Entre 1985 e 2018, as ondas do Oceano Antártico cresceram em média 30 centímetros, o equivalente a um centímetro por ano. Esse fenômeno não se restringe ao Antártico: as ondas geradas nessa região se propagam para os oceanos Pacífico, Atlântico Sul e Índico, elevando também o tamanho das ondas nessas áreas.
Além disso, a energia das ondas aumentou aproximadamente 8% desde a década de 1980, com uma aceleração significativa a partir do início do século XXI. Esse crescimento reflete não apenas o aumento da altura das ondas, mas também a intensificação de tempestades e a maior frequência de eventos extremos.
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Segundo pesquisas lideradas por Mark Hemer, se as emissões de carbono não forem drasticamente reduzidas, esse processo continuará. No entanto, as mudanças não serão uniformes em todas as regiões. Enquanto algumas áreas, como o Pacífico Norte e o Atlântico Norte, podem experimentar uma redução na altura das ondas, outras enfrentarão cenários mais críticos.
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Ian Young, professor de engenharia na Universidade de Melbourne, alerta que até 2100 cerca de 60% do litoral global será afetado por ondas extremas maiores e mais frequentes. Sem cortes significativos nas emissões, eventos extremos relacionados ao nível do mar podem se tornar dez vezes mais comuns até o final do século, com impactos econômicos. Inundações costeiras, por exemplo, podem comprometer até 20% do valor da economia mundial. Young destaca que, embora o aumento do nível do mar seja a principal preocupação, as ondas de quebra podem ser responsáveis por até 20% das inundações.
Impactos nas comunidades costeiras
Eventos recentes ilustram os efeitos dessas mudanças. Em 2016, uma tempestade em Narrabeen e Collaroy, no norte de Sydney, erodiu 25 metros de costa, deixando casas à beira de penhascos. Ondas maiores também têm contribuído para inundações catastróficas em ilhas do Pacífico, acelerado a erosão de praias no sudoeste da Inglaterra e da França, e intensificado o recuo de litorais no Ártico, onde comunidades já perdem vários metros de terra por ano.
Hemer ressalta, no entanto, que focar apenas na altura das ondas é insuficiente. "É como descrever uma orquestra apenas pelo volume", explica. Mudanças na frequência, direção e comprimento das ondas podem ter impactos igualmente significativos, alterando o movimento de sedimentos e aumentando os riscos de inundações e tempestades. "As costas são um equilíbrio de forças físicas. Qualquer mudança nesse equilíbrio gera uma resposta", afirma.
O potencial da energia das ondas
Apesar dos desafios, alguns cientistas veem nas ondas uma oportunidade para combater a crise climática. A energia média das ondas que atingem a plataforma continental da Austrália, por exemplo, é estimada em dez vezes o consumo anual de energia do país. A energia das ondas tem vantagens sobre outras fontes renováveis, como a solar e a eólica, pois não compete por terra nem afeta paisagens. Além disso, embora seja intermitente, é menos variável que a energia solar ou eólica.
No entanto, o setor de energia oceânica na Austrália ainda está em fase inicial. Em 2022, a empresa WaveSwell testou com sucesso um conversor de energia das ondas capaz de abastecer 200 residências. Na University of Western Australia, cientistas iniciaram testes com um dispositivo de energia das ondas desenvolvido em parceria com a University of Manchester. Apesar desses avanços, a tecnologia ainda não foi implantada em escala comercial.
Desafios
Mark Hemer aponta que um dos maiores obstáculos para a energia das ondas é o alto custo de capital durante a fase de demonstração. A Dra. Wiebke Ebeling, da Marine Energy Research Australia, concorda, mas destaca o potencial da energia das ondas como parte de um sistema energético diversificado. "Ela é mais densa em energia que a solar e a eólica, e como as ondas estão sempre presentes, a intermitência é menor", explica.
Ebeling também destaca estudos que mostram que a integração de tecnologias de energia das ondas com turbinas eólicas offshore pode aumentar significativamente a produção de energia sem elevar os custos. "Não é uma coisa ou outra. Podemos combinar as duas", afirma.
Apesar do crescente interesse na energia oceânica, especialmente na Europa, EUA e China, a implantação de tecnologias de ondas e marés ainda está longe do necessário para alcançar a meta de zero líquido até 2050. Enquanto defensores acreditam que o setor está à beira de um crescimento rápido, outros, como Hemer, permanecem céticos. "Como solução em larga escala, ainda há um longo caminho a percorrer", diz.
*Com informações de The Guardian