Uma nova função que passou a integrar recentemente o ChatGPT, modelo de inteligência artificial desenvolvido pela OpenAI que soma até 400 milhões de usuários por semana, permite, a um alto custo energético, gerar imagens no estilo artístico das ilustrações do Studio Ghibli, a partir de fotos, descrições ("prompts") e até memes.
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O Studio Ghibli, um dos estúdios de animação mais famosos do mundo, fundado em 1985 pelos diretores Hayao Miyazaki, Isao Takahata e Toshio Suzuki, é conhecido por seu estilo narrativo confortável, que remete a tradições folclóricas do Japão, mas também repleto de críticas sociais e políticas incorporadas por personagens fortes e criaturas mágicas, com uma forte conexão a elementos visuais naturais.
É por isso que seu estilo de arte, com uma estética rica e detalhada em 2D, que valoriza o desenho à mão e a animação artesanal de movimentos e cenários, se tornou febre entre os usuários do ChatGPT: as paletas aconchegantes, o uso de sombras sutis e da luz natural, e o design simples das feições de seus personagens trazem uma atmosfera sóbria mas encantadora, que levou milhares de brasileiros a reproduzi-la usando as próprias fotos, para ter um "pedacinho" dessa personalidade.
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Apesar da febre das IAs na geração de arte, o criador por trás da icônica estética do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki, já demonstrou ter uma visão crítica da função, com a opinião de que a arte deveria sempre refletir a experiência humana, e de que o uso de ferramentas de inteligência artificial para criar novos registros artísticos careceria, fundamentalmente, de "alma" e "sensibilidade".
Em 2016, um documentário sobre Miyazaki dirigido pela emissora japonesa NHK mostrou sua reação negativa ao assistir a uma demonstração de animação gerada a partir de inteligência artificial.
"Isso é um insulto à própria vida", anunciou ele após assistir ao vídeo gerado por IA. Compromissado com as formas de arte e animação tradicionais, o Studio Ghibli é um dos únicos estúdios do mundo a continuar a sua produção de filmes majoritariamente à mão, sem uso extensivo de computação gráfica.
Nos últimos dias, tanto usuários como autoridades têm lançado mão da ferramenta, e mesmo o perfil oficial da Casa Branca publicou, na rede social X, uma imagem gerada artificialmente, no estilo das animações de Miyazaki, em que uma mulher de 36 anos, natural da República Dominicana, é representada chorando enquanto se tem algemada por um oficial norte-americano do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE).
Os ensinamentos do gênio por trás das obras
Hayao Miyazaki nasceu em Tóquio em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai era diretor de uma empresa que fabricava peças para aviões militares, e esses dois temas — a guerra e a aviação —, como muitas outras referências autobiográficas, figuram em alguns de seus filmes.
É o exemplo de Porco Rosso (1992), que acompanha um ex-piloto da Primeira Guerra Mundial amaldiçoado com a aparência de um porco; e de Vidas ao Vento (2013), em que um engenheiro aeronáutico, responsável pelo desenvolvimento do caça Mitsubishi A6M Zero, usado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, tem sua paixão pela aviação ameaçada pelo dilema moral de ver suas criações usadas nos empreendimentos de guerra.
Miyazaki se formou em Ciência Política e Economia na Universidade Gakushuin, mas sua verdadeira vocação sempre havia sido a animação: apaixonado por mangás desde pequeno, ele iniciou sua carreira como animador em 1963, quando foi contratado pelo estúdio japonês Toei Animation. Lá, trabalhou em filmes como O Pequeno Príncipe e o Dragão de Oito Cabeças (1963), e conheceu, durante seu período no estúdio, aquele que viria a se tornar o co-fundador do Studio Ghibli, seu amigo Isao Takahata.
Em 1984, Miyazaki dirigiu o primeiro filme baseado em uma história própria, seu mangá Nausicaä do Vale do Vento, cujo sucesso levaria à fundação do Studio Ghibli no ano seguinte, em 1985, junto a Takahata e um outro amigo, Toshio Suzuki.
O primeiro filme de Miyazaki é ambientado mil anos após um apocalipse ecológico causado pela guerra dos Sete Dias de Fogo ter devastado a Terra. O cenário mostra uma floresta decadente, habitada por insetos gigantes e bichos venenosos. Ali, a humanidade vive em pequenos reinos isolados, e um deles, chamado de Vale do Vento e liderado pelo Rei Jihl, é invadido por um império militar, o Tolmekia.
A personagem principal que dá nome ao filme, Nausicaä, é uma jovem corajosa que acredita no pacifismo — uma das muitas personagens femininas com projeção forte de Miyazaki —, que é capaz de se comunicar com os seres da floresta. Nausicaä intervém na invasão ao Vale do Vento para evitar sua destruição, e acaba descobrindo, no processo, a verdadeira natureza da floresta chamada Mar da Decadência.
Em A Princesa Mononoke (1999), mais um exemplo de personagem feminina forte, com nuances de personalidade, se une a temas ambientais e anticapitalistas: uma jovem criada por lobos, San (a princesa Mononoke) luta para proteger a natureza contra as ameaças do líder da Cidade do Ferro, que quer expandir sua sociedade industrial, desmatando a floresta para aumentar seus recursos.
Temas ambientais e críticas sociais são a tônica inicial do Studio Ghibli, que teve como segundo título, em 1988, "Meu Vizinho Totoro", talvez o maior símbolo do estúdio — que também se tornou seu mascote oficial.
