ANÁLISE

Edição comemorativa de “Histórias de Alexandre” (I): vida e obra de Graciliano Ramos”

Primeira parte da “Introdução” da nova edição comemorativa – completa, corrigida e ilustrada – do clássico sertanejo de Graciliano (Edit. Práxis Literária/Anita Garibaldi)

Graciliano Ramos.Créditos: Biblioteca de SP/Governo do Estado
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Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos nos mexer. (Graciliano Ramos, "Memórias do cárcere").

Nos tempos em que o Nordeste brasileiro não tinha ainda sua voz e demandas suficientemente ouvidas no centro político e cultural que comandava o país, veio ao mundo Graciliano Ramos, um dos personagens maiores da nossa literatura. Com seu estilo refinado e severo – crítico e autocrítico –, algumas décadas mais tarde ajudaria a transformar aquele disparate cultural.

Destacando-se como romancista, cronista e contista, foi um dos protagonistas do realismo crítico que inaugurou a chamada geração modernista de 1930, ou segunda fase modernista – movimento literário surgido em meio à crise econômica mundial e nacional desatada no entreguerras com a quebra da bolsa em 1929 –, quando o Modernismo, ainda centrado na poesia do eixo Rio-São Paulo, radicalizaria a crítica formal da Semana de Artes Modernas de 1922, expandindo seu alcance territorial e colocando em primeiro plano uma prosa ficcional engajada, consciente da exploração, da desigualdade, da realidade miserável do povo brasileiro.

Foto: Reprodução

Vida e obra

Primeiro filho entre 16 irmãos, Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 1892, no município de Quebrangulo, em Alagoas, em uma família de modestos comerciantes descendentes de antigos senhores escravistas decadentes. Mudou-se ainda pequeno para a fazenda Pintadinho, em Buíque, no estado de Pernambuco, onde o pai fora tentar a sorte com gado – negócio que, porém, não vingou. Acompanhando o trajeto familiar, foi viver então em Viçosa, na Zona da Mata alagoana, onde frequentou o internato, um dos capítulos de sua sofrida formação educacional – irregular, de pouca qualidade e hostil.

Apesar da precariedade de seu ambiente de estudos, por esses tempos começou a se interessar pela literatura, passando a frequentar a biblioteca de um tabelião conhecido, onde leu, aos 9 anos de idade, seu primeiro grande romance, “O guarani”, de José de Alencar. Com apenas 11 anos, ao lado de um primo – e sob a liderança de um professor da escola onde estudava –, ajudou a fundar um jornal quinzenal, o “Dilúculo”, no qual publicaria seu primeiro conto.

Para prosseguir os estudos, aos 13 anos Graciliano teve de se afastar da família, passando cinco anos na capital Maceió, época em que produziu poemas publicados em periódicos locais e que alcançaram também uma revista importante, “O Malho”, do Rio de Janeiro (então capital federal), em que colaboravam nomes do parnasianismo como Guimarães Passos e Olavo Bilac. Pouco depois, em 1910, foi convidado pelo Jornal de Alagoas para responder a um “inquérito literário”, no qual – dando as primeiras mostras de sua qualidade crítica – arremeteu contra a ideia caricata de se criar uma “Academia Alagoana de Letras”, o que, segundo ele, não traria desenvolvimento literário, reduzindo-se a um provável reduto da soberba de pretensos “imortais”.

Terminados os estudos secundários, Graciliano retornou para junto da família, que agora residia em Palmeira dos Índios, assumindo o controle da loja e da pequena fábrica de algodão que o pai adquirira. Com esse regresso ao interior, afastou-se do caminho universitário – da possibilidade de uma formação acadêmica –, embora já demonstrasse a intenção de seguir a carreira literária.

Por esses tempos, em paralelo ao serviço repetitivo do comando da loja, dedicou-se também à produção literária, atividade compartilhada com um amigo (futuro jornalista). Já aborrecido com o raso ofício de comerciante, Graciliano decidiu então tentar a vida no Rio de Janeiro, para onde viajou em 1914 com o objetivo de buscar ocupação como jornalista.

