Nessa segunda-feira, dia 24 de fevereiro, a guerra na Ucrânia completou três anos como um dos conflitos mais devastadores do século XXI, que está redefinindo fronteiras, abalando a economia mundial e expondo as fragilidades da ordem global convencionada no pós-guerra do século XX. Uma disputa pela hegemonia global que tem destruído vidas e sonhos, especialmente de milhões de ucranianos, expulsos de suas casas, além de milhares de mortos e feridos.
No ocidente global está a maioria dos países da Otan e União Europeia que vem financiando, treinando tropas e fornecendo armas para uma guerra por procuração com objetivo de expandir seus domínios para o leste europeu, utilizando a Ucrânia como “bucha de canhão” de seus interesses.
Te podría interesar
Ao leste está a Rússia colocando sua máquina de guerra para funcionar, se defendendo da sanha imperialista ocidental, ao mesmo tempo em que mostra também seu ímpeto imperialista regional, de quem não deseja perder a influência no leste europeu que um dia já teve, antes da dissolução do bloco soviético.
EUROMAINDAN: A origem do conflito atual
Para compreender melhor os motivos que levaram ao início dessa guerra, que o governo russo chama de "operação militar especial", é importante voltar ao inverno ucraniano de 2013, quando começaram a surgir protestos na praça Maidan em Kiev e se espalharam para outras cidades do oeste do país. Essas manifestações de massas tiveram como motivo principal a suspensão da assinatura do acordo entre o governo ucraniano de Viktor Yanukovych e a União Europeia. Após dias de manifestações, barricadas, enfrentamentos com forças de segurança do governo, organizações ultranacionalistas de extrema direita, anti-Rússia e seus aparatos paramilitares passaram a ter um protagonismo importante e elevar a violência dos protestos.
Te podría interesar
Acontece que, ao leste do país, cidadãos ucranianos tinham mais simpatia por uma Ucrânia próxima da Rússia e que tinham diferenças importantes com os objetivos do movimento Euromaidan. Passaram a se sentir ameaçados e caracterizar essas mobilizações na capital do país como golpistas, tanto que, após a queda do governo de Yanukovych em fevereiro de 2014, um movimento separatista se fortaleceu na região da Crimeia, como também no Donbass. Em 18 de março de 2014, após um referendo no qual a população votou majoritariamente pela adesão à federação russa, um acordo intergovernamental foi assinado. A Crimeia se separou da Ucrânia e aderiu à federação Russa. Tal acordo não foi reconhecido pelo governo ucraniano e por nenhum organismo internacional, provocando uma violenta crise nas relações internas da Ucrânia e também entre a Rússia e as potências ocidentais.
Após esses acontecimentos, milícias separatistas também foram criadas na região de Donbass com apoio da Rússia e passaram a lutar permanentemente contra grupos paramilitares de extrema direita que se associaram ao governo ucraniano. Mesmo após o protocolo de Minsk, assinado em setembro de 2014 para suspender os conflitos no leste do país, a Ucrânia seguiu completamente dividida e em guerra civil. Após a eleição de Zelensky em 2019, a tensão deu um salto de qualidade com a sua aproximação do ocidente, fortalecendo suas relações com a União Europeia e as negociações para a entrada da Ucrânia na Otan. Em 21 de fevereiro de 2019, a constituição da Ucrânia foi alterada para facilitar o processo de adesão à Otan. Na X sessão da Assembleia Interparlamentar Ucrânia-Polônia-Lituânia, que terminou em 8 de junho de 2019 em Kiev, as partes assinaram um documento final contendo um acordo que contém um período para possível adesão da Ucrânia à União Europeia, que estava previsto para 2027, quando a Lituânia assume a presidência da UE. Em julho de 2020, a Polônia, Lituânia e Ucrânia criaram uma plataforma para cooperação política, econômica, cultural e social – Triângulo de Lublin, que visa apoiar a integração da Ucrânia na UE e na OTAN.
Todas essas movimentações da Ucrânia em conjunto com as potências ocidentais elevaram a desconfiança dos russos sobre os propósitos da expansão da influência da Otan e da União Europeia próximas das fronteiras com a Rússia. Após várias exigências do governo russo para que fosse oficializada a impossibilidade da adesão da Ucrânia na Otan, sem respostas. Somado à crescente tensão militar na região do Donbass, em 24 de fevereiro de 2022, tropas russas, que já estavam muito próximas das fronteiras, invadem o território ucraniano, dando início a uma guerra que já dura três anos.
Ainda que possamos admitir que os russos tenham algum ímpeto em colonizar a região da Ucrânia, como também outros países do leste europeu ou fronteiriços para fortalecer sua influência na região, todas as iniciativas do imperialismo ocidental lideradas pelos EUA em expandir sua influência no leste europeu através da Otan já tinham chegado num limite considerado crítico para a segurança nacional russa. Após o início da guerra em 2022, ainda aderiram à Otan a Finlândia em 2023 e a Suécia em 2024.
