ACORDO COMERCIAL

Lula vende carne brasileira para o Japão para driblar taxação de Trump

É a primeira visita de Estado em 130 anos de relações diplomáticas entre os dois países; presidente vendeu carne brasileira após encontro com imperador Naruhito

Lula recebido pelo Imperador Naruhito em Tóquio.Créditos: Ricardo Stuckert/PR
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Em sua quinta visita ao Japão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa, na noite desta terça (manhã no Brasil), de um jantar com o imperador Naruhito e a imperatriz Masako. Amanhã pela manhã (ainda terça à noite no Brasil), ele tem uma agenda cheia de compromissos e fortalecimento de trocas comerciais com o país nipônico.

Essa é a primeira vez que o presidente participa de uma visita de Estado, um gesto raro na diplomacia japonesa. A última ocasião em que o país concedeu esse tratamento a um chefe de Estado foi em 2019, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi recebido com honrarias semelhantes.

Além da recepção imperial, a visita tem uma forte agenda econômica e comercial. Brasil e Japão têm 130 anos de relações diplomáticas e são parceiros de longa data e com uma balança comercial próspera.

Logo após o encontro com Naruhito, Lula se reuniu com representantes da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC) para discutir a abertura do mercado japonês ao setor. "O presidente, o que ele faz é abrir a porta. Mas quem sabe fazer negócio são vocês, não o presidente nem o deputado", destacou Lula aos empresários.

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Reunião com integrantes da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes. Foto: Flickr / Palácio do Planalto / Ricardo Sturckert / PR

Drible na guerra tarifária de Trump

O presidente pretende reacender as negociações para um acordo comercial com o Mercosul e ampliar o acesso de produtos brasileiros para o Japão, como carne bovina e suína. Com a estratégia de Donald Trump de aumentar tarifas e fomentar uma guerra comercial, o governo brasileiro procura aumentar as exportações de carne bovina para o Japão e trabalhar para abrir mais mercados.

Pesquisas mostram que os consumidores estão preocupados com os efeitos dos preços e 7 em cada 10 acham que as tarifas aumentam os custos. As empresas também estão temerosas: a demanda e a produção estão passando pelo "primeiro choque operacional da política tarifária da nova administração", segundo Timothy Fiore, que preside o Comitê de Pesquisa de Negócios de Manufatura do ISM, uma das principais instituições responsáveis pela divulgação de indicadores econômicos que medem a atividade do setor industrial e de serviços nos Estados Unidos.

"As tarifas de entrada estão fazendo com que nossos produtos aumentem de preço. Aumentos de preços radicais estão vindo de fornecedores. A maioria está notando aumentos nos custos de mão de obra... Pressões inflacionárias são uma preocupação", disse um dos fabricantes ao instituto. Leia mais nesta matéria da Fórum.

O Japão importa cerca de 60% da carne que consome, o que soma aproximadamente 650 mil toneladas, sendo os Estados Unidos e a Austrália os maiores exportadores. Contudo, ambos enfrentam obstáculos na produção: os EUA estão com o menor rebanho em 80 anos, enquanto a Austrália tem dificuldades para expandir sua produção.

"O momento econômico e político dos EUA tem intensificado as negociações internacionais. Nesse cenário, o Brasil se apresenta como um fornecedor seguro, com alta capacidade produtiva e rigor sanitário reconhecido mundialmente", destacou o executivo.

Como parte do fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e Japão, o governo japonês já determinou o envio, "o mais breve possível", de uma missão de especialistas em sanidade animal para o Brasil. A presença dos técnicos atende ao principal objetivo da comitiva brasileira, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em sua visita de Estado ao Japão: liberar as exportações de carne bovina brasileira para um dos mercados mais rigorosos e rentáveis do mundo.

De acordo com a consultoria Safras & Mercado, as exportações brasileiras de carne devem chegar a 4,032 milhões de toneladas em equivalente carcaça em 2025, um pequeno crescimento em relação a 2024, o que marca um novo recorde. O compromisso segue até quinta-feira, 27 de março, quando o presidente embarca para Hanói, no Vietnã, dando início à segunda parte de sua viagem à Ásia.

Leia discurso completo de Lula no Japão

"É com grande satisfação que retorno ao Palácio Imperial, nesta noite em que celebramos os laços que unem nossos países.

Minha esposa Janja e eu estamos muito felizes em regressar ao Japão e honrados pela recepção nesta que é a primeira visita de Estado após a pandemia.

Comemoramos 130 anos de relações diplomáticas, sustentadas pelo respeito mútuo e pela colaboração contínua.

Nossas trajetórias se entrelaçam e se reforçam.

O Brasil hospeda a maior comunidade nikkei fora do Japão.

Cumprimento a Imperatriz Masako pela atenção dada a essas comunidades em todo o mundo.

É imensurável a contribuição japonesa para a economia, a agricultura, a industrialização e a cultura brasileira.

Ela se estende das montadoras automotivas ao desenvolvimento do Cerrado.

Da culinária ao jiu-jitsu.

Do Bairro da Liberdade aos haicais de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski, Érico Veríssimo e Millôr Fernandes.

Dos quadros abstratos de Manabu Mabe às formas onduladas de Tomie Ohtake.

Muitos brasileiros também atravessaram o mundo para viver no Japão e hoje representam uma comunidade expressiva, cuja força criativa soma-se ao espírito inovador japonês.

Majestades,

Japão e Brasil são parceiros estratégicos.

Compartilhamos valores como a democracia, a paz, o multilateralismo e o desenvolvimento sustentável.

No discurso que proferiu em Brasília em 2018, por ocasião do 8º Fórum Mundial da Água, ainda como príncipe-herdeiro, o Imperador Naruhito fez um apelo à comunidade internacional para dar prioridade ao fornecimento sustentável de água e saneamento.

Suas preocupações não poderiam ser mais atuais e relevantes.

Como país que abriga a maior floresta tropical e reserva de água doce do mundo, e que conta com um vasto mar territorial denominado “Amazônia Azul”, o Brasil está comprometido com um modelo de sustentabilidade baseado na inclusão social.

Contamos com o firme engajamento do Japão na COP 30, em Belém do Pará.

Receberemos a Princesa Kako de Akichino de braços abertos, em junho próximo, por ocasião das celebrações do “Ano de Intercâmbio da Amizade Brasil-Japão”.

Permitam-me brindar à saúde de Vossas Majestades, à prosperidade do povo japonês e à amizade entre Japão e Brasil.

Um brinde à Era Reiwa!

Muito obrigado.

Kanpai!"

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