À época, a imprensa corporativa era ainda um reduto para intelectuais, e ele não tardou a conseguir trabalhos como cronista e revisor – ofícios que exerceria como sustento a partir da década de 1940. Contudo, ainda em 1915 teve de se afastar do jornalismo e regressou às pressas para Palmeiras dos Índios, para apoiar os familiares após a morte de três irmãos e um primo, vítimas da peste bubônica. No mesmo ano, casou-se com Maria Augusta de Barros e passou a tocar uma loja de tecidos, afastando-se por cinco anos da escrita, até o falecimento da esposa por problemas no parto – deixando-o com quatro crianças pequenas.

Em 1921, após esse período distante da imprensa, começou a colaborar com um pequeno semanário palmeirense, “O Índio”, sob pseudônimos como J. Calisto, Anastácio Anacleto e X. Graciliano, até a década 1930, não usou seu nome próprio em textos – assinando-os com pseudônimos tais como Feliciano Olivença e Lúcio Guedes, ou com iniciais como R.O ou G.R. Em 1925, iniciou a escrita de “Caetés”, obra de estética naturalista que seria seu romance de estreia. Elegeu-se prefeito de Palmeiras dos Índios em 1927 e, um ano depois, tomou posse do cargo e se casou com a jovem Heloísa Leite de Medeiros.

Em 1929, nasceu seu quinto filho, período em que ele elaborou o primeiro de dois relatórios municipais de prestação de contas, documentos de traços literários e teor crítico que se tornariam famosos – chegando até a imprensa carioca e, mais tarde, contribuindo para sua perseguição durante a ditadura Vargas na década seguinte. Prefeito rigoroso, atento aos problemas sociais e comprometido com a melhoria da administração pública, enfrentou os privilégios e corrupção dos coronéis locais – e chegou a multar o próprio pai.

Eram tempos da crise de 1929, que no Brasil tinha derrubado os pilares da economia cafeeira. Com dois anos de mandato, acumulando problemas econômicos e adversários políticos – época em que pondera que não era um “imbecil” nem um “gatuno” para seguir naquele ofício –, recebeu convite do governador alagoano Álvaro Paes para dirigir a Imprensa Oficial de Alagoas. Renunciou à prefeitura e mudou-se para Maceió, onde passaria apenas um ano.

Havendo regressado a Palmeiras dos Índios, em 1932 começou a escrever seu segundo romance, “São Bernardo”, terminado no ano seguinte. Em 1933, publicou “Caetés”, sendo nomeado diretor da Instrução Pública do governo alagoano (cargo similar ao de secretário da Educação). Um ano depois, publicou “São Bernardo”, livro “bruto e cortante” – nas palavras de Antonio Candido – que ratificou sua maturidade literária.

Conforme Getúlio Vargas não avançava nas reformas sociais de urgência e centralizava o poder, em 1935 aconteceu o Levante Comunista; derrotado o movimento, aumentou a pressão getulista sobre adversários políticos e setores democráticos, progressistas e socialistas. Graciliano Ramos foi então exonerado do cargo de diretor da Instrução Pública e, em março de 1936, preso na capital alagoana, sendo conduzido a Pernambuco e, em seguida, ao Rio de Janeiro.

Como destacou Nelson Werneck Sodré, ao contrário da ideia de que a detenção do autor teria sido um “lamentável equívoco”, nada houve de engano em sua prisão: era a ele mesmo que queriam deter, por suas ideias já manifestadas publicamente nos relatórios municipais e nos recém-publicados romances de severa crítica social. Somam-se a isso seus três anos como diretor de ensino, em que as tornou prática administrativa, implementando ações como: concurso público para efetivação do cargo de professor, distribuição de merenda, uniformes e material didático para crianças pobres, proibição de castigos físicos e, por fim, a implantação de uma escola-modelo em Pajuçara, com o objetivo de promover a inclusão de crianças pobres, na maior parte negras, sob o comando de uma professora também negra, dona Irene, nomeada por ele diretora da escola.

