A descoberta do primeiro “país” territorialmente delimitado a surgir na Península Ibérica, durante a Idade do Bronze [3.300 a..C. e 1.200 a.C.], descrita no periódico Journal of Archaeological Method and Theory, trouxe evidências surpreendentes acerca do papel das mulheres na civilização do Mediterrâneo Ocidental de El Argar.
De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, uma das tumbas desvendadas no sítio de El Argar revelou itens pessoais de uma mulher de classe distinta — a sociedade de argariana era marcada por traços de hierarquia social bem definida. Os itens, descritos no periódico Antiquity, foram descobertos em uma espécie de "salão de governo", que remonta a um edifício governista, no sítio arqueológico de La Almoloya, na região de Múrcia.
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Um dos dois indivíduos encontrados na tumba era uma mulher de idade estimada entre 25 e 30 anos, e havia, no mesmo ambiente, cerca de 30 objetos decorados com prata, a maioria deles pertencente à mulher. O outro indivíduo era um homem de até 40 anos.
Entre os objetos havia joias, como pulseiras e colares, e recipientes que carregavam oferendas, geralmente compostas por animais. Uma das joias, um diadema de prata, foi encontrado na cabeça da mulher jovem, e acredita-se que tenha sido criado no mesmo lugar que outros itens ornamentais já escavados pelos pesquisadores em sítios dispersos da cultura argárica, cuja ocupação ampla do território espanhol foi retraçada em um mapa.
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Significado do ornamento
Um item notável para a cultura, o diadema de prata foi associado a "sujeitos emblemáticos da classe dominante", de acordo com uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, Cristina Rihuete, da UAB. Para ela, os objetos funerários guardam semelhanças com outras joias e itens decorativos pertencentes às classes dominantes de culturas encontradas em regiões da Bretanha, Wessex e da República Checa, além do Mediterrâneo oriental do século 17 a.C.
A pergunta suscitada pelas descobertas se relaciona ao papel exato que pode ter sido exercido pelas mulheres de classes hierarquicamente superiores da cultura argária: poderiam elas ter sido governantes, ou apenas parte de classes superiores?
Para os pesquisadores, há uma chance real de que essas mulheres podem ter pertencido à classe de governantes, já que outras amostras de indivíduos do sexo feminino encontradas nos sítios de El Argar pareciam ser "coroadas" com os diademas de prata, e os homens tinham em suas tumbas itens que aparentavam ser de pior qualidade ou carregar um simbolismo "inferior".
A presença de uma espada como objeto enterrado junto à parte masculina na tumba, além disso, foi associada a funções "práticas" da política, como as execuções e a defesa de modo geral — enquanto era reservada às mulheres a função do governo, sugerem as análises.
O local da descoberta, no que parecia ser uma espécie de "parlamento" do sítio de La Almoloya, é mais um indicativo da possível função governista atribuída às mulheres argáricas.