Após o anúncio, em dezembro de 2024, de que as negociações entre a Avibras e um potencial comprador brasileiro (cuja identidade permanece anônima) não vingaram, o que o Sindicato dos Metalúrgicos considerou "lamentável", a companhia anunciou, na última sexta-feira (31/1), que está em negociações com uma empresa de origem saudita.
As especulações de que a gigante nacional de defesa estaria na mira de compradores internacionais têm sido feitas desde, pelo menos, 2023, quando um fundo de investimentos da Arábia Saudita, o Scopa Defense, fechou uma parceria com o Brasil para a produção conjunta de equipamentos de defesa. Já em setembro de 2024, um conglomerado industrial chinês (o grupo Norinco) prestou uma visita à sede da companhia em Jacareí (SP), o que também foi visto com suspeita.
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De acordo com o comunicado da sexta (31/1), a Avibras e a empresa saudita Black Storm Military Industries "vêm mantendo tratativas avançadas para viabilizar um potencial investimento que visa a recuperação econômico-financeira da Avibras". A intenção é manter as instalações brasileiras de fabricação e retomar as operações "o mais rápido possível, garantindo o cumprimento das obrigações da empresa com o governo brasileiro", com "seus credores e, especialmente, colaboradores".
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As negociações para a aquisição da Avibras têm sido mediadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos, que exigem o pagamento dos salários em atraso (por um período que já ultrapassa 20 meses) e um plano de estabilidade do emprego.
A empresa está em recuperação judicial há mais de dois anos, e soma cerca de R$ 395 milhões em dívidas. Além disso, por não ser considerada uma Empresa Estratégica de Defesa (EED), a Avibras não está elegível para proteção governamental.
Em agosto de 2022, o Sindicado dos Metalúrgicos iniciou uma ação civil na Justiça Federal para que a Avibras fosse considerada uma EED; no entanto, a Advocacia Geral da União desconsiderou o pedido, julgando-o ilegal. No mesmo ano, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial, que foi aprovado em julho do ano seguinte. O pagamento das obrigações continua com indefinições.
Agora, a possível venda da empresa ao conglomerado saudita traz à tona o projeto de sua desnacionalização, que já se mostrou preocupante para o setor de defesa nacional e para o próprio presidente Lula, que havia convocado o BNDES a "buscar soluções" para a empresa ainda em 2024.
A Black Storm Military Industries, sediada em Riyadh, a capital do Reino da Arábia Saudita, não dispõe de muitas informações públicas sobre suas atividades, e não aparenta ter plantas próprias de fabricação. Dedica-se à "criação de soluções que atendam às crescentes necessidades de aplicações defensivas, ambientais, energéticas e industriais", diz seu portal.
No final de 2024, acreditava-se que a Avibras poderia ser adquirida pelo Fundo Soberano da Arábia Saudita (ou Fundo de Investimento Público, PIF), o oitavo maior fundo estatal do mundo, cujos investimentos são variados: vão de aplicativos de transporte, como a Uber, a times de futebol e fundos de infraestrutura.