. Nunes Marques
     
  5. Dias Toffoli

Moraes mantém coerência na condução de casos de alta relevância

A Folha também sugere que o ministro Alexandre de Moraes está acelerando a tramitação da denúncia contra Bolsonaro de forma excepcional. Entretanto, uma análise de outros casos conduzidos pelo magistrado desmonta essa tese:

  • O julgamento do deputado Daniel Silveira, por ameaças ao STF, ocorreu 70 dias após a denúncia da PGR.
     
  • Os acusados do assassinato da vereadora Marielle Franco se tornaram réus em 42 dias.
     
  • A deputada Carla Zambelli e o hacker Walter Delgatti tiveram suas denúncias analisadas em menos de um mês.

Ou seja, o tempo de análise do caso Bolsonaro segue o padrão adotado pelo STF em outros processos de alta gravidade, sem indicar qualquer tipo de favorecimento político.

Comparação com o Mensalão ignora mudanças no sistema jurídico

A reportagem da Folha enfatiza que o julgamento do Mensalão levou 17 meses para que a denúncia fosse aceita, contrastando com os 35 dias do caso Bolsonaro. No entanto, essa comparação desconsidera avanços processuais desde 2006:

  • Antes: O STF exigia tramitação completa antes de aceitar denúncias contra políticos, tornando os processos mais longos.
     
  • Agora: As denúncias são analisadas rapidamente para evitar impunidade e garantir o andamento eficiente das investigações.
     
  • Importante: A decisão da Primeira Turma não condenará Bolsonaro – apenas decidirá se há elementos para que ele se torne réu e avance para a fase de instrução criminal.

Bolsonaro e Collor: outra comparação enganosa

A reportagem também menciona o caso do ex-presidente Fernando Collor, cuja denúncia foi aceita pelo STF apenas dois anos após ser apresentada. A demora, no entanto, ocorreu devido a fatores específicos, como:

  • Complexidade das provas da Lava Jato, envolvendo contratos da BR Distribuidora.
     
  • Fragmentação do processo, que envolvia múltiplas frentes de investigação.

Já a denúncia contra Bolsonaro tem fatos delimitados e provas documentais diretas, o que justifica sua tramitação mais rápida.

STF age com rigor, mas sem atropelar direitos de defesa

Os advogados de Bolsonaro alegam que o prazo para a defesa analisar os autos foi exíguo. No entanto, todos os documentos do processo estavam disponíveis desde novembro de 2024, quando a Polícia Federal indiciou Bolsonaro e outros aliados.

O tempo de 15 dias para defesa prévia é o mesmo concedido em todos os processos do STF, sem exceções.

Além disso:

  • A PGR teve o mesmo prazo para analisar e manifestar-se sobre os autos.
     
  • O julgamento ocorrerá em sessão pública, garantindo transparência total.

Portanto, não há indícios de violação ao devido processo legal.

Rapidez não significa parcialidade

A denúncia contra Bolsonaro está sendo analisada com o mesmo rigor e celeridade de outros casos recentes no STF.

A comparação com o Mensalão é falaciosa, pois ignora avanços processuais, mudanças na legislação e a natureza distinta das acusações.

O que se vê não é uma "pressa seletiva", mas sim um STF que se modernizou, digitalizou processos e estabeleceu novos critérios para crimes contra a democracia.

A aceleração de processos não deve ser vista como afronta à justiça, mas sim como um aperfeiçoamento do sistema jurídico brasileiro, garantindo que crimes de alta gravidade não se arrastem por anos sem solução.

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