Nova espécie descoberta por fóssil de 444 milhões de anos é descrita pela primeira vez

A formação geológica em que o fóssil foi encontrado sobreviveu aos períodos de glaciação responsáveis por dizimar 60% dos gêneros terrestres, diz a pesquisa

Escavações em Soom Shale.Créditos: Prof. Sarah Gabbott/divulgação
Escrito en MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE el

Um artigo publicado na última quarta-feira (26) no periódico Paleonthology, liderado por pesquisadores da Universidade de Leicester, no Reino Unido, oficializa a descoberta de uma nova espécie de artrópode marinho primitivo, datado em 444 milhões de anos

A espécie, denominada Keurbos susanae e apelidada de "Sue", foi descoberta há 25 anos em uma formação geológica que remonta ao Ordoviciano Superior na África do Sul, Soom Shale, conhecida por abrigar fósseis de tecidos moles do período Ordoviciano, que ocorreu entre 485,4 e 443,8 milhões de anos atrás, o segundo período do Paleozoico. 

Foram longos anos até a classificação oficial da espécie, cujo fóssil estava muito bem preservado por dentro, mas não por fora — o corpo já não tinha a cabeça ou as pernas. 

Os pesquisadores a descrevem como uma "cápsula do tempo mineralizada", porque descobriram, no seu interior, tendões, vísceras e músculos perfeitamente preservados, apesar de o fóssil ter entrado em decomposição há cerca de 444 milhões de anos. 

De acordo com as pesquisas geológicas da região, a formação marinha em que o fóssil foi encontrado passou ilesa da glaciação que ocorreu ao fim do Ordoviciano, quando o grande continente de Gondwana se estabeleceu ao sul e formaram-se as geleiras responsáveis por grandes extinções em massa — aquelas que exauriram até 60% de todos os gêneros de animais do planeta, e pelo menos 25% dos vertebrados marinhos como Sue.

Pelas dificuldades na identificação do fóssil, a árvore evolutiva da espécie ainda não foi classificada, ou seja, ainda não é possível retraçar de que "galho" evolutivo vem o artrópode marinho, e a publicação que traz a descrição do fóssil foi considerada a primeira descrição oficial de seu gênero, Keurbos.

Anatomia de uma nova espécie

A espécie descrita tem um corpo segmentado em 46 partes, com cada um de seus segmentos dorsais (chamados tergitos) correspondendo a um segmento ventral (os esternitos). 

Seu tronco mede 8,5 cm na parte anterior, e 5,3 cm na parte posterior, com um exoesqueleto dorsal discreto. Um dos aspectos mais interessantes dos Keurbos são suas lamelas vascularizadas, que funcionavam, possivelmente, como brânquias, permitindo que respirassem debaixo d'água. 

A), espécime completo. B) desenho com linhas mostrando as principais características morfológicas. Em rosa, esternitos; em laranja, placas ovoides. Créditos: Sarah E. Gabbott, Gregory D. Edgecombe, Johannes N. Theron, Richard J. Aldridge

As lamelas são inferiores e superiores, com veias e uma estrutura similar à dos demais artrópodes, mas adaptadas para a água.

As estruturas internas, encontradas bem preservadas no fóssil, eram compostas por músculos, pelo trato digestivo e os tendões, feitas de fosfato de cálcio, como a dos artrópodes "comuns". 

Além disso, os Keurbos possuem dois tipos de tendões ao longo do tronco, que variam em formato e posição.

Seu nome, Keurbos susanae, foi uma homenagem ao lugar de sua descoberta (Keurbos) e à mãe da paleontóloga que liderou as pesquisas responsáveis por sua descrição, Sue (susanae).

Reporte Error
Comunicar erro Encontrou um erro na matéria? Ajude-nos a melhorar