ASTRONOMIA

Pesquisadores sugerem nova técnica para encontrar vida em exoplanetas

A nova técnica seria "mais rápida" e "barata", e tornaria mais provável a descoberta de traços orgânicos em exoplanetas distantes; entenda

Planeta hiceano - representação.Créditos: Wikimedia Commons
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Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Riverside, na Califórnia, e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ) fez uma proposição inusitada acerca dos planetas hiceanos, que são exoplanetas (localizados fora do Sistema Solar) hipotéticos compostos por um oceano de água líquida e uma atmosfera rica em hidrogênio, cuja existência foi sugerida pela primeira vez em 2021 pelo cientista Nikku Madhusudhan, da Universidade de Cambridge, e que, se provados reais, seriam a melhor esperança de um "mundo habitável" fora da Terra.

Em artigo publicado no periódico The Astrophysical Journal Letters, eles propõem que compostos chamados "haletos de metila" — gerados, na Terra, pela presença de vida oceânica em forma de micróbios e bactérias — poderiam produzir uma espécie de bioassinatura na atmosfera dos mundos hiceanos, mais facilmente detectável do que a assinatura de oxigênio em um planeta com condições similares às da Terra.

Entendendo a teoria

O oxigênio é quase impossível de ser detectado naqueles planetas "mais parecidos com a Terra", os exoplanetas rochosos compostos por metais já identificados em sistemas que orbitam estrelas parecidas com o Sol; já os haletos de metila, teoricamente presentes nos planetas hiceanos, ofereceriam "uma oportunidade única de detecção" com a tecnologia disponível hoje — é o que evidencia a cientista Michaela Leung, da Universidade da Califórnia, autora do artigo que descreve a pesquisa responsável por essa sugestão. 

Os haletos de metila, formados por átomos de carbono e hidrogênio ligados a um átomo de halogênio (como o cloro ou o flúor), são produzidos por organismos vivos, mas não são abundantes na atmosfera da Terra; em planetas hiceanos, por sua vez, talvez se articulem em maior quantidade, o que é possível de ser comprovado pela sua característica de alta absorção da luz infravermelha, em comprimentos que telescópios como o James Webb, da NASA, seria capaz de detectar. 

Ou seja, se o telescópio se dedicasse à observação dos haletos de metila ao invés de registros de oxigênio, talvez fosse possível encontrar, em menor tempo, "gases como oxigênio ou metano" — barateando o empreendimento e tornando mais provável a descoberta de traços orgânicos (de vida microbiana) em exoplanetas distantes.

Uma evidência já existente corrobora essa sugestão: foi a descoberta da presença, no exoplaneta K2-18b, o melhor candidato atual para ser classificado como um hiceano, que orbita uma estrela anã vermelha a 124 anos-luz da Terra (na constelação de Leão), de vapor d'água

O vapor d'água foi detectado pelo Telescópio Espacial Hubble em 2019, e, em seguida, o James Webb foi capaz de identificar a presença de dióxido de carbono e metano na atmosfera do planeta; isso, junto ao fato de que não foram identificados nele monóxido de carbono ou amônia, provaria a hipótese dos planetas hiceanos, assim como a presença do composto sulfeto de dimetila na atmosfera do K2-18b — que é produzido, na Terra, apenas pela ação de um plâncton oceânico, isto é, de um organismo vivo.

Os haletos de metila poderiam ser encontrados "em apenas 13 horas" de observações do James Webb, nota a cientista. E, embora não se saiba, ainda, se os supostos planetas hiceanos seriam habitáveis, a detecção desses compostos poderia indicar, de maneira muito promissora, a existência de vida num possível oceano profundo.

E, mesmo que a possível vida oceânica encontrada nesses planetas fosse anaeróbica, ou seja, não respirasse oxigênio, ainda contribuiria como indicativo de uma forma de vida similar à existente na Terra, além de um sinal de que o planeta poderia ter uma atmosfera um pouco mais parecida com a nossa

Já que as estrelas anãs vermelhas compõem pelo menos três quartos de todas as estrelas da Via Láctea, é provável que haja muito mais planetas hiceanos — e, quem sabe, habitáveis — no cosmos.

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