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Ada Lovelace: a primeira programadora da história introduziu o algoritmo e previu a IA

Considerada a primeira programadora da história, ela descreveu o funcionamento dos computadores modernos e foi precursora de um importante conceito de Alan Turing

Retrato de Ada Lovelace, por Margaret Sarah Carpenter.Créditos: Wikimedia Commons
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Augusta Ada Byron, nascida em 1815, na Inglaterra, era filha de Lord Byron, um dos mais famosos poetas britânicos do Romantismo, e da matemática Anne Isabella Milbanke, que instigou os interesses intelectuais de Ada pelas ciências desde cedo. A mulher considerada a primeira programadora da história iniciou suas contribuições à ciência da computação em 1839, após o nascimento de seu terceiro filho.

Ada Byron iniciou seu trajeto na ciência da computação ao tornar-se amiga de um importante matemático da época: Charles Babbage. Ela logo demonstrou um apreço especial por seu trabalho promissor, representado pelo desenvolvimento da Máquina Analítica. A Máquina era um dispositivo mecânico que agia como um computador simples, programado para calcular tabelas matemáticas e para realizar qualquer tipo de cálculo a partir de um "prompt" — o comando dado a uma linguagem de programação. 

A Máquina de Babbage tinha uma memória, um processador chamado "moinho", capaz de realizar operações aritméticas, e cartões perfurados eram usados para a entrada de dados. As saídas eram geradas, por sua vez, em uma impressora. Foi considerado a primeira amostra de um "computador programável", embora nunca tenha sido completado por seu criador. 

Em 1843, quando já era casada e tinha dado à luz seu terceiro filho, Ada decidiu dedicar-se à computação, seu maior interesse: passou a estudar a ciência com a tutoria de Augustus de Morgan, na Universidade de Londres. Mas ela nunca chegou a frequentar a universidade formalmente, ou qualquer outra instituição de ensino superior. 

Ada apenas usava de seu relacionamento com outros matemáticos e cientistas da época para circular por ambientes acadêmicos. Ela era amiga, por exemplo, de Mary Somerville, uma escritora e cientista renomada do Reino Unido, e uma das primeiras mulheres a ser aceita na Royal Astronomical Society

A Universidade de Londres foi, ademais, uma das primeiras a permitir a presença de mulheres em suas instituições associadas, mas apenas autorizou que alunas mulheres fossem admitidas à instituição de maneira oficial em 1878 — 30 anos depois do falecimento de Ada. 

Quando uma publicação acadêmica sobre a incrível Máquina Analítica de Babbage, considerada precursora dos computadores modernos, a alcançou, escrita pelo matemático italiano Luigi Menabrea, Ada decidiu traduzi-la (porque o artigo fora publicado, originalmente, em francês), e apresentá-lo.

Ela aproveitou para incluir suas próprias considerações, em forma de notas, ao artigo traduzido, e acabou criando o primeiro algoritmo projetado para ser executado por uma máquina a partir de suas anotações.

Ela descrevia um conjunto de instruções para que a máquina calculasse números de Bernoulli, uma sequência de números racionais essenciais para o desenvolvimento de fórmulas de soma de potências e séries matemáticas. Mais de um século antes da invenção dos computadores eletrônicos, Ada se tornava, com seu "algoritmo" primitivo, a primeira programadora da história.

Na programação, o algoritmo é composto por uma sequência finita de passos ou instruções bem definidas que permitem resolver um problema ou realizar uma tarefa específica dentro de um sistema computacional.

Ao introduzir as funções algorítmicas na computação, Ada acabou por prever a função da inteligência artificial, escrevendo que, se os computadores tivessem um potencial infinito, eles não poderiam ser, de fato, inteligentes — seria preciso que aprendessem a partir das contribuições humanas, isto é, que recebessem um "treinamento", como hoje ocorre com as IAs e as linguagens complexas treinadas a partir de um grande número de informações, com o auxílio dos algoritmos.

Por essas contribuições pioneiras, Ada foi homenageada ao dar seu nome a uma linguagem de programação desenvolvida em 1980 pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O objetivo do Departamento de Defesa norte-americano era munir o governo de uma linguagem robusta e segura para ser utilizada em sistemas de software de aplicações militares e na produção de sistemas embarcados. 

A empresa Inria (Institut National de Recherche en Informatique et en Automatique), a responsável por desenvolver a nova linguagem, decidiu nomeá-la em homenagem a Ada Lovelace (sobrenome que adquiriu após seu marido, William King, ter sido nomeado Conde de Lovelace), por seu legado vanguardista na programação. 

A linguagem passou a substituir várias outras linguagens já ultrapassadas das Forças Armadas dos EUA, que eram incompatíveis entre si. Hoje, continua a ser usada em áreas específicas, porque é considerada altamente segura (de tipagem forte e estática, o que significa que seus dados são rigorosamente definidos e verificados), um aspecto determinante para ambientes críticos como o controle de aeronaves de defesa.

Há também um dia especial, o Dia de Ada Lovelace, a ser celebrado anualmente, na segunda terça-feira do mês de outubro, para destacar as contribuições da própria Ada e de outras mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).

Além de ser a primeira a descrever, de forma complexa, o funcionamento dos computadores modernos, Ada também foi a primeira pessoa a reconhecer que a máquina podia executar aplicações para além da "computação pura" — baseada em números —, e podia, além disso, manipular símbolos, independente de sua estrutura numérica. Essa descoberta já foi evidenciada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Ada percebeu que, assim como a máquina realizava operações aritméticas com números, ela poderia, com as instruções corretas (a partir de um algoritmo), também ser programada para manipular qualquer tipo de símbolo, como letras ou outras formas de dados.

Essa visão é considerada uma precursora, inclusive, do conceito que viria a ser desenvolvido, no século XX, pelo pai da computação, Alan Turing — por meio do conceito de computação universal, Turing demostrou que qualquer tipo de problema computacional pode ser reduzido a um conjunto de instruções formais, e a ideia de manipular símbolos implica em armazenar e processar diferentes tipos de dados, como texto ou comandos, para além dos números.

A capacidade de "manipular símbolos" é o que permite aos computadores modernos executar tarefas complexas, como o processamento de uma linguagem natural, a análise de dados e o próprio desenvolvimento da inteligência artificial — eles processam uma vasta gama de dados simbólicos descritos em várias formas, exatamente como Ada imaginou.

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