REFLEXÕES

O mundo está merecendo um tango: "Cambalache" – Por Mouzar Benedito

O tango era uma música de negros, na região de Buenos Aires, onde surgiu no século XIX. E era alegre. Só se tornou trágico quando foi assumido pelos brancos

O tango.Créditos: Pixabay
Escrito en OPINIÃO el

Algum leitor pode reclamar: “Esse cara está cometendo um autoplágio”. Sim, isso existe. Plagiar-se a si mesmo. No caso, a repetição de um texto que publiquei antes. Não exatamente o mesmo, mas quase igual, com o mesmo tom. É o caso deste. Na Fórum mesmo publiquei um há oito anos e depois em outros lugares também.

Hoje em dia já não se fala mais que “minha vida dá um tango”, como diziam algumas pessoas que se julgavam sofredoras ou vítimas de tragédia. Quando alguém me falava isso, em tom de sofredora, eu replicava: “Pois a minha [vida] dá um long-play de tangos”.

Bom, long-play, muita gente já não sabe o que é. Um disco de vinil com várias músicas, para tocar em vitrolas (!!!), e o tango está meio fora de moda, embora a Argentina, seu país de origem, esteja merecendo tangos e mais tangos com esse sentido de tragédia. Ou melhor: os argentinos estão assim, com um governo horroroso, de fazer inveja aos bozos da vida.

Vale uma ressalva aqui: o tango, gênero musical com uma melodia bonita, coisa que os apreciadores do sertanejo universitário nem têm noção do que é, não surgiu como música com letras trágicas. Os ditos sertanejos podem contestar: nós temos a sofrência. Argh! Não se compara!

Volto às origens do tango segundo um livro que li. Era uma música de negros, na região de Buenos Aires, onde surgiu no século XIX. E era alegre. Só se tornou trágico quando foi assumido pelos brancos, especialmente da classe média.

Ah... Negros, na Argentina? Sim, não tinham tantos quanto no Brasil, mas já teve bem mais. Nos tempos das guerras do início do século XIX, que eram muitas, o exército argentino colocava os negros na linha de frente, eram os primeiros a morrer. Não sei que políticas adotaram depois para continuar essa estratégia de embranquecimento, exaltada até pelo presidente que antecedeu o atual e se dizia de esquerda. Num discurso, disse com pretensão de superioridade que o Brasil foi formado por negros, o México por índios, enquanto os argentinos vieram de barco. Europeus.

Agora vamos ao meu autoplágio. É sobre um dos mais belos e críticos tangos que já ouvi, “Cambalache”, do poeta e compositor Discépolo (Enrique Santos Discépolo – 1901/1951), argentino.

Composta em 1935, a música começa assim:

“Que o mundo foi e será uma porcaria eu já sei...”. Referia-se ao século XX. Há tempos me pergunto: “só” ao século XX?

Em 2021, com Trump na gringolândia e Bozo aqui, foi uma das vezes que concluí que o mundo nunca foi tão cambalache. O século XXI merece ser chamado de cambalache também.

Eu me lembro de quando era criança, nos anos 1950, e na barbearia do meu pai, numa cidadezinha minúscula de Minas Gerais, onde só existia uma escola com o curso primário, quase sem comunicação com o mundo, um monte de roceiros e homens simples, falava sobre como seria o ano 2000 e os que viriam depois. Eu ouvia tudo com interesse e guardei na memória.

Na imaginação deles, seria um mundo sem miséria, injustiças, nada disso. Todo mundo teria casa decente pra morar, emprego digno, boas escolas, médicos e bons hospitais para tratar da saúde... E não haveria violência, porque não teria motivo para isso.

Pena que nossos bons caipiras não tenham sido também bons profetas. O cambalache está aí, firme e forte.

Uns trechos desse tango, como os que se seguem, martelam minha cabeça. Numa tradução livre e sem dividir o texto em versos nem rimar, é isso:

Hoje em dia dá no mesmo ser honesto ou traidor. Ignorante, sábio, ladrão, generoso ou vigarista.

Tudo é igual! Ninguém é melhor! Se um vive na impostura e outro rouba em sua ambição, dá no mesmo que seja padre, dorminhoco, dedo-duro, cara-de-pau ou vagabundo.

Sempre houve ladrões, espertalhões e enganados, felizes e amargurados, originais e imitações.

Mas o século XX é uma exposição de maldade insolente, não há quem negue. Vivemos misturados em encrencas e na mesma lama todos manipulados.

Dá no mesmo se trabalha noite e dia feito um boi, se vive dos outros, se é o que mata ou o que cura, ou que está fora da lei.

Século vinte cambalacho, problemático e febril... O que não chora não mama, e o que não rouba é imbecil.

Pois é... É muito pessimismo. Mas, será que dá pra ser otimista?

