Na noite do último domingo (23), um grupo de três homens encapuzados e armados invadiu o Acampamento Egídio Bruneto, localizado na Fazenda Carnaíba, em Bom Jesus da Lapa, Bahia. Os criminosos chegaram ao local em um carro cinza, efetuaram disparos de arma de fogo e incendiaram um dos barracos onde vivem famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Antes de deixar o local, o grupo ameaçou retornar, intensificando o clima de terror entre os moradores. De acordo com relatos do MST, este ataque se soma a um histórico de intimidações e violência sistemática que já vinham sendo relatadas pelas famílias nos últimos meses.
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Apesar da gravidade do atentado, ninguém ficou ferido. No entanto, o MST alerta para o risco iminente de um novo episódio de violência e exige providências imediatas das autoridades para evitar uma escalada do conflito.
Ação policial e medidas emergenciais
Após o ataque, a direção do MST na Bahia registrou um Boletim de Ocorrência e acionou a Comissão de Conflitos Agrários do Estado, que encaminhou uma delegada para acompanhar a situação.
Segundo informações do dirigente nacional do MST na Bahia, Evanildo Costa, a Polícia Civil esteve no local, recolheu as cápsulas das balas disparadas e garantiu, por ora, a segurança das famílias. Entretanto, ainda não há informações sobre os autores do ataque, nem sobre a origem das armas utilizadas.
O MST também afirma que a presença de grupos armados ligados a uma empresa de segurança privada vem sendo constante na região, atuando em tentativas de despejo clandestinas e promovendo ações de intimidação contra os trabalhadores rurais.
Histórico de ameaças e conflito agrário
O Acampamento Egídio Bruneto abriga atualmente 49 famílias, que vivem e produzem na área desde 2012. Segundo o MST, o ataque deste domingo não foi um caso isolado, mas parte de uma escalada de violência que já ocorre há meses.
Moradores denunciam que, durante as madrugadas, pistoleiros passam de carro efetuando disparos contra o acampamento, além de fazerem ameaças de incêndio. O episódio do último domingo concretizou essa ameaça, com um barraco sendo destruído pelo fogo.
Além disso, relatos indicam que os responsáveis pelos ataques atuam de forma organizada e em diferentes pontos da região. Há informações de que tiros foram disparados contra outra área do acampamento durante a madrugada, ampliando ainda mais o temor das famílias que residem na região.
A recorrência das ameaças tem feito com que as famílias permaneçam em estado de alerta constante, pois há o receio de que novos ataques ocorram a qualquer momento, especialmente durante a madrugada, quando as ações violentas costumam acontecer.
Disputa pela terra e paralisação da reforma agrária
A Fazenda Carnaíba tem 2.580 hectares e está localizada em Bom Jesus da Lapa. Parte desse território pertence à União, estando sob gestão da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), enquanto outra parte está registrada no nome do fazendeiro Wellington Coimbra.
O MST denuncia que a propriedade privada não cumpre função social, o que abriria margem para sua desapropriação dentro dos critérios da Constituição Federal.
Evanildo Costa explica que Wellington Coimbra já chegou a demonstrar interesse em negociar a área com o governo, mas desistiu após a paralisação da reforma agrária nos últimos anos. Com isso, as famílias que vivem há mais de uma década na região ficaram em uma situação de insegurança jurídica, sujeitas a ameaças constantes.
"O problema é que as famílias não têm nada a ver com essa decisão, e agora estão sendo atacadas por pistoleiros e por uma milícia que passa durante a madrugada atirando contra elas", disse Costa.
Ainda segundo o MST, há indícios de que uma empresa de segurança privada esteja coordenando ações de repressão ilegal contra os trabalhadores rurais, incluindo tentativas de reintegração de posse sem ordem judicial.
Os relatos de ações violentas promovidas por essas empresas apontam para um cenário de conflito agrário agravado pela inércia do poder público, que ainda não tomou medidas concretas para impedir novas investidas violentas na região.
Exigência de intervenção do Governo Federal
O MST cobra que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) intervenha para mediar o conflito e regularizar as terras em favor das famílias Sem Terra.
"A nossa preocupação é que a qualquer momento ocorra um conflito mais grave. Esperamos que o Governo Federal, através do INCRA, intermedeie essa situação e regularize as terras definitivamente para as famílias", afirmou Evanildo Costa.
A proposta do MST é que o INCRA abra um processo de negociação e resolva a questão de forma definitiva, já que parte da área é pública e poderia ser destinada à reforma agrária.
Investigações em andamento
A Polícia Civil segue investigando o caso, mas até o momento não há informações sobre suspeitos ou mandantes do ataque.
Enquanto isso, as famílias continuam vivendo sob tensão, temendo novos ataques e esperando por uma resposta do poder público. A permanência de milícias privadas na região e a falta de garantias efetivas de segurança reforçam o alerta para o risco de novos episódios de violência no local.
As lideranças do MST reforçam que a falta de respostas concretas por parte do governo e das autoridades policiais pode aprofundar ainda mais a crise na região, deixando as famílias à mercê de novos ataques. A expectativa é que as investigações avancem e que medidas de proteção sejam implementadas, evitando que o conflito ganhe proporções ainda mais graves.