Após cinco meses de impasse político, os austríacos finalmente chegaram a um consenso para a formação de um novo governo. O acordo ocorre 150 dias após as eleições legislativas de 29 de setembro de 2024, que elegeram os membros do Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) do país.
Apesar de ter "vencido" a eleição, conquistado 28,8% dos votos (57 deputados), o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de extrema direita, não conseguiu formar uma aliança com outras forças políticas para governar o país. No sistema parlamentarista austríaco, é necessário obter o apoio de pelo menos 92 deputados para alcançar a maioria no Conselho Nacional, composto por 183 parlamentares.
Diante da incapacidade do FPÖ de articular uma maioria, os partidos de centro-direita e centro-esquerda apresentaram uma coalizão inédita ao presidente do país. O acordo reúne o Partido do Povo Austríaco (ÖVP), conservador, que ficou em segundo lugar nas eleições com 26,3% (51 deputados); o Partido Social-Democrata da Áustria (SPÖ), de centro-esquerda, terceiro colocado com 21,1% (41 deputados); e o NEOS, partido liberal que ocupou a quarta posição com 9,1% (18 deputados). Juntos, eles alcançariam pelo menos 55% dos deputados, prometendo garantir estabilidade política e governança para a nação centro-europeia.
A coalizão e seus desafios
Em uma conferência de imprensa conjunta realizada em Viena na manhã desta quinta-feira (27), os líderes dos partidos detalharam o acordo e a linha política geral do programa de governo da nova coalizão.
Christian Stocker, presidente do Partido do Povo Austríaco (ÖVP), de centro-direita, que será o novo chanceler, destacou que "fica para trás a mais difícil negociação para formação de um governo na história do país”.
No documento apresentado, intitulado "Agora, o certo a fazer pela Áustria!", enfatiza-se a necessidade de estabilidade e a defesa das bases constitucionais estabelecidas no pós-guerra, além da importância do pragmatismo e do consenso para enfrentar desafios atuais do país, como o controle da inflação, dos custos de vida, da imigração ilegal e do extremismo.
O ÖVP, além da chefia do governo com o chanceler, ficará com os ministérios do Interior, Defesa, Economia, Energia, Turismo, Agricultura e Meio Ambiente.
Andreas Babler, porta-voz do Partido Social-Democrata da Áustria (SPÖ), que assumirá o cargo de vice-chanceler, expressou orgulho pelo acordo, destacando a importância de “evitar a tomada das instituições nacionais pela extrema direita”.
Babler defendeu investimentos em áreas como saúde, educação e moradia, além de medidas para combater a inflação, o desemprego e o aumento do custo de vida. Ele também alertou para os riscos das manipulações em redes sociais, como o TikTok, e a propagação de notícias falsas e conteúdos extremistas que afetam principalmente os jovens.
O SPÖ comandará ministérios como Habitação, Finanças, Justiça, Ciência, Transporte, Trabalho e Saúde.
Por sua vez, Beate Meinl-Reisinger, representante do partido NEOS, de orientação liberal, destacou que o governo “não é um fim em si, mas um começo”. O NEOS ficará com os ministérios de Negócios Estrangeiros e Educação.
O avanço da extrema direita e o contexto europeu
O avanço da extrema direita na Europa, a guerra entre Rússia e Ucrânia, as mudanças na política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump e o questionamento dos valores liberal-democráticos consolidados no século XX têm causado instabilidade no continente.
A coalizão austríaca, no país de nascimento de Adolf Hitler, é vista como uma resposta para isolar as forças extremistas e fortalecer a governabilidade.
Durante a crise política, o líder direitista do FPÖ se declarou “chanceler do povo” diante de sua incapacidade de entrar em acordo com outros partidos. Ele também afirmou que promoveria uma "remigração massiva" e cancelaria o direito de asilo no país.
Diferentemente de outros partidos de extrema direita na Europa, que tentam se distanciar do passado antissemita e nazifascista, o FPÖ parece não se envergonhar muito. Seu primeiro líder, Anton Reinthaller, era um pan-germanista e ex-membro da SS nazista. Atualmente liderado por Herbert Kickl, o FPÖ é considerado um dos partidos de extrema direita mais agressivos da Europa.