A inteligência artificial (IA) se tornou um dos principais temas das Duas Sessões anuais da China, reforçando a ambição do país de liderar a revolução tecnológica global. Durante as reuniões legislativas, foi anunciada a iniciativa AI Plus, que visa ampliar a aplicação da IA em larga escala, fortalecendo setores estratégicos como automobilismo, manufatura, saúde e tecnologia da informação.
O relatório de trabalho do governo, apresentado em 6 de março, destaca o compromisso da China com o desenvolvimento de novos terminais inteligentes, veículos conectados, robôs avançados e dispositivos habilitados para IA, posicionando o país como um "supermercado de IA", onde inovação e escala se combinam para transformar a economia e o cotidiano.
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DeepSeek: o impacto global da inovação chinesa em IA
Um dos principais exemplos do avanço tecnológico da China é o DeepSeek, um modelo de linguagem avançado que ilustra a crescente influência do país na inteligência artificial. Durante uma concorrida coletiva de imprensa em 7 de março, o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, abordou a relevância da inovação chinesa e a competição global no setor.
“O avanço da China na ciência e tecnologia já desafiou a imaginação das pessoas diversas vezes, desde bombas atômicas, mísseis e satélites, até missões espaciais e redes 5G. Agora, a inteligência artificial e o DeepSeek são mais um passo nessa trajetória”, afirmou Wang.
Ele ressaltou que o progresso chinês enfrentou desafios e barreiras, como restrições externas à indústria de chips e ciência espacial, mas que tais obstáculos impulsionaram ainda mais a inovação.
“Onde há bloqueio, há avanço; onde há repressão, há inovação”, declarou Wang, enfatizando que o desenvolvimento tecnológico deve beneficiar toda a humanidade e não ser usado como ferramenta de exclusão.
O portal O Cafezinho, parceiro da Revista Fórum, legendou emportuguês do Brasil a íntegra da coletiva de Wang Yi. Confira:
Iniciativas da China para IA
A China tem consolidado sua liderança global na inteligência artificial (IA) por meio de uma série de iniciativas estratégicas que visam expandir a aplicação da tecnologia, estabelecer padrões internacionais de governança e garantir que países emergentes tenham acesso às inovações.
A estratégia AI Plus busca integrar a IA a setores estratégicos, como manufatura, automóveis autônomos e pesquisa farmacêutica, promovendo automação avançada, veículos conectados e desenvolvimento acelerado de medicamentos.
Paralelamente, a Iniciativa de Governança Global de IA, lançada pelo presidente Xi Jinping, propõe a criação de um quadro regulatório internacional que assegure o uso seguro e ético da tecnologia, evitando monopólios e exclusões tecnológicas.
Para democratizar o acesso à IA e ampliar seu impacto social, a China implementou o Plano de Ação de Capacitação de IA para o Bem e para Todos, que foca na inclusão digital, uso da IA em áreas humanitárias e suporte a pequenas empresas na adoção da tecnologia.
Além disso, em parceria com o Brasil, a África do Sul e a União Africana, a China lançou a Iniciativa de Cooperação Internacional em Ciência Aberta, que promove o compartilhamento de conhecimento e a criação de centros de pesquisa colaborativos, garantindo que nações emergentes tenham acesso às novas tecnologias.
Com essas medidas, a China não apenas fortalece sua posição como potência tecnológica, mas também assume um papel de liderança na formulação de regras globais para a IA. A estratégia chinesa alia inovação, cooperação internacional e desenvolvimento sustentável, reforçando o compromisso de tornar a inteligência artificial um motor de crescimento econômico e inclusão global.
Transformação da manufatura e setor automotivo com IA
A integração da IA já está transformando a indústria chinesa. No Parque Industrial de Pingshan, em Shenzhen, algoritmos analisam dados de mais de 2 mil dispositivos, ajustando automaticamente parâmetros de produção quase 30 vezes por hora, tornando o processo mais eficiente e autônomo.
No setor automotivo, He Xiaopeng, presidente da montadora Xpeng, destacou que a IA está impulsionando duas grandes mudanças:
- Avanço da condução autônoma e veículos sem motorista;
- Fusão entre indústria automobilística e robótica.
Com mais de 12 milhões de veículos elétricos vendidos em 2024, a China se mantém como líder global do setor pelo 10º ano consecutivo. Segundo Zhang Yongwei, do instituto China EV100, a AI Plus abrirá novas oportunidades para o setor, acelerando a criação de veículos inteligentes e modelos avançados de IA.
Atualmente, o país conta com quase 200 modelos de IA generativa registrados, somando mais de 600 milhões de usuários. A China também responde por metade dos robôs industriais instalados no mundo e lidera padrões internacionais para robótica assistiva, especialmente para idosos e pessoas com deficiência.
De acordo com Tian Feng, especialista em IA, o DeepSeek pode atuar como catalisador para acelerar a adoção da tecnologia. Empresas de médio e pequeno porte deverão adotar ativamente soluções baseadas em IA nos próximos dois anos, enquanto grandes corporações desenvolverão modelos personalizados para suas indústrias.
“Estamos nos aproximando de um ponto de inflexão da AI Plus”, afirmou Tian.
Pesquisa farmacêutica e novas fronteiras da IA
Outro setor impactado pela inteligência artificial é a indústria farmacêutica, onde o desenvolvimento de novos medicamentos leva até 10 anos e custa cerca de US$ 1 bilhão.
Especialistas preveem que, nos próximos três a cinco anos, a pesquisa de medicamentos com IA na China entrará em crescimento acelerado, com a tecnologia assumindo funções como otimização molecular, triagem automatizada de compostos e design de rotas sintéticas.
Segundo Chen Kaixian, acadêmico da Academia Chinesa de Ciências, a IA pode gerar até US$ 1,2 trilhão para o setor farmacêutico.
“Esperamos ver o primeiro medicamento desenvolvido com IA sendo aprovado em breve”, afirmou Xi Jianzhong, da Universidade de Pequim.
IA como motor da economia chinesa
A AI Plus está alinhada à estratégia da China para fortalecer novas forças produtivas de qualidade, impulsionando o crescimento diante de desafios como demanda interna reduzida e aumento do protecionismo global.
Segundo um relatório da Goldman Sachs Research, a adoção massiva da IA na China nos próximos 10 anos pode elevar em 2,5% ao ano os lucros das empresas listadas na bolsa chinesa.
A melhora das perspectivas de crescimento e o aumento da confiança dos investidores podem ainda:
- Elevar o valor das ações chinesas em 15% a 20%;
- Atrair investimentos superiores a US$ 200 bilhões.
“Espero que 2025 seja o ano da consolidação da IA chinesa como referência global”, declarou Kai-Fu Lee, CEO da 01.AI.
Com essas inovações, a China segue apostando na inteligência artificial como motor da inovação, da economia e da competitividade global, consolidando-se como líder mundial no desenvolvimento e aplicação da tecnologia.
Com informações da Xinhua