A crise de representatividade no Brasil atinge níveis alarmantes e dificulta diretamente a recuperação da aprovação do governo federal. Segundo levantamento da AtlasIntel, a população brasileira demonstra profunda desconfiança nas instituições políticas, com o Congresso Nacional despontando como a entidade mais rejeitada. De acordo com a pesquisa, 82% dos entrevistados afirmam não confiar no Legislativo, enquanto apenas 9% expressam confiança, resultando em um saldo negativo de -73 pontos percentuais.
O cenário não se restringe ao Congresso. As Forças Armadas, historicamente vistas como um pilar de estabilidade institucional, também registram 72% de desconfiança, evidenciando o desgaste da imagem militar após anos de envolvimento político. O levantamento aponta ainda que as igrejas evangélicas enfrentam forte rejeição, com 73% de desconfiança e apenas 18% de confiança, um dado relevante considerando o peso que lideranças religiosas assumiram na política nacional.
Entre as instituições públicas, prefeituras (-38pp), governos estaduais (-14pp) e o governo federal (-8pp) também sofrem com altos índices de descrédito. O Banco Central, frequentemente criticado por sua política de juros, acumula um saldo negativo de -19 pontos percentuais, reforçando a percepção de distanciamento entre a autoridade monetária e os interesses da população. A crise de representatividade não apenas compromete a confiança nos poderes instituídos, mas também dificulta diretamente a melhora na avaliação do governo federal, que encontra resistência para reverter índices de aprovação negativos.
Forças de segurança e STF ainda sustentam credibilidade
Se o cenário político se encontra fragilizado, algumas instituições ligadas à segurança pública ainda gozam de um nível de confiança relativamente alto. A Polícia Federal lidera o ranking de credibilidade, com 53% de confiança e saldo positivo de 21 pontos percentuais. O respaldo à corporação pode estar atrelado às investigações de combate à corrupção e crime organizado, que mantêm a PF sob os holofotes nos últimos anos.
Na sequência, aparecem a Polícia Militar (50% de confiança, +12pp) e a Polícia Civil (48%, +14pp). O Supremo Tribunal Federal (STF), apesar dos ataques frequentes de setores bolsonaristas, também se mantém no campo positivo, com 49% de confiança e saldo de +2 pontos percentuais.
A Igreja Católica, outra entidade tradicional, segue com uma avaliação relativamente equilibrada: 43% da população confia na instituição, enquanto 33% não confia, resultando em um saldo positivo de +10 pontos percentuais.
A crise de confiança e seus impactos na governabilidade
A crise de confiança institucional não é um fenômeno isolado. O levantamento da AtlasIntel ecoa padrões observados em momentos de grande instabilidade, como os protestos de 2013, quando a popularidade da então presidente Dilma Rousseff sofreu um colapso abrupto. À época, a insatisfação se espalhou rapidamente, gerando um efeito dominó que culminou no impeachment em 2016.
A pesquisa sugere que o país pode estar entrando em um novo ciclo de descrédito generalizado, dificultando a governabilidade e a aceitação das políticas públicas propostas pelo governo federal. A falta de confiança na política tradicional também abre espaço para o fortalecimento de discursos populistas e antissistema, que podem agravar ainda mais o distanciamento entre a classe política e a sociedade.
Além disso, esses ciclos de descrédito institucional tendem a afetar diretamente o perfil dos políticos eleitos, abrindo espaço para movimentos de negação da política e figuras que se vendem como "outsiders". O fenômeno da "nova política" e a ascensão de candidatos que rejeitam a estrutura partidária tradicional voltam a ganhar eco em meio ao descontentamento generalizado. Esse cenário reforça o afastamento entre representantes e representados, ampliando a sensação de que as instituições não atendem às demandas da sociedade e dificultando qualquer esforço do governo para reconquistar a confiança popular.
Desconexão entre Congresso e sociedade
Um dos principais fatores que explicam o descrédito do Congresso é a baixa adesão da população à sua agenda. Dados da pesquisa indicam que:
- 97% dos entrevistados são contra o aumento no número de deputados
- 50% rejeitam o controle do Legislativo sobre as emendas parlamentares
- 83% são contra mudanças na Lei da Ficha Limpa
- 71% rejeitam o semipresidencialismo, modelo que daria mais poder ao Congresso sobre o Executivo
Esse desalinhamento entre as prioridades parlamentares e os anseios populares alimenta a percepção de que o Legislativo atua em benefício próprio, em vez de atender às demandas da sociedade.
O alerta é reforçado por analistas políticos que veem na pesquisa um reflexo da crise de representatividade, agravada por escândalos como o orçamento secreto, que ampliou o poder discricionário de lideranças do Congresso sobre bilhões em recursos públicos. Essa crise estrutural faz com que a população veja a política como um ambiente de interesses privados, dificultando ainda mais a adesão popular às propostas governamentais e prejudicando a capacidade do governo federal de reverter índices negativos de aprovação.
Necessidade de reconstrução da confiança política
Os dados da AtlasIntel evidenciam que a confiança da população nas instituições brasileiras está profundamente fragmentada. Enquanto as forças de segurança e o STF conseguem manter uma percepção minimamente favorável, o Congresso Nacional e as Forças Armadas enfrentam um nível de rejeição que compromete sua legitimidade perante a sociedade.
A dificuldade do governo federal em melhorar sua aprovação não está apenas ligada a fatores econômicos ou administrativos, mas também à erosão contínua da confiança nas instituições democráticas. Sem um esforço coordenado para reverter esse quadro, a governabilidade e a estabilidade política podem permanecer ameaçadas, alimentando um ciclo contínuo de insatisfação e descrédito que afeta diretamente a capacidade do governo de avançar com sua agenda.