CHINA EM FOCO

China diz que plano dos EUA para afastá-la da Rússia está fadado ao fracasso

Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, defende minar relações sino-russas, mas Pequim reage e reforça aliança com Moscou

Xi Jinping, Donald Trump e Vladimir Putin: Washington quer afastar Pequim de Moscou como diz ter feito na Guerra Fria; mas o mundo mudou.
China diz que plano dos EUA para afastá-la da Rússia está fadado ao fracasso.Xi Jinping, Donald Trump e Vladimir Putin: Washington quer afastar Pequim de Moscou como diz ter feito na Guerra Fria; mas o mundo mudou.Créditos: Fotomontagem (Wikipedia)
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Na última segunda-feira (24), o presidente da China, Xi Jinping, conversou por telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Enquanto isso, em Washington D.C., o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciava seus planos para afastar os dois países, comparando a estratégia à diplomacia de Richard Nixon durante a Guerra Fria.

Durante uma coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores da China, nesta quinta-feira (27), o porta-voz Lin Jian rejeitou as declarações de Rubio e reafirmou o compromisso da China com sua parceria estratégica com a Rússia.

"China e Rússia são dois grandes países. Nossa relação bilateral tem uma forte força motriz interna e não será afetada por terceiros. Tanto a China quanto a Rússia têm estratégias de desenvolvimento e políticas externas de longo prazo."

Lin Jian acrescentou que, independentemente das mudanças no cenário internacional, o relacionamento sino-russo seguirá seu próprio curso, e a tentativa dos EUA de semear discórdia entre os dois países está fadada ao fracasso.

Xi Jinping e Putin reforçam aliança em ligação telefônica

Na conversa com Putin, Xi Jinping recordou que, durante a reunião virtual realizada antes do Festival da Primavera, ambos traçaram diretrizes para o fortalecimento das relações sino-russas em 2025 e alinharam posições sobre questões internacionais e regionais.

"A história e a realidade mostram que China e Rússia estão destinadas a ser bons vizinhos e verdadeiros amigos. Compartilhamos desafios e conquistas, nos apoiamos mutuamente e buscamos o desenvolvimento comum."

Xi enfatizou que a relação bilateral tem um valor estratégico único, não sendo direcionada contra terceiros, nem sujeita a interferências externas. Além disso, reforçou que a parceria sino-russa contribui para a estabilidade global e o equilíbrio das relações internacionais.

Putin, por sua vez, afirmou que a Rússia valoriza profundamente sua relação com a China e destacou o desejo de fortalecer ainda mais os laços em 2025. Ele mencionou a intenção de manter intercâmbios de alto nível, aprofundar a cooperação econômica e organizar comemorações conjuntas pelo 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

O presidente russo reforçou que a aproximação com Pequim é uma escolha estratégica de longo prazo, não motivada por conveniências momentâneas, e que não será alterada por pressões externas.

"A estreita comunicação entre Rússia e China está alinhada com nossa parceria estratégica abrangente para uma nova era e envia uma mensagem clara ao mundo: desempenhamos um papel estabilizador nos assuntos internacionais."

Crise na Ucrânia: Xi reitera papel da China como mediadora

Durante a conversa, Putin atualizou Xi Jinping sobre as últimas interações diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos, além de reafirmar que Moscou busca eliminar as causas fundamentais do conflito na Ucrânia e alcançar um plano de paz duradouro.

Xi Jinping relembrou que, logo após a escalada do conflito, a China apresentou uma proposta com quatro princípios básicos para a resolução da crise. 

Ele também destacou que, em setembro do ano passado, China e Brasil, junto a outros países do Sul Global, lançaram o Grupo de Amigos para a Paz, uma iniciativa voltada para criar um ambiente propício para uma solução política do conflito ucraniano.

"A China dá boas-vindas aos esforços positivos feitos pela Rússia e outras partes envolvidas para resolver a crise."

Por fim, Xi e Putin concordaram em manter uma comunicação constante e coordenar ações por diversos canais diplomáticos.

Rubio defende afastamento da Rússia da China

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em entrevista ao portal de extrema direita e que desempenha o papel de porta-voz do movimento MAGA (Make America Great Again - Faça a América Grande de Novo), Breitbart News, que o governo Trump busca afastar a Rússia da China, em uma estratégia semelhante à adotada por Richard Nixon na Guerra Fria, quando Washington "conseguiu separar Pequim de Moscou".

Apesar da comparação, Rubio demonstrou ceticismo sobre a viabilidade do plano, reconhecendo que a dependência econômica da Rússia em relação à China aumentou nos últimos anos.

"Não sei se teremos sucesso total em afastá-los da relação com os chineses. Também não acho que ter China e Rússia como inimigas seja bom para a estabilidade global, porque ambas são potências nucleares. Mas os russos se tornaram cada vez mais dependentes dos chineses, e isso não é um bom resultado para nós."

O secretário reiterou que os EUA precisam evitar que a Rússia se torne um parceiro júnior permanente da China, pois isso resultaria em duas potências nucleares alinhadas contra os EUA.

"Se essa tendência continuar, a Rússia pode ficar tão dependente de Pequim que não conseguirá retomar boas relações conosco."

Nixon afastou Pequim de Moscou?

A comparação feita por Rubio entre Nixon e Trump é a versão de Washington e omite fatos e contextos históricos. Para Pequim, o afastamento de Moscou durante a Guerra Fria tem outros elementos além da influência turbinada dos EUA.

