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Funcionária pública na Alemanha é demitida por apoiar causa palestina - Por André Lobão

Militante-candidata foi demitida do Ministério do Trabalho por conta de sua opinião em favor dos palestinos. Esse é mais um caso de perseguição para quem apoia a Palestina e denuncia o sionismo na Alemanha

Melanie Schweizer, advogada alemã e apoiadora da causa palestina.Créditos: Instagram / Melanie Schweizer
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Melanie Schweizer é uma advogada alemã e cientista política, especializada em economia e direitos humanos, tendo concorrido à Câmara Federal da Alemanha (Bundestag) nas recentes eleições federais realizadas no último mês de fevereiro, pelo partido MERA25, um partido progressista de esquerda que surgiu em 2021 a partir do movimento Pan Europeu DiEM25. Ela não conseguiu ser eleita.

Melanie Schweizer foi acusada pelo jornal Bild, um dos principais veículos de comunicação da Alemanha, de promover o antissemitismo, em uma campanha de difamação.

Em entrevista à Revista Jacobin alemã, ela diz que sua demissão foi justificada sob três alegações: Inicialmente por uma violação do princípio da moderação. “Isso é justificado pelas minhas declarações nas redes sociais. Meu antigo empregador compilou uma lista de declarações que fiz, por exemplo, que Israel, em sua forma atual, é um estado racista e genocida”, disse na entrevista.

A advogada recebeu uma carta de 20 páginas explicando a demissão. Segundo Melanie Schweizer, o mandamento da moderação deve ser aplicado em relação à realidade. “Na realidade, o Estado de Israel é acusado de genocídio perante o Tribunal Internacional de Justiça. Quando descrevo o Estado de Israel como um estado atualmente genocida em minha livre expressão e campanha política, isso se baseia em fatos que foram classificados como tal por renomadas organizações de direitos humanos e pesquisadores do Holocausto e do genocídio”, explica.

Brincos de melancia

Assim, o Ministério do Trabalho alemão acusou Schweizer de violar o dever de neutralidade e lealdade. Na entrevista à Jacobin ela diz que todas as acusações de foi alvo estão relacionadas a declarações feitas fora do trabalho, em redes sociais e atos políticos que participou na campanha eleitoral e em protestos pró-Palestina. A advogada ainda foi acusada de portar símbolos políticos como “brincos de melancia”. A melancia é considerada um símbolo da resistência do povo palestino por causa de suas cores, as mesmas da bandeira palestina.  A terceira alegação é uma violação do dever de boa conduta. 

Consequências por ter assinado uma carta aberta

Um dos motivos mencionados na demissão é uma carta aberta subscrita com professores e artistas locais, internacionais, e até alguns de Israel. 

Ao assinar o documento, Melanie declarou o nome de seu empregador, o Ministério do Trabalho da Alemanha. 

“No início, adicionei meu ministério, já que todos os signatários declararam seus respectivos empregadores. No dia 10/12/24, recebi uma ligação de alguém próximo no ministério, não da gerência. Me disseram que a carta estava correta, que eu só precisava remover a filiação ao ministério. Eu obedeci imediatamente. O fato que isso está sendo interpretado como abuso de autoridade, ou seja, que eu queria dar a impressão de que estava falando em nome do ministério. Isso é bem absurdo, afinal, sabemos que tipo de política o governo federal está adotando. Também sou acusada de levar minhas opiniões políticas para o meu trabalho. O motivo alegado é que outras pessoas do ministério ficaram aborrecidas, não querendo mais trabalhar comigo, quando o artigo do Bild foi publicado, em 12/12/24”, detalhou.

Mídias sociais serviram para início da perseguição à advogada

Melanie acredita que tudo começou quando Malca Goldstein-Wolf, uma publicitária de origem judaica e ativista antissemita escreveu no X, sobre uma publicação do jornalista Georg Restle, dizendo que ele era o maior antissemita de todos e perguntou quando ele finalmente seria demitido.  “Comentei que ela deveria, por favor, parar com essas campanhas de difamação. Provavelmente foi isso que a fez olhar meu perfil e ver que sou advogada. Ela provavelmente pensou consigo mesma: “Ok, como pode ser isso? "Há uma advogada que apoia publicamente a Palestina e ainda não perdeu o emprego?”

Ao ler o comentário de Melanie Schweizer, Malca descobriu que a advogada tinha um perfil no Linkedin onde descobriu que o empregador era o Ministério do Trabalho. A partir daí a publicitária começou a postar acusações no X, que o Bild usou para a reportagem difamatória contra Melanie.
A partir do texto do Bild o caminho da suspensão foi rápido.  Houve uma conversa com o departamento de recursos humanos. “Eles queriam saber se eu continuaria a expressar minha opinião. Eu disse sim, afinal é meu direito fundamental”, afirmou à Jacob. 

Demissão por crime de opinião

Então candidata ao parlamento alemão, Melanie Schweizer disse que suas declarações nas redes sociais eram baseadas a partir do conteúdo do programa de seu partido. Ela cita que há ainda, na Alemanha, uma proteção adicional contra demissão em campanhas eleitorais políticas, o que significa que ninguém pode ser demitido exatamente por esses motivos políticos. 
“O parágrafo dois da Lei dos Membros do Parlamento estabelece que uma pessoa não pode ser demitida se ela se candidatar a um cargo político e a demissão estiver relacionada ao desempenho desse cargo. É claro que minhas declarações políticas estão relacionadas ao cargo que busquei. Eu simplesmente acho que isso é irrelevante do ponto de vista deles. Trata-se de impedir a expressão da minha opinião sobre Israel Palestina”, denuncia.

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