O ódio e a esperteza, a violência, o fanatismo, o individualismo, a ganância, tornaram-se parâmetros nas relações humanas e entre nações crescendo no mundo quase todo, “justificando” massacres e guerras. Por trás disso tudo, “pessoas de bem”, como eles dizem que são. Sim. “Pessoa de bem” é uma categoria que inclui quem rouba empregados, quem incendeia as matas e extermina povos indígenas, quem odeia a educação, a cultura e a ciência, homem que mata mulher, racista, preconceituoso extremo, grileiro, poluidor etc. etc. etc. Quem NÃO faz essas coisas NÃO é “de bem”. Produzir miséria, desespero, mortes, intolerância e outras malignidades é atividade em alta. “Virtudes” que até elegem presidente no país mais poderoso do mundo e provocam inveja e esperança em “virtuosos” daqui.

A História é cíclica, confia-se, mas chegaremos a ultrapassar vivos o ciclo atual? É muito sintomático que eu, que deveria ocupar este espaço pra falar com humor de coisas da cultura brasileira, fique me lembrando de um dos mais dramáticos tangos argentinos.

Mas o que é cambalache?

A palavra cambalache, cambalacho em português, pode ter o sentido de mutreta, trapaça, plano para enganar alguém ou, simplesmente, brechó – quer dizer, comércio barato de coisas usadas, que não é o caso nesse tango.

A sua letra, como as de muitos outros, tem muito do lunfardo, a gíria dos malandros de Buenos Aires (Rosário e Montevidéu também). Uma das versões da origem do lunfardo é que os presos a inventaram para que os carcereiros não os entendessem. Mas existem outras versões.

Acredita-se que seus criadores foram italianos e descendentes, pobres. E passou a ser uma gíria popular, não só de malandros. Mas com a fama de ser da malandragem, e do tango também, especialmente de letristas como Discépolo, um dos maiores do gênero.

Por mera curiosidade, levantei um pouco dessa gíria, que coincide com muito da gíria da malandragem brasileira (e policial também), e parte tornou-se usada por todo mundo.

Nem sempre “importamos” a gíria de lá. Às vezes, o lunfardo é que importou a daqui, como no caso de catinga (mau-cheiro). E às vezes adaptamos: lá, defunto é “mortadela”, e na gíria policial e malandra daqui é “presunto”. A nossa “vaquinha”, levantamento de dinheiro de um grupo, pra fazer alguma coisa, no lunfardo é “vaca”.

E tem uma outra coisa do lunfardo que coincide com algo bem interiorano do Brasil: lá eles chamam de “vesre” (pronuncia-se vés-rê), revés com as sílabas trocadas, de trás pra frente. Em algumas cidades brasileiras, existia o “revestrés”, com o mesmo sentido. Nos anos 1980 existia, por exemplo, em São Luiz do Paraitinga. Muitos meninos falavam o revestrés, e até cantavam músicas conhecidas com as sílabas truncadas. Não sei se ainda haja quem pratique o revestrés.

Eis algumas palavras do “vesre” lunfardo: Broli (libro - livro), gotan (tango), davi (vida), goman (mango, grana), ispa (país), naca (cana, cadeia), sover (verso), trompa (patrón, patrão), nami (mina)

Agora vejam uma pequena lista de palavras da nossa gíria que coincide com o lunfardo (quantas importamos, quantas exportamos?):

Achacar, afanar, engrupir, patota, alcaguetar, fajuto, bacana, aliviar (no sentido de roubar, furtar), cafiolo (proxeneta, cafetão), bandear (mudar de posição), cabreiro (desconfiado), bife (tapa), cafua (cadeia, e também esconderijo), bronca, fuleiro, cagaço, calote, gatuno, cancha (traquejo), caradura, cantar (na gíria policial, entregar o jogo, entregar outras pessoas), cana (cadeia), cobres (dinheiro), embalado (vindo a toda), escrachado, espichado (morto), farra, forrado (cheio da grana), programa (relação amorosa), mango, gazua, gorila (militar golpista), lelé (senil), matungo (cavalo ruim), naco (pedaço), pelar (limpar – no jogo, por exemplo), pinta (postura – boa pinta, por exemplo), punguista, tira (policial), tramoia, gigolô, retranca, otário, pachorra, parada (aposta), pechinchar...

Essas palavras entraram para a nossa língua oficial, estão nos nossos dicionários desde o século XX e continuam valendo no século XXI, assim como o cambalacho como característica da sociedade, cada vez mais na moda. Mas vai passar... A História é cíclica, repito. E quando passar, quem estiver vivo, e tiver uma decência não encontrável nas pessoas que se dizem “de bem”, há de festejar. E torcer para que o século XXII, se é que o mundo chega lá, não mereça esse tango.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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