A Alemanha, reconhecida como um exemplo global na luta contra as mudanças climáticas, traçou metas ambiciosas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Em 2021, o Partido Verde conquistou espaço político, integrando a coalizão governista e reforçando a agenda ambiental. No entanto, menos de quatro anos depois, o cenário político do país sofreu uma reviravolta significativa.
A Alternative für Deutschland (AfD), partido de extrema direita que nega a influência humana sobre o aquecimento global e critica políticas ambientais como elitistas e economicamente inviáveis, obteve um desempenho expressivo nas eleições nacionais mais recentes. A legenda quase dobrou sua participação no eleitorado, consolidando-se como a segunda maior força política da Alemanha. Embora uma barreira política ainda impeça a AfD de integrar formalmente o governo, sua ascensão tornou-a uma presença impossível de ignorar no debate público.
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Para analistas, a guinada política da Alemanha reflete anos de insatisfação popular. Crises sucessivas — desde a recessão global de 2008 até a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia — pressionaram o custo de vida e alimentaram um sentimento de descrédito em relação ao establishment político. A AfD, que fez campanha com uma forte agenda anti-imigração, ganhou apoio popular em meio a uma economia fragilizada, inflação elevada e preços altos da energia após a interrupção do fornecimento de gás russo.
Em segundo plano
O debate climático ficou em segundo plano durante a campanha eleitoral, o que, para especialistas, representa uma vitória da extrema direita. "A CDU, que venceu as eleições e formará um novo governo, costumava ter um discurso pró-clima, mas agora há sinais de recuo", avaliou Manès Weisskircher, do Instituto de Ciência Política da Alemanha. Apesar de reafirmar o compromisso com as metas ambientais do país, a CDU propõe manter o gás como fonte de energia por mais tempo e flexibilizar a eliminação gradual de veículos a combustão.
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A provável coalizão entre CDU e SPD deve afastar os verdes do governo, reduzindo o ímpeto por ações climáticas mais ambiciosas. "Essa aliança dificilmente adotará medidas ousadas para enfrentar a crise climática", alertou Heffa Schuecking, diretora da ONG ambiental Urgewald à CNN. O sucesso da AfD se deve, em parte, à sua estratégia de apresentar a transição energética como um projeto imposto por elites distantes da realidade da população. Esse enquadramento se repete em outros países, como Itália, Estados Unidos e Brasil, onde políticos de extrema direita retratam políticas ambientais como excessivamente caras e restritivas.
Analistas destacam que a resistência às políticas climáticas também está ligada à falta de percepção sobre os benefícios da transição energética. "O mundo entrou em uma fase crítica da transição climática", explicou Olivia Lazard, pesquisadora da Carnegie Europe. Segundo ela, a comunicação sobre a crise tem se concentrado na necessidade de reduzir emissões, sem explicar suficientemente as medidas necessárias para isso, o que gera desconhecimento e resistência entre a população.
"Há uma ofensiva da extrema direita contra a pauta climática em diversos países", afirmou Luisa Neubauer, ativista do Fridays for Future Germany. De acordo com ela, há um movimento organizado para desestabilizar as políticas ambientais, mesmo diante da intensificação de eventos extremos, como furacões e incêndios florestais. Para Neubauer, é fundamental que defensores da ação climática assumam uma posição firme contra a retórica da extrema direita. "Se deixarmos que eles definam o tom do debate, perderemos a narrativa climática", alertou.
*Com informações de CNN.