Já tem alguns meses que a Folha de S.Paulo passou a tomar uma postura que pode ser revoltante para muitos, mas que, no entanto, soa mesmo é como curiosa. Com Jair Bolsonaro (PL) e seus principais colaboradores golpistas cada vez mais afundados na lama com a Justiça, e com toneladas de provas e evidências óbvias e inequívocas da participação deles na tentativa de instaurar uma ditadura no Brasil, o jornalão da Barão de Limeira tem dado destaque para matérias com tom positivo e de defesa em relação aos acusados, sempre casadinhas em contrapartida com reportagens que atacam sutilmente os procedimentos da Polícia Federal no inquérito sobre o caso, a postura do STF e do ministro Alexandre de Moraes na relatoria da ação e o papel da PGR no recebimento e aceitação da denúncia.
Nesta sexta-feira (21), a coisa se repetiu, mas desta vez com um contorno vergonhoso e descarado. Enquanto vários fatos de relevância jornalística ocorriam no país e no mundo, a Folha optou por manter na manchete de seu site uma matéria onde se lê “Bolsonaro se opôs à permanência de Eduardo nos EUA e tentou convencê-lo a voltar”. Na prática, uma informação sem qualquer importância que, no fundo, tinha por objetivo manter em destaque, como algo a se levar sério, a fuga para os EUA do rebento 03 do ex-presidente, uma nulidade política que há anos conquista um mandato como deputado federal e que comete crime grave, sem falar no aspecto moral, ao conspirar de forma aberta e assumida contra o próprio país instando uma nação estrangeira a intervir no Brasil.
Para piorar tudo, momentos após essa reportagem, a Folha publicou uma outra com o título “Moraes e Gilmar têm rendimentos turbinados por penduricalhos do Ministério Público”. Mesmo que previstas em lei, ninguém tem dúvidas de que as benesses da casta judiciária e dos privilegiados políticos do Legislativo federal, assim como as de outras altas esferas do funcionalismo público, são uma vergonha, mas o denuncismo em torno de algo que não é ilegal, justamente contra quem vem cumprindo o papel de disciplinar uma escumalha golpista, bem na hora que Bolsonaro se tornará réu e iniciará seu percurso judicial que terminará na cadeia, é escandalosamente um acinte.