A Evie é uma revista digital feminina (não feminista) dos EUA que está bombando entre as mulheres ultraconservadoras que apoiam Donald Trump. Ela lançou recentemente um de seus produtos mais simbólicos: o vestido "Raw Milkmaid", uma peça inspirada nas camponesas do século 18, vendida por US$ 189 (cerca de R$ 1.083 reais).
A peça hipersexualizada exibe a estética aspiracional promovida pela publicação, que romantiza um ideal de feminilidade tradicional (mas nem tanto) e celebra a maternidade e o casamento como as maiores realizações da mulher. Em tradução literal, em português, seria "Leiteira Rústica", mas "Vestido Camponesa" soa melhor.
Um dos anúncios do vestido e que ilustra essa matéria faz referência a supremacismo branco. A modelo está com a face suja de leite, que se tornou um símbolo na extrema direita graças à sua relação com discursos pseudocientíficos sobre raça, além da conexão histórica com a propaganda nazista e sua apropriação por subculturas online.
Embora para a maioria das pessoas beber leite não tenha conotação política, em certos círculos supremacistas ele funciona como um marcador de identidade e um meio de sinalização ideológica. Um apito de cachorro.
Não faça o que eu faço
Faça o que eu vendo, mas não faça o que eu faço. A dona da revista, Brittany Hugoboom, enquanto incentiva um retorno a papéis de gênero supostamente mais "naturais", lidera a empresa ao lado do marido, Gabriel Hugoboom. Ela é uma empreendedora multimilionária e influente na nova onda conservadora dos Estados Unidos.
A revista e seu aplicativo de bem-estar, 28, contam com o patrocínio do bilionário ultraconservador Peter Thiel, que tem financiado projetos alinhados à extrema direita, incluindo esforços para restringir o acesso ao aborto e contraceptivos.
Peter Thiel e sua agenda ultraconservadora
Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook, não apenas apoia financeiramente Trump, mas também financia projetos que visam reforçar valores tradicionais e limitar a autonomia das mulheres.
Em 2009, Thiel afirmou que a expansão do direito ao voto para as mulheres havia enfraquecido a democracia. Seu investimento na Evie e no 28 se encaixa em uma estratégia maior de consolidar um discurso que incentive mulheres a rejeitarem o feminismo e priorizarem a família.
O 28, por exemplo, recebeu US$ 2 milhões de Thiel, somando um financiamento total de US$ 3,2 milhões. O aplicativo promove um estilo de vida baseado no ciclo menstrual e dissemina a ideia de que contraceptivos hormonais são prejudiciais, incentivando métodos naturais para evitar a gravidez.
Especialistas apontam que a desconfiança em relação a métodos contraceptivos faz parte de um movimento mais amplo de setores ultraconservadores que buscam dificultar o acesso ao planejamento reprodutivo.
"Cosmopolitan conservador": a revista que vende a submissão como liberdade
A Evie se apresenta como uma alternativa às revistas femininas tradicionais, como Cosmopolitan e Vogue, que Hugoboom acusa de promoverem um estilo de vida "antinatural" para as mulheres.
O conteúdo mescla moda e cultura pop com um discurso ultraconservador, promovendo o casamento e a maternidade como os únicos caminhos legítimos para a felicidade feminina.
A publicação rejeita abertamente o feminismo, que Hugoboom descreve como uma "ideologia autodestrutiva que é contra a família e contra os homens".
Ela também critica o que chama de "feminismo girlboss", que incentivaria mulheres a se comportarem como homens para terem sucesso profissional.
Segundo Hugoboom, esse modelo deixou as mulheres ansiosas, solitárias e insatisfeitas. Para ela, o verdadeiro caminho para a realização pessoal está na "fé, família e amor" — e não no "sexo casual, carreirismo ou ativismo ideológico".
A Evie pressupõe que sua leitora deseja ser esposa e mãe, mas concede pequenas concessões: ela pode estudar e trabalhar, desde que não atrapalhe seu futuro familiar; pode ser sexualmente ousada, mas apenas com o marido; pode evitar a gravidez, desde que o faça por meio de métodos naturais.
