CHINA EM FOCO

Guerra dos Chips: Trump avisa que vai taxar semicondutores feitos em Taiwan

Sanha tarifária do presidente dos EUA pretende fortalecer a indústria interna, mas tiro pode sair pela culatra e China ser fortalecida na disputa tecnológica

Sanha tarifária do presidente dos EUA pretende fortalecer a indústria interna, mas tiro pode sair pela culatra e China ser fortalecida na disputa tecnológica
Guerra dos Chips: Trump avisa que vai taxar semicondutores feitos em Taiwan.Sanha tarifária do presidente dos EUA pretende fortalecer a indústria interna, mas tiro pode sair pela culatra e China ser fortalecida na disputa tecnológicaCréditos: Dreamstine
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O presidente Donald Trump reforçou sua política protecionista ao anunciar a imposição de novas tarifas sobre chips e semicondutores fabricados no exterior. O principal afetado será Taiwan, principal origem desses dispositivos nos EUA.

A medida, ainda sem data para ser implementada, tem o objetivo de forçar fabricantes a transferirem suas operações para os Estados Unidos, mas pode aprofundar a guerra comercial com a China e desestabilizar cadeias globais de suprimentos.

O anúncio foi feito na última segunda-feira (27) durante uma conferência dos republicanos da Câmara, realizada no resort Trump National Doral, em Miami, na Flórida.

“Em um futuro muito próximo, vamos impor tarifas sobre a produção estrangeira de chips de computador, semicondutores e produtos farmacêuticos para trazer a fabricação desses bens essenciais de volta para os Estados Unidos da América”, declarou Trump.

A decisão dá continuidade à estratégia de industrialização nacional iniciada pelo governo Biden, mas difere na abordagem. Enquanto Biden utilizou subsídios bilionários para atrair empresas como a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) para o território dos EUA, Trump aposta na imposição de tarifas elevadas para pressionar fabricantes a se realocarem.

Posicionamento da China

Embora não tenha feito comentários específicos sobre o anúncio de Trump de impor tarifas nos semicondutores feitos em Taiwan, o governo da China já comentou várias vezes sobre os impactos negativos de medidas protecionistas de Washington.

O presidente chinês, Xi Jinping, durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) em novembro de 2024, criticou o unilateralismo e o protecionismo, enfatizando a necessidade de rejeitar essas abordagens em favor da globalização econômica.

Xi afirmou que "o mundo entrou em um novo período de turbulência e mudança; o unilateralismo e o protecionismo estão se espalhando, e a fragmentação da economia mundial se intensificou". Ele acrescentou que "obstruir a cooperação econômica sob vários pretextos, insistindo em isolar o mundo interdependente, é reverter o curso da história".

Em dezembro de 2024, como retaliação às medidas tarifárias dos EUA, a China anunciou restrições à exportação de metais essenciais para a fabricação de semicondutores, como gálio, germânio e antimônio. O Ministério do Comércio da China justificou a medida afirmando que é necessária para "proteger a segurança e os interesses da China" e "cumprir obrigações internacionais".

O porta-voz do ministério destacou que, nos últimos anos, os Estados Unidos têm "politizado o uso de conceitos como segurança nacional para restringir a exportação de produtos para a China", além de "incluir empresas chinesas na lista de sanções a fim de reprimi-las".

Além disso, a China tem investido fortemente no desenvolvimento de sua própria indústria de semicondutores. Empresas como Huawei e SMIC (Semiconductor Manufacturing International Corporation) já estão fabricando chips avançados, e Pequim tem acelerado programas para reduzir sua dependência de Taiwan e dos EUA.

Tiro de Trump pode sair pela culatra

A imposição de tarifas pelos Estados Unidos sobre chips de computador fabricados em Taiwan pode, paradoxalmente, beneficiar a China de várias maneiras.

Com tarifas elevadas sobre os chips taiwaneses, os produtos da TSMC e outras empresas taiwanesas se tornariam mais caros no mercado dos EUA. Isso poderia tornar os chips chineses mais competitivos em termos de preço, incentivando empresas estadunidenses a considerar fornecedores chineses como alternativas viáveis.

As políticas protecionistas dos EUA podem servir como um catalisador para a China intensificar seus esforços em alcançar a autossuficiência na produção de semicondutores.

Caso as tarifas tornem o mercado dos EUA menos atraente para os chips taiwaneses, Taiwan poderia buscar mercados alternativos para seus produtos. A China, sendo um grande consumidor de semicondutores, poderia se tornar um destino preferencial para essas exportações, fortalecendo ainda mais sua posição no setor.

As tarifas podem incentivar uma maior integração entre as indústrias de semicondutores da China e de Taiwan, promovendo colaborações que beneficiem ambas as partes e reduzam a dependência do mercado dos EUA.

Ou seja, embora as tarifas que Trump quer impor queiram fortalecer a produção doméstica de semicondutores, elas podem ser um tiro pela culatra ao proporcionar oportunidades estratégicas para a China expandir sua influência e capacidade no setor de tecnologia.

O que está em jogo

Os semicondutores são essenciais para a economia digital do século 21. Eles estão presentes em praticamente todos os dispositivos modernos, de smartphones e computadores a sistemas avançados de inteligência artificial e equipamentos militares. Atualmente, a maior parte da produção desses chips ocorre fora dos EUA, com Taiwan dominando a fabricação dos semicondutores mais avançados do mundo.

Os EUA ainda mantêm a liderança no design de semicondutores, mas sua dependência da produção asiática representa uma vulnerabilidade geopolítica, especialmente diante das tensões com a China, que busca acelerar sua própria produção de chips avançados para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.