No auge da Guerra Fria, a aliança entre China e União Soviética entrou em colapso, resultando em confrontos militares diretos entre os dois países em 1969. Esse racha no bloco comunista, impulsionado por disputas ideológicas e territoriais, abriu caminho para uma reaproximação entre Pequim e Washington, um dos movimentos mais estratégicos da política externa dos Estados Unidos no século 20.

A diplomacia liderada pelo então presidente Richard Nixon e seu conselheiro de segurança nacional, Henry Kissinger, capitalizou esse cenário para isolar ainda mais a União Soviética, alterando o equilíbrio global de poder.

Desde a Revolução Chinesa de 1949, a China de Mao Zedong e a União Soviética de Josef Stálin mantiveram uma aliança baseada na ideologia comunista. Moscou forneceu ajuda econômica e militar para a modernização da China, enquanto Pequim apoiava a influência soviética no mundo socialista. No entanto, essa parceria começou a ruir nos anos 1950 e 1960, devido a três fatores principais:

  1. Divergências ideológicas – Mao Zedong via a União Soviética como um regime revisionista, acusando os sucessores de Stálin de se aproximarem do Ocidente e traírem os princípios do comunismo revolucionário. Moscou, por outro lado, considerava a China imprevisível e agressiva, temendo que suas ações desestabilizassem o equilíbrio global.
     
  2. Disputa pela liderança do mundo comunista – Com a morte de Stálin em 1953, Nikita Khrushchev adotou uma política de "coexistência pacífica" com os Estados Unidos, o que gerou fortes críticas da China. Pequim tentava se consolidar como o verdadeiro centro do comunismo global, enquanto Moscou apoiava governos e partidos comunistas sem considerar os interesses chineses.
     
  3. Conflitos territoriais e crise militar em 1969 – A fronteira sino-soviética, que se estendia por mais de 4.300 km, sempre foi uma fonte de tensão. Pequim contestava os tratados do século 19, que haviam concedido vastos territórios à Rússia czarista. Essa disputa culminou em violentos confrontos armados na Ilha de Zhenbao, no rio Ussuri, em março de 1969.

O confronto de Zhenbao provocou uma escalada militar sem precedentes. Os soviéticos reforçaram suas tropas na fronteira, enquanto a China preparava-se para um possível ataque total. O risco de uma guerra aberta entre os dois gigantes comunistas acelerou a necessidade de uma reavaliação estratégica por parte de Pequim.

Enquanto China e União Soviética se enfrentavam, os Estados Unidos enxergaram uma oportunidade única para explorar essa divisão. Nixon e Kissinger desenvolveram um plano de três fases para romper o isolamento diplomático da China e usá-la como um contrapeso à influência soviética.

1. Diplomacia Secreta: Kissinger em Pequim (1971)

  • Em uma manobra ousada, Kissinger fez visitas secretas à China, preparando o terreno para negociações.
     
  • O governo dos EUA reduziu sua retórica anticomunista e flexibilizou restrições comerciais contra Pequim.
     
  • Pequim, por sua vez, buscava normalizar as relações com os EUA para equilibrar sua posição contra Moscou.

2. Visita Histórica de Nixon à China (1972)

  • Nixon se tornou o primeiro presidente americano a visitar Pequim, encontrando-se com Mao Zedong e Zhou Enlai.
     
  • O evento marcou o início das relações diplomáticas formais entre China e EUA.
     
  • Washington e Pequim trocaram concessões estratégicas, incluindo maior abertura comercial e reconhecimento mútuo como atores globais.

3. Acordos Comerciais e Diplomáticos

  • Os EUA passaram a considerar a China um parceiro estratégico para conter a União Soviética.
     
  • Pequim recebeu acesso a tecnologia e investimentos americanos, impulsionando sua economia.
     
  • A aliança sino-soviética foi oficialmente desfeita, deixando Moscou mais vulnerável no cenário global.

Impacto global e legado da estratégia de Nixon

A diplomacia de Nixon alterou profundamente a dinâmica da Guerra Fria. O afastamento entre China e União Soviética forçou Moscou a se concentrar mais em sua defesa e menos na expansão de sua influência global, facilitando a hegemonia dos EUA no Ocidente.

  • Isolamento da União Soviética – Moscou teve que desviar recursos para conter a China, reduzindo sua capacidade de confrontar os EUA diretamente.
     
  • Ascensão da China como potência global – A reaproximação com os EUA abriu caminho para as reformas econômicas chinesas que, anos depois, impulsionaram o país ao status de superpotência.
     
  • Reconfiguração da Guerra Fria – Em vez de um bloco comunista unificado, o mundo passou a ter três grandes polos de poder: EUA, URSS e China.

O passado e o presente das relações sino-russas

Embora a ruptura sino-soviética tenha sido explorada pelos EUA na década de 1970, a relação entre China e Rússia voltou a se fortalecer nas últimas décadas. Hoje, Pequim e Moscou mantêm uma parceria estratégica baseada em interesses comuns, especialmente na oposição à hegemonia estadunidense.

Atualmente, Washington tenta repetir a estratégia de Nixon, agora buscando afastar Putin de Xi Jinping, como revela a entrevista de Marco Rubio ao Breitbart News. No entanto, o contexto geopolítico é diferente, e Pequim não enxerga mais os EUA como um parceiro confiável. A resposta chinesa indica que esse plano tem poucas chances de sucesso.

Se a Guerra Fria foi marcada pela divisão entre China e URSS, o cenário atual aponta para uma nova configuração de poder, onde Pequim e Moscou, agora aliados, buscam redesenhar a ordem internacional em seus próprios termos.

Se, no passado, a Guerra Fria separou Moscou e Pequim, a rivalidade com os EUA agora os aproxima, criando um novo eixo de poder que desafia a ordem global liderada pelo Ocidente.

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