Nesta segunda-feira (31), o Brasil relembra os 61 anos do golpe civil-militar de 1964. A data, que marcou o início da ditadura que durou 21 anos, joga holofotes sobre os personagens que se destacaram nesse período sombrio da história brasileira.
Um dos nomes centrais da resistência armada à ditadura é o de Carlos Lamarca, militar do Exército Brasileiro que abandonou a farda para pegar em armas contra o regime.
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Lamarca foi capitão formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), assim como Jair Bolsonaro. Ao contrário do ex-presidente – entusiasta da ditadura e agora réu por tentativa de golpe de Estado –, Lamarca tornou-se um símbolo da resistência ao autoritarismo e à repressão.
Quem foi Carlos Lamarca?
Carlos Lamarca nasceu em 1937, no Rio de Janeiro, e ingressou no Exército ainda jovem. Formado pela AMAN em 1960, atuou como oficial em diversas regiões do país e chegou a integrar uma missão de paz da ONU na Faixa de Gaza, em 1962. Seu perfil disciplinado e sua ascensão na carreira apontavam para uma trajetória militar tradicional. No entanto, o aprofundamento da repressão após o golpe de 1964 fez com que Lamarca passasse a questionar o papel das Forças Armadas.
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Por que Carlos Lamarca desertou do Exército?
Em 1969, Lamarca tomou uma decisão extrema: desertou do Exército levando armamentos do quartel onde servia em Quitaúna (SP) e passou a integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações de luta armada contra a ditadura. Seu gesto foi motivado pelo desejo de combater o regime militar de forma ativa, diante da censura, das prisões arbitrárias, da tortura e da falta de liberdades democráticas.
O que Carlos Lamarca fez na luta contra a ditadura?
Como membro e depois líder da VPR, Lamarca participou de diversas ações armadas, como assaltos a bancos, atentados contra alvos do regime e o sequestro do embaixador suiço Giovanni Bucher, em 1970, que teve como objetivo negociar a libertação de presos políticos. Suas ações o colocaram entre os nomes mais procurados pelo regime militar.
Nos últimos anos de sua vida, Lamarca viveu na clandestinidade, se deslocando entre cidades e zonas rurais para escapar da perseguição das forças de segurança. Foi localizado e executado por militares no sertão da Bahia, em 17 de setembro de 1971.
Carlos Lamarca e Jair Bolsonaro: dois capitães, caminhos opostos
Apesar de ambos terem sido capitães do Exército e formados pela mesma instituição, suas trajetórias não poderiam ser mais distintas. Enquanto Lamarca é lembrado como um desertor que se voltou contra o autoritarismo, Bolsonaro sempre foi um defensor da ditadura militar, chegando a homenagear torturadores como Carlos Alberto Brilhante Ustra. Atualmente, Bolsonaro responde na Justiça por tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.
Quais obras retratam a vida de Carlos Lamarca?
A figura de Lamarca inspirou livros, filmes e debates. O mais conhecido é o livro "Lamarca", de Emiliano José e Miranda Oldack, que serviu de base para o filme homônimo lançado em 1994, dirigido por Sérgio Rezende e estrelado por Paulo Betti. A obra retrata sua transição de militar a guerrilheiro e sua luta contra o regime.
Também há documentários, peças de teatro e estudos acadêmicos que discutem sua importância histórica. Algumas cidades chegaram a propor homenagens a ele com nomes de ruas, mas essas iniciativas frequentemente enfrentaram resistência de setores conservadores.
Qual o legado de Carlos Lamarca?
Carlos Lamarca é amplamente reconhecido como um símbolo da resistência à ditadura militar no Brasil. Sua coragem em romper com a instituição que o formou e enfrentar um regime autoritário em nome da liberdade e da justiça social ainda inspira militantes, historiadores e defensores dos direitos humanos.
Em 2007, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça reconheceu sua promoção post mortem ao posto de coronel e concedeu indenizações à sua família. A decisão reafirmou o reconhecimento oficial de que Lamarca foi perseguido por motivações políticas e que sua luta se deu em defesa da democracia.
Por que Carlos Lamarca continua relevante?
A figura de Carlos Lamarca segue viva na memória histórica brasileira, especialmente em momentos de ameaça às instituições democráticas. Sua história desafia leituras simplistas sobre o período militar e nos convida a refletir sobre o significado da resistência em tempos de autoritarismo.