NÃO É SÓ UMA TREND

Studio Ghibli no ChatGPT: uso de IA para reproduzir estilo usurpa conceito da arte e amplia impacto ambiental

Ilustrações no estilo do anime japonês viralizaram no mundo após atualização da OpenAI na contramão de manifesto de artistas pela valorização do traço e do contexto da obra

Hayao Miyazaki, o criador do desenho e cofundador do Studio Ghibli.Créditos: Reprodução / IMDb
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Nos últimos dias, as redes sociais foram inundadas por imagens de amigos, familiares, políticos e celebridades transformados em personagens no estilo dos filmes do Studio Ghibli. No TikTok, Instagram e no X, a tendência com o traço marcante das animações de Hayao Miyazaki, criador de clássicos como Meu Vizinho Totoro e A Viagem de Chihiro, se espalhou rapidamente e virou uma febre com a atualização lançada pela OpenAI.

O que parece ser divertido e inofensivo, na verdade, volta a chamar atenção para os direitos autorais de artistas, o conceito de desenvolvimento, sentido e identidade contido na arte e o impacto ambiental gerado pela alta quantidade de solicitações feitas ao ChatGPT das imagens no estilo do estúdio Ghibli, responsável por filmes de animação populares nos anos 1990 e 2000.

Tanto que, devido à alta demanda dos usuários, a empresa teve que retirar a funcionalidade. O CEO da OpenAI, Sam Altman, mencionou que seria necessário reduzir temporariamente as taxas de geração do ChatGPT para otimizar a performance. 

“Nossas GPUs estão derretendo”, escreveu.

Uma reportagem da Fórum trouxe à tona em janeiro deste ano o estudo que alerta para o alto nível de poluição atmosférica e consumo de água para manter data centers em funcionamento, principalmente o da OpenAI. Os pesquisadores destacaram que apenas uma solicitação pelo ChatGPT consome 10x mais eletricidade que uma pesquisa no Google.

É estimado que um total de 6,6 milhões de m3 de água sejam utilizados até 2027 para essa finalidade. Utilizar o ChatGPT e o e-mail implica o uso de 500 ml de água. No caso dos memes do Studio Ghibili, é provável que se tenha consumido por imagem algo como 2 a 3 litros de água.

LEIA MAIS: Big techs e ChatGPT vão gerar alto custo ao meio ambiente e à saúde pública, aponta estudo

Arte anticapitalista, verdadeira, artesanal e humana

Não é a primeira vez que profissionais da indústria criativa, como escritores, atores, músicos e artistas visuais, expressam preocupações com a questão. Em 2024, mais de 10 mil artistas, incluindo o escritor Kazuo Ishiguro, a atriz Julianne Moore e o músico Thom Yorke, do Radiohead, assinaram uma carta aberta condenando o "uso não autorizado de obras criativas" para treinar modelos de IA.

O criador do desenho e  cofundador do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki, também tinha se posicionado contra o uso da reprodução da arte na inteligência artificial em 2016, quando lhe mostraram um exemplo de animação criada pelos algoritmos.

"Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente e fazer. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Eu sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida", disse Miyazaki.

Karla Ortiz, artista que cresceu com os filmes das ilustrações Studio Ghibli, move uma ação judicial contra as ferramentas de IA que geram imagens a partir da arte humana. “Eles estão explorando o nome, a marca e a reputação do Ghibli para divulgar (os produtos da OpenAI). Isso é uma exploração”, comentou em declaração à AP News.

A artista também criticou o uso de uma imagem no estilo Ghibli pela conta oficial do governo Trump, que mostrava uma mulher negra chorando após ser detida por agentes de imigração dos EUA. 

“É devastador ver algo tão maravilhoso como o trabalho de Miyazaki ser usado para criar algo tão repugnante”, escreveu ela nas redes sociais.

Em suas obras, Miyazaki adota uma narrativa anticapitalista ao questionar o consumismo e a desumanização e traz uma série de reflexões e interpretações por meio de simbolismos profundos. O Studio Ghibli não é a “Disney japonesa” e não visa o mundo propagandístico, mas o sentido da vida e a "alma" das próprias criações. Os filmes homenageiam o trabalho criativo e a união humana contra a dominação e a ambição, o que também pode conferir críticas às práticas predatórias e antidemocráticas das próprias big techs. Uma matéria da Fórum mostrou o quanto as grandes empresas de tecnologia vêm dominando setores da sociedade.

Além disso, o estúdio se destaca pelo traço único, o fato de desenhar todos os quadros à mão, o que confere maior fluidez aos desenhos, uma imagem mais orgânica e com toque original, artesanal. Os mundos imaginários do Studio são paisagens fantásticas e espaços de solidariedade e aprendizados, com mensagem, contexto, vida e sentido.

Usuários nas redes sociais saíram em defesa da estética e do contexto dos traços japoneses:

Foto: Reprodução / X

Após críticas, o sistema passou a bloquear solicitações que tentem reproduzir o estilo de artistas vivos, segundo a OpenAI. A empresa afirmou estar adotando uma “abordagem conservadora” para evitar complicações com direitos autorais, embora ainda permita a criação de imagens inspiradas em outros estilos de estúdios ou movimentos artísticos.

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