Milhões de artigos de publicidade que figuram o personagem principal da obra, o ser mágico Totoro, foram vendidos no mundo inteiro desde o lançamento do filme, no qual duas irmãs, Satsuki e Mei (personagens inspiradas na própria infância de Miyazaki), se mudam para uma casa antiga com seu pai enquanto a mãe passa por tratamento de saúde em um hospital.
O filme, que foca nas descobertas infantis e nos momentos de lazer cotidianos, e considerado o filme mais pessoal de Miyazaki, tem como acontecimento principal o encontro das garotas com "seu amigo Totoro", enquanto exploram as redondezas de sua nova casa.
Uma criatura mágica, grande e felpuda, Totoro representa um espírito da floresta, uma imagem folclórica comum nas obras do Studio Ghibli, e o filme é uma demonstração pura e emocionante da relação de encantamento infantil com o mundo natural, seu espírito imaginativo e a importância do cotidiano familiar. As cenas simples, em que as crianças brincam com o pai no jardim, visitam a mãe no hospital e se conectam com os seres da floresta, encantam pela valorização do que Miyazaki defende em suas criações: o espírito humano, a paixão pela arte e a relação sutil entre o autor e sua obra.
A incrível cena em que Totoro e as garotas viajam pelo céu foi criada sem o uso de qualquer ferramenta de computação gráfica, com todos os efeitos visuais feitos à mão.
Mais do que estética, Studio Ghibli tem estilo narrativo único
Um outro aspecto fundamental das obras de Miyazaki é a preocupação com uma narrativa imaginativa e complexa, que evita maniqueísmos: nos filmes do Studio Ghibli, o bem e o mal não constituem um dualismo bem definido, mas são explorados de maneira interconexa, com personagens pouco tradicionais cuja bondade e moralidade são fluidos e, frequentemente, se alternam.
Em A Viagem de Chihiro (2003), uma de suas obras mais famosas e repletas de referências visuais, a relação entre o bem e o mal e suas nuances são retratadas por Miyazaki a partir de espíritos e deuses, e de uma personagem principal confusa que busca salvar os pais transformados em porcos — mais uma vez, uma referência, como a de Porco Rosso, à "maldição dos porcos", que Miyazaki descreveu, durante uma entrevista concedida à revista de cinema francesa POSITIF, como "símbolos do Japão de hoje", criaturas vorazes que "devoram tudo".
Mesmo sua principal antagonista, a bruxa Yubaba, que se descobre ser a governanta da casa de banhos repleta de espíritos e responsável por aprisionar o aliado de Chihiro, Haku, é vista como uma personagem complexa, dedicada a proteger seu filho e obscurecida pelos próprios dilemas de poder. Sua irmã, Zeniba, uma pequena idosa apresentada como sábia e gentil, age como uma mentora para o "reequilíbrio" entre os personagens e as forças, boas, más e neutras, do mundo espiritual.
Em Ponyo (2008), a visão simplista do bem e do mal é desafiada com uma narrativa ao mesmo tempo doce e ambiciosa, em que as forças do bem e do mal têm suas próprias motivações: embora Ponyo, a criatura marinha que toma a forma de uma menininha, seja "aprisionada" no mar por seu pai, à primeira vista um vilão, descobre-se que ele é, na verdade, um guardião da natureza, que odeia a poluição dos oceanos causada pelas ações antrópicas na costa do Japão.
Fujimoto, o pretendido antagonista do garotinho Sosuke e de sua amiga Ponyo, demonstra uma motivação menos vilanesca: a de que Ponyo deve continuar no mar, junto às suas "cópias", para preservar o equilíbrio natural.
O último filme lançado pelo Studio Ghibli, O Menino e a Garça (2023), projeto que vingou após diversas ameaças de aposentaria de Miyazaki e do fim de suas produções, talvez seja o maior exemplo dos temas profundos e espirituais abordados pelo autor.
Seguindo a história fantástica de Mahito, um garoto que vive num pequeno vilarejo e lida com questões existenciais, como o luto e a confusão de ter perdido a mãe, o filme mostra seu encontro com uma garça mágica, inicialmente apresentada como vilã, que representa uma espécie de conexão a ligar o mundo físico ao mundo espiritual, mas também está aprisionada por suas dinâmicas.
Foi a segunda maior bilheteria de uma estreia do Studio Ghibli, que arrecadou US$ 11,3 milhões no primeiro fim de semana de exibições — perdendo apenas para A Viagem de Chiriro, que faturou, em 2001, cerca de US$ 13,1 milhões em apenas três dias.
Os filmes de Miyazaki costumam ter elementos inspirados ou tirados diretamente de sua vida. Ainda em entrevista à POSITIF, ele revelou, sobre A Viagem de Chihiro, ter feito o filme "para as duas filhas dos meus amigos", que tinham 10 anos à época — a mesma idade da menina no filme.
"Não queria mostrar algo como 'uma batalha entre o bem e o mal", disse ele sobre a obra, "queria mostrar ao mundo a verdade. As meninas têm de descobrir o mundo como ele é, ao invés da situação dualista e simplista demais do bem e do mal". Falando sobre sua obsessão com personagens que "comem demais", Miyazaki disse ter visto "O Jantar de Babette", um "filme lindo", que "adora", e cujas personagens também comem muito.
Para o autor, o gênio por trás das obras que encantam o mundo inteiro há anos, "existe algo de errado com todo mundo", e essa verdade complexa deve ser contada a partir de uma visão humana, fantástica e criativa, que só é possível de ser acessada fora do ambiente autogenerativo da "inteligência artificial", e com um apego maior à cultura e à tradição de seus lugares de origem.
Essas são algumas das lições ensinadas por Miyazaki e o Studio Ghibli.