Ao mudar de estratégia e se dirigir ao Supremo Tribunal Federal (STF) para "encarar" os ministros da primeira turma nesta terça-feira (25), Jair Bolsonaro distribuiu um texto via WhatsApp para aliados em que antecipa o tom do discurso que deve fazer ao ser tornado réu nesta quarta-feira (26). A estratégia de ficar frente a frente com os ministros foi ideia de Fabio Wajngarten, ex-Secom e uma espécie de consultor jurídico, que queria uma foto de Bolsonaro de cabeça erguida na corte, politizando o julgamento.
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“Trata-se da maior perseguição político-judicial da história do Brasil, motivada por inconfessáveis desejos, por vaidades e por claros interesses políticos de impedir que eu participe e ganhe a eleição presidencial de 2026”, diz Bolsonaro, apostando no vitimismo, na mensagem.
Sobre a tentativa de golpe, Bolsonaro chega a admitir que que conversou "com auxiliares alternativas políticas para a Nação", mas nega que tenha planejado uma "ruptura democrática".
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"Me acusam de um crime que jamais cometi – uma suposta tentativa de golpe de Estado. Conversei com auxiliares alternativas políticas para a Nação, mas nunca desejei ou levantei a possibilidade da ruptura democrática. As mudanças nos comandos das Forças Armadas foram feitas sem problemas", segue o ex-presidente.
Nesta terça-feira (25), o advogado Celso Vilardi afirmou durante explanação da defesa que Jair Bolsonaro teria feita a articulação de José Múcio Monteiro, atual ministro da Defesa, com as Forças Armadas, que não queriam conversar com o governo Lula.
"Foi o presidente [Bolsonaro] quem determinou que eles atendessem o ministro da Defesa que assumiu em 1º de janeiro. Portanto, ministro, não é possível que se queira dizer que é compatível com uma tentativa de golpe com uso do comando militar quando o presidente da República autoriza a transmissão do poderio militar no começo de dezembro", disse Vilardi, pedindo a rejeição da denúncia contra Bolsonaro.
Em seu discurso como réu, Bolsonaro ainda deve falar da perseguição à família, citando o "exílio" de Eduardo Bolsonaro nos EUA, e repetir a ladainha de que "Sempre agi nas quatros linhas da Constituição".
Na mensagem enviada aos interlocutores, Bolsonaro ainda ensaia um recuo nos ataques ao STF concluindo com a frase: "Confio na Justiça!".
O fator Fux
Na sessão desta quarta-feira, a defesa e o próprio Bolsonaro estarão atentos ao voto de Luiz Fux, único ministro a divergir de seus pares ao se posicionar a favor do julgamento do caso pelo plenário do Supremo.
A posição vai ao encontro das defesas dos denunciados, que querem incluir Kássio Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro, no julgamento para postergar a decisão e fazer um contraponto a favor do ex-presidente entre os ministros.
"Ou nós estamos julgando pessoas que não exercem função pública e não têm prerrogativa de foro no Supremo, ou estamos julgando pessoas que têm essa prerrogativa, e (nesse caso) o local correto seria efetivamente o plenário do STF", disse Fux ao confirmar seu voto na sessão na primeira turma.
A defesa de Bolsonaro ainda comemorou uma fala de Fux sobre a delação do tenente-coronel Mauro Cid. O ministro afirmou que o ex-ajudante de ordens teria omitido informações em sua delação.
"Vejo com muita reserva nove delações de um mesmo colaborador, cada hora acrescentando uma novidade. Em se tratando deste momento, eu me reservo o direito de avaliar, no momento próprio, a legalidade e a eficácia dessas delações sucessivas, mas acompanho (o voto do relator) no sentido de que não é o momento de se decretar a nulidade", afirmou Fux.
A declaração deu esperanças a defesa de ter apoio dentro da corte para anular a delação de Cid que, segundo advogados de Bolsonaro e de outros denunciados, como Walter Braga Netto, "mentiu, omitiu e se contradisse" nos depoimentos, o que seria passível de anulação.
Caso a delação de Cid seja anulada, todas as ações da Polícia Federal decorrentes das informações revelada pelo militar seriam anuladas, inclusive as provas colhidas em operações de busca e apreensão.
A defesa de Bolsonaro ainda coloca as esperanças em Fux para depois que o presidente tornar-se réu, provavelmente nesta quarta-feira.
O ministro pode evitar uma condenação unânime da primeira turma, o que anularia qualquer possibilidade de recorrer da decisão no plenário da corte.
Com um voto divergente na condenação, as defesas levarão o caso a plenário, onde pretendem postergar a sentença final para 2026 para tumultuar o ano eleitoral, o que a maioria dos ministros do Supremo não quer.