CHINA EM FOCO

China condena pressão dos EUA após saída do Panamá da Nova Rota da Seda

Pequim critica Washington por "difamação e coerção" e lamenta decisão panamenha de abandonar cooperação econômica

Presidentes dos EUA, Donald Trump; do Panamá, José Raúl Mulino; e da China, Xi Jinping.
China condena pressão dos EUA após saída do Panamá da Nova Rota da Seda.Presidentes dos EUA, Donald Trump; do Panamá, José Raúl Mulino; e da China, Xi Jinping.Créditos: Fotomontagem (Canva, Xinhua e Wikipedia)
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Após forte pressão dos Estados Unidos, o Panamá anunciou sua retirada do acordo de cooperação da Iniciativa do Cinturão e Rota com a China (ICR), a Nova Rota da Seda.

Durante uma coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores da China, realizada em Pequim nesta sexta-feira (7), o porta-voz Lin Jian comentou a decisão do governo panamenho.

"A China se opõe firmemente às tentativas dos EUA de difamar e sabotar a cooperação no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota por meio de pressão e coerção, e lamenta profundamente a decisão do Panamá de não renovar o Memorando de Entendimento sobre a BRI", declarou Lin.

O porta-voz destacou que a Nova Rota da Seda é uma iniciativa de cooperação econômica que conta com a participação de mais de 150 países, incluindo mais de 20 nações da América Latina e do Caribe.

Lin enfatizou que os projetos desenvolvidos no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota trouxeram benefícios concretos para diversas nações, incluindo o Panamá. Segundo ele, a parceria entre China e Panamá gerou resultados significativos e continua proporcionando avanços para ambos os povos.

"Esperamos que o Panamá leve em consideração as relações bilaterais como um todo e os interesses de longo prazo dos dois povos, mantenha-se livre de interferências externas e tome a decisão certa", concluiu.

Por que o Panamá deixou a Nova Rota da Seda?

O presidente panamenho, José Raúl Mulino, anunciou na quinta-feira (5) que o país formalizou sua saída da Nova Rota da Seda. A decisão ocorre em um momento de crescente pressão dos Estados Unidos, que buscam limitar a influência chinesa sobre o Canal do Panamá.

O anúncio veio apenas quatro dias após a visita do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que reafirmou as declarações do presidente Donald Trump sobre uma possível intervenção norte-americana no canal, caso a presença chinesa na região não fosse reduzida.

Washington, há anos, expressa preocupação com a crescente participação da China em projetos estratégicos na América Latina, incluindo investimentos portuários e logísticos no Panamá.

Apesar das especulações, Mulino negou que a decisão tenha sido influenciada pelos EUA e garantiu que a escolha foi independente e soberana.

"Essa é uma decisão que eu tomei", afirmou o presidente panamenho, ressaltando que a saída do país da ICR reflete uma nova estratégia econômica de sua administração.

A retirada do Panamá da Nova Rota da Seda representa um revés para a China, que havia firmado o acordo com o país em 2017, garantindo investimentos bilionários em infraestrutura.

Nos últimos anos, Pequim financiou projetos portuários e logísticos estratégicos no território panamenho. A decisão de Mulino pode reconfigurar as relações comerciais e diplomáticas do Panamá, enquanto a disputa por influência entre EUA e China segue em curso na América Latina.

A relação entre China e Panamá

As relações bilaterais entre China e Panamá passaram por mudanças significativas nos últimos anos.Em junho de 2017, o Panamá estabeleceu relações diplomáticas com a República Popular da China, rompendo laços anteriores com Taiwan.

O governo panamenho justificou o movimento com base em "realidades históricas e socioeconômicas", destacando a importância da China como segunda maior usuária do Canal do Panamá. Após o estabelecimento das relações diplomáticas, os dois países assinaram 19 tratados em um ano, facilitando investimentos chineses no Panamá.

