A família de Jerce Reyes Barrios na Venezuela ficou espantada quando o viu em vídeos virais postados pelo governo Trump mostrando a deportação em massa do que seriam membros violentos da gangue venezuelana Tren de Aragua.
“Ficamos surpresos ao vê-lo nos vídeos divulgados nas redes sociais dos deportados para El Salvador”, disse seu tio, Jair Barrios, em uma publicação no Facebook em espanhol, conforme o site Drop Site News. “Entramos em contato imediatamente com o advogado porque nenhuma outra informação sobre ele estava aparecendo no localizador do ICE [U.S. Immigration and Customs Enforcement, em inglês, Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos, em português].”
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Goleiro, Barrios é um opositor do governo de Nicolás Maduro e foi aos Estados Unidos pedir asilo político em março de 2024, já que, em outubro de 2023, o governo estadunidense ofereceu Status de Proteção Temporária aos venezuelanos dentro do país.
Barrios deveria ter uma audiência de asilo em abril, mas foi preso em setembro do ano passado e mantido em um centro de detenção em San Diego depois que agentes do ICE o acusaram de ser um membro do Tren de Aragua.
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'Evidências'
Conforme o site Slate, as acusações da Imigração do governo Trump foram baseadas em duas coisas. Primeiro, Barrios tem uma tatuagem no braço de uma coroa sobre um círculo que, segundo as autoridades federais, "é prova de filiação à gangue".
Sua advogada, Linette Tobin, entrou com uma declaração juramentada no tribunal, dizendo que a explicação para a coroa tatuada é simples: é o logotipo do Real Madrid, seu clube de futebol favorito. Tobin argumentou que os registros venezuelanos evidenciavam que Reyes Barrios não tinha antecedentes criminais nem vínculos com gangues e incluiu na documentação uma declaração, também juramentada, do tatuador, que enviou vários outros exemplos de tatuagens semelhantes em pessoas que não eram membros de gangues.
A outra "prova" para a Imigração seria uma foto sua nas redes sociais na qual ele está gesticulando com as duas mãos, com os dedos médios para baixo, o que seria sinal de filiação à gangue. Na verdade, o gesto de Barrios significa "eu te amo" na linguagem de sinais e também é comumente usado como um símbolo referente aos fãs de rock 'n' roll.
Segundo Tobin, a defesa foi suficiente para tirar Reyes Barrios da segurança máxima entre 10 e 11 de março. Mesmo assim, ele foi deportado no sábado (15).
Outras arbitrariedades
A reportagem do Slate aponta que este não foi o único caso de arbitrariedade com base em pouca ou quase nenhuma evidência, com base na interpretação de tatuagens. Um migrante, conhecido como JABV, tem tatuagens de "uma rosa, um relógio e uma coroa com o nome de seu filho". Nunca foi preso, acusado ou condenado por um crime na Venezuela, ou nos Estados Unidos, mas agentes do ICE disseram que as tatuagens eram prova de filiação ao Tren de Aragua e o deportaram.
Já um outro migrante, LG , "tem três tatuagens: uma é um rosário, a outra é o nome de seu parceiro e a terceira é uma rosa e um relógio". Nenhuma delas tem qualquer conexão com uma gangue, mas ele foi acusado mesmo assim.
Lei arcaica
A lei federal usada por Donald Trump para ter deportado venezuelanos a El Salvador faz parte de um conjunto legislativo chamado Alien and Sedition Acts, aprovado em 1798 durante a presidência de John Adams. A legislação foi criada em um contexto de tensão entre os EUA e a França, ou seja, na prática, era uma lei de guerra.
"O presidente proclamou falsamente uma invasão e incursão predatória para usar uma lei escrita para tempos de guerra para a aplicação da lei de imigração em tempos de paz", aponta Katherine Yon Ebright , advogada do Programa de Liberdade e Segurança Nacional do Brennan Center à NPR.
A última vez que se invocou o Alien Enemies Act foi durante a Segunda Guerra Mundial, para colocar milhares de pessoas de ascendência japonesa, alemã e italiana em campos de concentração. O governo estadunidense se desculpou formalmente por isso décadas depois.
O juiz federal James E. Boasberg chegou a proibir o voo com os deportados, mas o governo alegou que soube da determinação quando os aviões já estavam em águas internacionais. Trump reagiu chamando o magistrado de "lunático de esquerda radical". "Este juiz, como muitos dos juízes corruptos diante dos quais sou forçado a comparecer, deveria ser IMPECHADO!!!", postou.