A cena poderia ser em 2022, mas é de 2025: militares perfilados ao lado de senadores da extrema direita, como Sérgio Moro, Damares Alves, Esperidião Amin. A princípio parecem remeter a gestos de apoio a Jair Bolsonaro, mas se trata do lançamento da Frente Parlamentar de Apoio à Cibersegurança e à Defesa Cibernética, a FrenCyber, ou a bancada das Big Techs.
Entre os 24 titulares, seis são do PL, como os senadores Flávio Bolsonaro, do RJ, e Marcos Pontes, de SP, ambos integrantes do grupo. A única voz da centro-esquerda é a deputada Tabata Amaral, do PSB. Não há presença de membros progressistas do PT ou PSOL.
O anúncio da nova bancada pelo Congresso Nacional aconteceu na mesma semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciava o julgamento contra o ex-presidente e sete militares por tentativa de golpe e não recebeu os mesmos holofotes da grande mídia.
Com duração de pouco mais de uma hora, o evento foi uma sucessão de discursos de senadores de extrema direita — líderes que mantêm sua influência política alicerçada em fake news e redes de desinformação. Os mesmos que, até pouco tempo atrás, clamavam por “liberdade de expressão” nas redes sociais sem restrições.
Agora, se sentam ao lado de generais para falar sobre “cibersegurança” e “defesa digital”. Sérgio Moro, ex-juiz da Lava Jato e responsável pela prisão de Lula, foi o centro da instalação, representando o paradoxo que a justifica.
O ex-juiz se apresenta como defensor da proteção digital depois de todo o vazamento cibernético que expôs seu conluio com o Ministério Público, a parcialidade no julgamento e a manipulação de processos judiciais na Lava Jato. Ele esteve ao lado de nomes como Damares Alves, Hamilton Mourão, Marcos Pontes e Jorge Seif, integrando a mesa de discussão.
A frente inclui a proposta de criar uma Agência Nacional de Defesa Cibernética e foi defendida pelo senador Esperidião Amin (PP-SC), que a considerou essencial para “proteger o Brasil de ameaças digitais” e fortalecer a articulação entre o governo e o setor privado. De acordo com o portal The Intercept, logo após sua criação, a bancada foi praticamente entregue às grandes empresas de tecnologia.
Veja instalação da bancada:
Parceria com lobby tecnológico
A bancada conta com o apoio de grupos de lobby ligados ao setor tecnológico, sendo um deles liderado por executivos de big techs e tendo como parceiros entidades como o FBI — o que gera preocupações sobre a soberania nacional, uma questão que o presidente Lula já considera prioritária.
Várias entidades empresariais e bancárias apresentaram apoio à frente, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), e representantes do lobby das empresas de tecnologia, como a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais) e a Abes (Associação Brasileira das Empresas de Software).
A nova bancada da Câmara conta com apoio internacional da DigiAmericas, uma organização que se descreve como uma rede de entidades multissetoriais voltadas para as questões digitais e cibernéticas, com o intuito de influenciar as discussões políticas sobre o tema nas Américas. A Digi reúne grandes empresas do setor, como Amazon Web Services, Apple, Google, Cloudflare, Cisco e Mastercard, e seu Conselho Consultivo é composto por executivos dessas e de outras empresas de renome.
Essa entidade, junto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, foi responsável pela coordenação da viagem de uma comitiva de políticos brasileiros a Washington, capital dos EUA, em agosto passado. O foco das conversas foi segurança cibernética e colaborações com empresas privadas. O Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC) também é uma das organizações que apoia a instalação da FrenCyber. Trata-se de uma entidade de lobby que congrega setores público e privado para a “construção e implementação de uma agenda nacional para enfrentamento”.
O INCC destaca em seu site as alianças estratégicas e cooperativas que mantém. Entre elas, estão parcerias com o governo de São Paulo, a Polícia Civil do estado e o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI).
Assim, a criação da frente se insere nesse sentido em um padrão de estratégia internacional, especialmente desde 2016, quando a eleição de Donald Trump mostrou como as grandes plataformas digitais – como Google, Meta e X – podem ser usadas para fins políticos, manipulando informações. No Brasil, essa dinâmica se aprofundou a partir de 2018, com o uso massivo de fake news e a intensificação da polarização digital.
Essa pode ser ser uma nova fase: institucionalizar, sob o disfarce de garantir a segurança cibernética, um sistema focado em vigilância, e controle das narrativas mais avançadas nas eleições de 2026.
Com informações de The Intercept