Embora estando confinado, Graciliano publicou, em setembro de 1936, pela editora José Olympio, o premiado “Angústia” – obra dura, psicológica, em que aprofunda seu estilo enxuto e minucioso (ainda que o desejo manifesto pelo autor fosse tê-la reduzido ainda mais, a “um terço”). Libertado do cárcere em 1937, no ano seguinte publicou “Vidas secas” – um de seus livros mais profundos e conhecidos. Em 1939, no Rio, foi nomeado inspetor federal do Ensino Secundário, cargo muito inferior ao anterior, de diretor da Instrução Pública. Participou também de um concurso literário organizado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), concorrendo com a obra “A terra dos meninos pelados”, que conquistou o primeiro lugar e foi publicada nesse mesmo ano.

Em parceria com José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Aníbal Machado, em 1942 publicou a obra ficcional “Brandão: entre o mar e o amor” – projeto experimental improvisado e carente de unidade.

Finalmente, em 1944 foi a vez de vir a público “Histórias de Alexandre”, novela cativante, dividida em capítulos que se entrelaçam – na qual, conforme observa José Geraldo Vieira, o autor transitou entre o “realismo mágico” e o “onirismo burlesco”.

No ano seguinte, Graciliano Ramos se filiou ao Partido Comunista do Brasil (antiga denominação do PCB), e veio à luz seu livro autobiográfico “Infância”. Na mesma época, começou a conceber outra de suas obras máximas: o livro póstumo “Memórias do cárcere” (1953) – testemunho de sua temporada prisional, em que não apenas descreve sua experiência, mas busca sondar o íntimo humano.

Em 1947, publicou a coletânea de contos “Insônia”. Cinco anos depois, nos primórdios da Primeira Guerra Fria, viajou para a União Soviética, visitando na ocasião também a Tchecoslováquia, França e Portugal. Pouco depois, em janeiro de 1953, vitimado por doença pulmonar, Graciliano Ramos foi internado no Rio de Janeiro, vindo a falecer dois meses depois.

Publicações póstumas

Postumamente, Graciliano teria ainda algumas obras inéditas publicadas, além de escritos revisitados e adaptados para o cinema, teatro e cordel. No ano de sua morte, sua companheira Heloísa Ramos publicou o livro “Memórias do cárcere”, narrativa de testemunho, e, no ano seguinte, “Viagem” (contendo crônicas de sua experiência viajando por países socialistas).

Em 1962, também coordenadas pela esposa, são publicadas três coletâneas. “Linhas tortas”, uma reunião de crônicas em que manifesta sua conhecida perspectiva de que se deve escrever “da mesma maneira” lenta, cuidadosa e sem enfeites como trabalham as lavadeiras. “Viventes das Alagoas”, em que se mesclam crônicas e artigos de opinião. Por fim, a intitulada “Alexandre e outros heróis”, uma miscelânea de textos voltados ao público jovem, sem um fio comum consistente, em que se encontram as espirituosas “Histórias de Alexandre”, “A Terra dos Meninos Pelados” (narrativa infantojuvenil com ambiente e tom de fantasia distintos da anterior) e a “Pequena História da República” (dissonante de ambas).

Em 1980, Heloísa Ramos doou ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo o arquivo de Graciliano Ramos, composto por seus manuscritos, recortes e documentação de atividade como jornalista, além de documentos pessoais, como correspondências, fotografias e livros de sua biblioteca.

A partir de então, novos estudos realizados nesse e em outros arquivos com acervo do autor viriam a resultar em publicações inéditas, como: “Cartas” (1980), “Cartas de amor a Heloísa” (1992), “Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raul Nava” (2008), “Garranchos” (2012), “Conversas” (2014) e “Cangaços” (2014).

[Continua...]

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*Yuri Martins-Fontes é professor, escritor, editor e tradutor; membro da coordenação do Núcleo Práxis-USP e da Editorial Práxis Literária, é autor de “Marx na América” (2018), “Cantos dos infernos” (2021) e “História e lutas sociais” (2019), entre outras obras.

**Edilson Dias de Moura é professor, editor, revisor e autor de material didático e crítica literária; doutor em Letras (USP), é cofundador da revista “Opiniães” (USP) e autor de “Graciliano: romancista, homem público, antirracista” (Edições Sesc-SP, 2023).

***Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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