OS IMPACTOS E NÚMEROS DA GUERRA NA UCRÂNIA
Segundo registros oficiais da ONU, nos últimos três anos, a invasão das tropas russas expulsou mais de 6 milhões de ucranianos de suas casas, que se deslocaram para vários países do mundo, se concentrando com maior densidade na Europa, especialmente Polônia e Alemanha. Não é possível ter com transparência os números de mortos e feridos de ambos os lados, os dados durante o período de guerra acabam sendo utilizados também como parte da guerra de informações. Mas o fato da Ucrânia ter aprovado em abril de 2024 uma lei que diminui a idade de mobilização militar de 27 para 25 anos é um sinal da situação crítica nas baixas de suas forças militares.
Ao todo, a Ucrânia recebeu um amplo apoio militar, financeiro, logístico e humanitário dos EUA e da maioria dos países da Otan, que segundo dados oficiais giram em torno de US$ 150 a 200 bilhões de dólares. Mesmo assim, a Ucrânia teve uma queda de 29% do seu PIB em 2022, e um crescimento de 5% e 3,5% respectivamente em 2023 e 2024, segundo dados e projeções do FMI e Banco Mundial. O que significa que em três anos a economia ucraniana, apesar de todo apoio financeiro do ocidente, sofreu uma queda de 20% com a destruição de sua infraestrutura e pelo deslocamento populacional. Uma situação absolutamente devastadora!
Desde o início da guerra a Rússia, se tornou o país mais sancionado do mundo, sofrendo mais de 16 mil medidas restritivas para a venda de seus produtos e financiamento da sua economia internacionalmente, foi expulsa do sistema SWIFT, os gasodutos Nord Stream I e II sofreram explosões, além de passar por um bloqueio de 350 bilhões de dólares em bancos europeus. Mesmo assim, conseguiu reordenar rotas comerciais, ampliou seu comércio com países dos BRICS, especialmente China, Índia e Irã, e criou formas de transação financeira sem o dólar. Sua economia sofreu, em 2022, uma queda de 2,1% por conta do impacto das sanções, mas de forma extraordinária conseguiu se recuperar em 2023 e 2024, com um crescimento do seu PIB de 3,6% e 4% respectivamente, segundo dados do Banco Mundial e FMI.
As sanções contra a economia russa, pelo menos até agora, estão desmoralizadas pela forte resiliência de Putin em conseguir financiar sua máquina de guerra em condições hostis. Ao mesmo tempo que Putin está consolidando o seu domínio em aproximadamente um quinto do território ucraniano, conquistando toda a região leste, além da Crimeia que já tinha sido anexada em 2014. Comparando todos os números e o saldo da guerra até agora entre a Rússia e Ucrânia, não é difícil perceber quem está conseguindo uma condição de vantagem indiscutível. Fato que nunca tinha sido reconhecido pela administração Biden, como também pela imprensa ocidental. Mas que agora está sendo admitido pelo governo Trump, que vem acusando o governo de seu antecessor de financiar uma guerra que a Ucrânia não poderia vencer.
A MUDANÇA DE ROTA DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO
“...ainda por cima Zelensky admite que metade do dinheiro que enviamos se perdeu, eles não sabem onde está o dinheiro. Ele disse ‘bem, não sabemos onde está a metade’. É ótimo, maravilhoso! Ele se recusa a ter eleições. Ele está em baixa nas verdadeiras pesquisas ucranianas. Como você pode estar em alta com cada cidade sendo demolida? É difícil estar em alta. Alguém me disse: ‘ele está bem nas pesquisas’. Até parece! Cada cidade está sendo demolida, elas parecem um local de demolição, cada uma delas! E a única coisa que ele era realmente bom, era manipular Joe Biden como um violino. Ele o manipulou como um violino. Essa é uma expressão que usamos, senhor! Para dizer que era muito fácil, muito fácil. Um ditador sem eleições, é melhor Zelensky se mexer rápido, ou não vai lhe sobrar um país… enquanto isso estamos negociando com sucesso o fim da guerra com a Rússia!”
(Declaração de Donald Trump, após críticas de Zelesnky sobre as negociações entre EUA e Rússia que excluíram o governo ucraniano e a União Europeia)
Com a derrota dos democratas para os republicanos no final de 2024, Trump toma posse no início de 2025 e, já no primeiro mês da sua nova administração, estabelece um canal de negociação com Putin. A primeira reunião de folego foi acolhida pelo governo de Arabia Saudita, onde agentes do primeiro escalão dos dois governos iniciaram as primeiras tratativas que tudo indica que tiveram sucesso diplomático. Nem o governo ucraniano e nem os países da União Europeia foram convidados para essa reunião, o que gerou uma situação de constrangimento internacional. Além disso, o governo Trump já apresentou a conta a ser paga pela Ucrânia por todo apoio militar e financeiro que os EUA deram até agora. Trump exige de Zelensky o acesso aos recursos naturais do território ucraniano, em especial as terras raras, que são minerais fundamentais para a indústria high-tech. Ao mesmo tempo, faz uma exigência aos países europeus para que aumentem os gastos militares para a sustentação da Otan.