Chips e a nova corrida pela Inteligência Artificial

Os semicondutores são a base da inteligência artificial, pois chips avançados são essenciais para treinar e operar modelos de IA. Empresas como Nvidia, AMD e Intel dominam o mercado de processadores para IA, mas a China está investindo pesadamente para criar alternativas nacionais.

Um dos resultados desse esforço de Pequim de promover o desenvolvimento tecnológico é o sucesso da startup chinesa DeepSeek, que surpreendeu o Vale do Silício ao desenvolver um modelo de IA comparável ao ChatGPT da OpenAI com um custo de apenas US$ 6 milhões.

LEIA TAMBÉM: Trump alerta: DeepSeek ameaça liderança tecnológica dos EUA

A ascensão da DeepSeek aumenta a pressão sobre os EUA para manter sua liderança na corrida pela inteligência artificial. Com o anúncio de novas tarifas sobre chips estrangeiros, Trump busca reforçar a posição americana nessa disputa global.

Tarifas podem intensificar Guerra Tecnológica

As tarifas anunciadas por Trump representam mais uma escalada na guerra comercial e tecnológica com a China  e marcam uma mudança na estratégia dos EUA em relação ao governo Biden.

Enquanto Biden tentou atrair fabricantes com incentivos financeiros, Trump aposta na imposição de barreiras comerciais para forçar empresas a produzirem nos EUA. A medida pode elevar os custos para consumidores e empresas estadunidenses, ao mesmo tempo que pode beneficiar a China, que busca reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.

Com a crescente importância dos chips para setores estratégicos como inteligência artificial, defesa e automação, a disputa pelo controle da produção de semicondutores continuará a ser um dos principais eixos da geopolítica global nos próximos anos.

Origem dos chips usados nos EUA

Os chips utilizados nos Estados Unidos são, em sua maioria, projetados por empresas estadunidenses, mas a fabricação ocorre predominantemente no exterior, principalmente em Taiwan, Coreia do Sul e China. A cadeia de suprimentos de semicondutores é altamente globalizada, e poucos chips são totalmente produzidos dentro dos EUA.

Projetistas de Chips dos EUA (Fabless Companies)

Os EUA dominam o design de semicondutores, com empresas líderes no setor, como:

  • Intel (também fabrica alguns chips nos EUA, mas depende de Taiwan para os mais avançados).
  • Nvidia (projetista de GPUs; produção terceirizada para TSMC e Samsung).
  • AMD (projetista de CPUs e GPUs; fabricação majoritariamente na TSMC).
  • Qualcomm (chips para celulares e IoT, produzidos na TSMC e Samsung).
  • Apple (projetos próprios de chips da linha M e A, fabricados pela TSMC).

Essas empresas projetam os chips, mas não possuem fábricas próprias para produzi-los, dependendo de fabricantes terceirizados.

Fabricantes de Chips (Foundries)

A fabricação dos chips projetados nos EUA ocorre principalmente em Taiwan e Coreia do Sul. Os principais fornecedores são:

TSMC

  • Principal fabricante dos chips mais avançados do mundo, incluindo os usados por Apple, Nvidia, AMD e Qualcomm.
  • TSMC responde por mais de 60% da fabricação global de semicondutores.
  • Produz os chips de 3 nm e 5 nm usados nos iPhones, Macs e data centers de IA.

Samsung Foundry

  • Segunda maior fabricante global de semicondutores.
  • Produz chips para Qualcomm, Nvidia, AMD e outros.
  • Tem fábricas na Coreia do Sul e nos EUA (Texas).

Intel

  • A única fabricante dos EUA de semicondutores avançados, mas está atrás de TSMC e Samsung em tecnologia.
  • Fabricava seus próprios chips, mas passou a terceirizar parte da produção para TSMC.
  • Está investindo em fábricas nos EUA para tentar recuperar a liderança.

SMIC

  • Principal fabricante de semicondutores da China.
  • Fabricava chips mais simples para os EUA, mas foi alvo de sanções americanas.
  • Pequim está investindo fortemente para torná-la uma alternativa à TSMC.

 Produção Doméstica nos EUA

Embora a maioria dos chips consumidos nos EUA seja fabricada no exterior, há investimentos para aumentar a produção doméstica:

  • Intel (EUA) tem fábricas no Arizona, Novo México e Oregon e está construindo novas plantas para competir com TSMC e Samsung.
  • Samsung (Coreia do Sul) tem uma fábrica no Texas e anunciou um investimento de US$ 17 bilhões para uma nova planta.
  • TSMC (Taiwan)está construindo fábricas no Arizona com subsídios do governo Biden, mas a produção só começará em 2025-2026.

Dependência dos EUA da China

Apesar das sanções e da guerra comercial, os EUA ainda dependem da China para componentes intermediários e processos de montagem e teste de chips. Empresas chinesas como Yangtze Memory Technologies (YMTC) e SMIC fornecem chips mais simples para diversos setores.

Peças e materiais críticos usados na fabricação de chips ainda vêm da China, incluindo metais raros como tungstênio e terras raras essenciais para a produção de semicondutores.

Muitas empresas enviam os chips fabricados em Taiwan e na Coreia do Sul para serem montados na China antes da distribuição final.

Os chips consumidos nos EUA são projetados principalmente por empresas estadunidenses, mas fabricados majoritariamente em Taiwan e Coreia do Sul. Os EUA estão tentando reduzir sua dependência externa com investimentos domésticos, mas Taiwan continua sendo o elo mais crítico da cadeia global de semicondutores.

A nova política de tarifas de Trump sobre chips estrangeiros pode afetar diretamente Taiwan e Coreia do Sul, mas a China pode se beneficiar caso o custo dos semicondutores taiwaneses aumente. A disputa geopolítica entre EUA, China e Taiwan segue sendo um dos principais desafios do setor tecnológico global.

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