Na edição do Festival de Cannes de 2024, o filme Emília Pérez, escrito e dirigido por Jacques Audiard, foi ovacionado e aplaudido por longos nove minutos. Após assistir ao filme e olhar em retrospecto, faz todo sentido que o longa francês tenha sido badalado na festa europeia do cinema, pois a produção é um delírio colonial francês que não apenas caricaturiza o México, mas também insulta a América Latina.
A trama de Emília Pérez é dividida em dois momentos: no primeiro, acompanhamos a advogada Rita Mora Castro (Zoe Saldaña) que, após vencer um caso no tribunal, é contactada pelo narcotraficante Manitas (Karla Sofía Gascón). Ele revela para ela que deseja realizar uma cirurgia de afirmação de gênero e, para tanto, oferece uma quantia milionária a Rita, que topa a empreitada... e todos os problemas do filme se desencadeiam.
Na verdade, as caricaturas sobre o México — e podemos estender para toda a América Latina — começam desde a primeira cena do filme, quando mariachis são filmados com luminárias na cabeça e tocando no meio da rua: as ruas mexicanas são escuras, violentas, todos vivem com medo, e apenas a violência é apontada como ferramenta de sobrevivência. É o velho retrato sobre a colônia e os "selvagens" que nela habitam.
Manitas se torna Emília
O segundo momento do filme é iniciado com um salto temporal, quando Manitas já vive como Emília e vai em busca, mais uma vez, dos serviços de Rita, que está estabelecida no Reino Unido e recebe uma nova missão: levar a esposa de Manitas, Jessi (Selena Gomez), e os dois filhos de volta para o México, pois a protagonista os havia mandado para a Europa para que pudessem se proteger de narcos inimigos de Emília... Novamente, o território europeu é retratado como civilizado, e o mexicano, repleto de violência. Essa dualidade colonial permeia toda a trama.
Há outro problema na transição de Manitas para Emília: a personagem central do filme não possui um papel a desempenhar, e, pior, Jacques Audiard não caricaturiza apenas o México, mas também as pessoas transexuais, ao associá-las à violência extremada. Tal estereótipo, há muito tempo, é comum em cadernos policiais da imprensa do Ocidente, e o cineasta não faz nada para se afastar dele, mas sim se esforça arduamente para perpetuá-lo.
Roteiro precário
Tudo bem que filmes musicais possam apelar para o absurdo e totalmente fantasioso para dar conta das encenações; no entanto, nada funciona em Emília Pérez: as personagens não possuem química entre si, e a história é um grande emaranhado de fios soltos que nunca se conectam. Pelo contrário, eles sempre apontam para outros caminhos, e nada se resolve.
Por exemplo, após se reencontrar com Rita e levá-la de volta para o México, Emília abre uma ONG para reencontrar os corpos/ossadas daqueles que foram mortos pela guerra do narcotráfico. A partir daqui, o longa francês se transforma em uma grande campanha de ONG europeia que busca donativos para ajudar "os pobres coitados dos países subdesenvolvidos". A impressão que fica é que não existe solução para o México e para a América Latina e que a grande desgraça da região foi ter se libertado da colonização europeia. O desfecho do filme aponta para esse caminho.
Talvez, se Jacques Audiard tivesse elaborado toda a trama no contexto da França, que também é repleta de violência e narcotráfico, o filme tivesse funcionado mais, e o elenco fosse melhor aproveitado — mas não cantando, pois as cenas musicais de Emília Pérez são constrangedoras. Mas não: em um delírio colonial, o cineasta reproduziu aquilo que foi identificado pelo filósofo Edward Said ainda nos anos 1970: povos não europeus retratados por europeus como a coisa "exótica", sem cultura, sem saber, sem possibilidade de realizar pensamento complexo, ou seja, selvagens que só podem ser selvagens.
Retomando o raciocínio que abriu este texto: ovacionado em Cannes e com 13 indicações ao Oscar, Emília Pérez pode ser visto como um filme-manifesto que aponta para a colonização e submissão nacional como únicos caminhos para os povos latinos. Não à toa, “Emília…” foi rejeitado pelos mexicanos, que hoje torcem pela vitória de “Ainda Estou Aqui” no Oscar 2025.
Emília Pérez ainda é o favorito ao Oscar 2025? Com certeza, qualquer filme que chega à premiação com 13 indicações é o franco favorito, podendo sair ovacionado ou completamente derrotado. Esse resultado só saberemos no próximo domingo (2), quando ocorre a entrega das estatuetas.
Por fim, "Emilia Pérez" é um filme caricato e totalmente esquecível.