Vendendo um retrocesso como escolha
Revistas como a Evie e produtos como o 28 não são apenas nichos de mercado, mas parte de uma estratégia maior da ultradireita para reforçar o controle sobre as mulheres. Defendem que o feminismo é um movimento que leva as mulheres à infelicidade e as afasta daquilo que realmente importa.
O vestido "Raw Milkmaid" romantiza o trabalho exaustivo das mulheres no passado, enquanto se vende um estilo de vida elitista, acessível apenas a um seleto grupo de influenciadoras e mulheres ricas.
A peça inspirada na vida rural, transmite a ideia de que as mulheres eram mais felizes no passado, quando seguiam papéis tradicionais e ignorando as dificuldades enfrentadas por mulheres em sociedades agrárias, onde o trabalho era árduo e os direitos eram limitados.
Esse tipo de discurso desvia a atenção das desigualdades que ainda existem hoje e reforça agendas conservadoras que restringem direitos femininos, como o acesso ao aborto e aos métodos contraceptivos.
A precarização do trabalho nos Estados Unidos e a falta de suporte para mães trabalhadoras criaram um ambiente favorável para que o discurso conservador prospere.
Sem políticas públicas como creches acessíveis e licença parental remunerada, muitas mulheres se sentem sobrecarregadas, abrindo espaço para mensagens que prometem alívio ao sugerir um retorno à família tradicional.
Não são apenas escolhas de moda, mas estratégias que buscam reforçar um modelo de feminilidade submisso e dependente.
Efeito político
Ao New York Times, em uma matéria sobre a revista neste domingo (23), Emily Amick, ex-assessora do senador democrata Chuck Schumer, alerta que plataformas como a Evie estão conquistando eleitoras que antes votavam nos Democratas.
Segundo Amick, “ao misturar valores conservadores com um discurso de bem-estar e estilo de vida, a direita tem conseguido capturar mulheres que a esquerda nunca imaginou perder”.
Hugoboom, defensora de Trump, usou as redes sociais para destacar a matéria no NYT.
"Conversei com o New York Times sobre como a Evie foi a primeira marca de mídia feminina a questionar os anticoncepcionais hormonais, a cultura do sexo casual, o feminismo girl-boss, a vacina contra a Covid, os lockdowns e muito mais.
Com mais de 100 milhões de visualizações por mês e um público raro (dividido de forma equilibrada entre mulheres conservadoras e liberais), a Evie tem impactado profundamente a cultura nos últimos seis anos.
Uma geração de mídia feminina abandonou a verdade, a beleza e os valores atemporais que levam à felicidade, saúde e realização.
Tenho muito orgulho da nossa equipe e estou animada para o futuro."
Empresária que rejeita a independência feminina
Apesar de criticar a independência financeira das mulheres e incentivar que priorizem a maternidade, Brittany Hugoboom se tornou uma empresária de sucesso, liderando um império digital que, aparentemente, fatura milhões. Pelo menos no valor dos investimentos de Thiel.
Quando questionada sobre essa contradição, Hugoboom responde que "algumas poucas mulheres podem ser empreendedoras, mas a maioria não foi feita para isso".
Para ela, o feminismo impôs às mulheres um modelo de sucesso masculino, enquanto a verdadeira felicidade está na submissão voluntária à ordem tradicional.
O paralelo com Phyllis Schlafly, ativista antifeminista dos anos 1970, é inevitável. Schlafly passou décadas lutando contra a igualdade de gênero enquanto construía uma carreira política sólida.
Assim como Hugoboom, ela defendia que o lugar da mulher era em casa — mas ironicamente jamais abandonou sua própria vida profissional.
O futuro: mais negócios ou mais filhos?
Enquanto expande sua marca, Hugoboom já menciona a possibilidade de desacelerar e se dedicar mais à maternidade. Ela afirma que gostaria de ter "seis filhos" e que poderia acabar "dando aulas de Pilates meio período".
Por ora, sua presença na mídia e seus planos de expansão continuam em alta. Ela e seu marido já estudam lançar novos produtos, incluindo podcasts e programas de TV, consolidando a influência do casal na direita ultraconservadora, negacionista e trumpista.