Em 2018, foi inaugurado o primeiro voo direto da Air China entre Pequim e a Cidade do Panamá, com uma parada técnica em Houston, aumentando as expectativas de crescimento do turismo chinês no país.

Projetos da Nova Rota da Seda no Panamá

A Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), também chamada de Nova Rota da Seda, é um projeto global de infraestrutura e comércio liderado pela China e lançado em 2013 pelo presidente Xi Jinping.

O Panamá aderiu à ICR em 2017, tornando-se o primeiro país da América Latina a integrar a iniciativa, resultando em diversos projetos de cooperação.

Principais investimentos chineses no Panamá

Construção da Quarta Ponte sobre o Canal

  • Projeto concedido a um consórcio de empresas estatais chinesas.
     
  • Avaliação de aproximadamente US$ 1,42 bilhão.
     
  • Objetivo de melhorar a conectividade e reduzir o tráfego na Cidade do Panamá.
     
  • O futuro do projeto é incerto após a saída do país da Nova Rota da Seda.

Modernização e operação de portos estratégicos

  • Empresas chinesas obtiveram concessões para operar terminais portuários nas entradas do canal.
     
  • Esses investimentos consolidaram o Panamá como hub logístico na América Latina.
     
  • Algumas concessões estão sendo revisadas pelo governo panamenho após preocupações levantadas pelos EUA.

Expansão energética

  • China participou da construção de usinas e melhoria da infraestrutura energética no Panamá.
     
  • O objetivo era suprir a crescente demanda energética do país.
     
  • A continuidade desses projetos está em risco com a saída do Panamá da BRI.

Histórico de interferência dos EUA no Panamá

As relações entre os Estados Unidos e o Panamá são marcadas por um longo histórico de cooperação e intervenções, especialmente relacionadas ao estratégico Canal do Panamá. Em 1903, com apoio dos EUA, o Panamá declarou independência da Colômbia e assinou o Tratado Hay-Bunau-Varilla, que concedia aos americanos direitos sobre a Zona do Canal, consolidando sua influência no país.

Durante grande parte do século 20, a presença dos EUA na região gerou descontentamento entre os panamenhos, culminando no Dia dos Mártires, em 9 de janeiro de 1964. Na ocasião, protestos estudantis contra a ocupação americana resultaram em confrontos com tropas dos EUA, deixando 21 panamenhos mortos e mais de 500 feridos. O episódio aumentou a pressão pela soberania panamenha e levou ao rompimento das relações diplomáticas entre os dois países.

O movimento nacionalista forçou Washington a negociar a devolução do canal. Em 1977, os Tratados Torrijos-Carter foram assinados, estabelecendo a transferência progressiva da administração do canal para o Panamá, processo concluído em 31 de dezembro de 1999.

Mesmo após a assinatura dos tratados, a influência dos EUA no Panamá permaneceu forte. Em 1989, sob a justificativa de combater o narcotráfico, os estadunidenses invadiram o país na chamada Operação Justa Causa, que resultou na captura do ditador Manuel Noriega e em centenas de mortes. A invasão foi a última grande intervenção militar dos EUA na América Latina e reforçou a postura intervencionista de Washington no Panamá ao longo das décadas.

Atualmente, o controle panamenho sobre o canal segue sendo alvo de disputas geopolíticas, com os EUA pressionando o país para limitar a influência chinesa em projetos estratégicos na região.

Efeitos da saída do Panamá da Nova Rota da Seda

A saída do Panamá da Nova Rota da Seda pode fragilizar a relação bilateral com a China e gerar impactos econômicos significativos, já que Pequim era um dos principais investidores do país.

Por outro lado, o movimento fortalece a influência dos EUA na América Latina, evidenciando a disputa geopolítica entre Washington e Pequim.

O Panamá agora enfrenta o desafio de redefinir sua estratégia econômica e diplomática, enquanto as grandes potências disputam influência sobre o estratégico Canal do Panamá.

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