É uma mudança total da geopolítica dos EUA que move as placas tectônicas de uma ordem mundial que surgiu no pós-guerra no século XX e que todos nós conhecemos. Essa nova rota do império norte-americano está associada ao projeto MAGA e às ambições de Trump em aumentar a influência política e disputar em melhores condições a hegemonia mundial. Isso significa ter que se aproximar da Rússia, na tentativa de dividir os BRICS e isolar a China nas mais variadas esquinas da disputa comercial, militar e tecnológica que pode surgir no próximo período. Não sabemos se Trump terá sucesso, mas trata-se de uma movimentação muito diferente do que os democratas estavam operando durante o governo Biden, e que demonstrou até agora não ter sucesso em derrotar a Rússia.
CONCLUSÕES E OUTRAS HIPÓTESES…
O título desse artigo está perguntando se a Otan perdeu a guerra para a Rússia. Considerando que a vitória de Trump sobre Kamala está colocando a existência da Otan em questão. Como também, se destacarmos que todos os personagens que se envolveram nesse chamado de Biden para confrontar a Rússia, sofreram derrotas importantes, começando pelos próprios democratas que perderam a eleição, a Ucrânia que perdeu até agora boa parte de seus territórios na região leste e sul, e a Europa, especialmente a Alemanha que também tiveram revés. Olaf Scholz, primeiro-ministro alemão, amargou o pior resultado da história do SPD na eleição do parlamento alemão, e a extrema direita teve o seu melhor resultado desde a queda do nazismo em 1945. Num país que está passando por uma grave crise em relação ao tema da imigração e pelo segundo ano de recessão econômica, principalmente pelo alto custo dos preços da energia após a interrupção de gás e petróleo russo. A resposta à pergunta central desse artigo parece fácil de responder…
Por fim, queremos ainda refletir sobre outras hipóteses, ou até mesmo especulações, para alimentar a intensa discussão nos círculos de interesses sobre a geopolítica contemporânea que parece estar passando por fortes transformações. A aproximação dos republicanos liderados por Trump em relação ao governo Putin parece ter consistência, a entrevista que Putin deu ao jornalista trumpista Tucker Carlson em fevereiro de 2024, é parte do que estamos observando. Você pode ler a análise que fizemos sobre essa entrevista que fizemos na época, aqui.
Mas há vários indícios de colaboração mútua, que podemos considerar apenas coincidências históricas ou não. Desde que Trump venceu a eleição, o comportamento de Putin e do governo dos EUA em relação a temas de grande envergadura da disputa geopolítica mundial demonstrou diferenças em relação ao que já tinha sido feito num passado recente. Destaco três situações emblemáticas, em primeiro lugar o tema da Síria. O governo russo não só declinou de articular a defesa do governo sírio contra os rebeldes, como já tinha feito vezes antes, mas incentivou a fuga e acolheu a família Assad na Rússia. A segunda situação tem a ver com a Venezuela, o governo de Maduro é o principal aliado dos russos na América Latina e o primeiro a declarar apoio a Putin quando o mesmo ordenou a invasão da Ucrânia. Curiosamente, o tratamento dado a Maduro por parte da administração Trump, até agora, foi na direção de reconhecer a legitimidade do seu governo, negociando o tema das deportações num formato totalmente diferente do que fez em relação a outros governos na América Latina, por qual razão? Por último, o tema do dólar! Quando Trump anunciou que iria taxar qualquer país dos BRICS que ousasse utilizar uma outra moeda para substituir o dólar. O governo russo, através do próprio presidente Putin não esperou a manifestação do Brasil que já estava na presidência do BRICS, e declarou que esse bloco jamais colocou esse tema em discussão, o que é totalmente diferente da imagem que vimos na última cúpula do BRICS na Rússia em outubro de 2024, quando o próprio Putin chegou a agitar uma nota que simbolizava uma espécie de nova moeda do BRICS.
Insisto, são hipóteses que merecem ser observadas… Trump vai conseguir dividir o BRICS, aproximar a Rússia, para criar melhores condições de disputar a hegemonia mundial com a China? Ou ainda, o que significa a declaração de Trump dias atrás sobre uma cúpula entre EUA, Rússia e China para discutir a geopolítica mundial? São perguntas que por enquanto não há respostas, mas com certeza já é possível perceber que o desenho da nova ordem mundial está ficando bem diferente do que conhecíamos…
Para terminar, indico esse link, de um vídeo didático sobre os três anos de guerra na Ucrânia que é um resumo desse artigo que você pode ver aqui.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.