JUSTIÇA

Marcelo Rubens Paiva: “Falta gente nas ruas contra a anistia para golpistas”

Ato flopado de Bolsonaro por anistia coincide com momento em que crimes da ditadura são postos a conhecimento público em filme

Marcelo Rubens Paiva em evento sobre democracia na USP.Créditos: Reprodução de vídeo
Escrito en CULTURA el

“Há dez anos que o Supremo não julga uma lei que minha mãe tanto lutou. Como é que essa lei ainda está em julgamento em 2025? Por que o Supremo precisou esperar tanto tempo para julgar essa lei? Isso me envergonha”, desabafou Marcelo Rubens Paiva sobre a Lei de Anistia, que voltou à pauta do Supremo Tribunal Federal (STF) somente após o sucesso de Ainda Estou Aqui.

O escritor fez a declaração no evento "40 anos de democracia no Brasil", da Faculdade de Direito da USP, ao lado da ministra Cármen Lúcia e da jornalista Patrícia Campos Mello.

Filho de Eunice e Rubens Paiva ainda alertou para a falta de pressão nas ruas pela campanha "sem anistia" aos golpistas dos atos de 8 de janeiro de 2023, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais 34 acusados no caso da trama golpista de 2022.

“Estou sentindo falta das pessoas nas ruas, pedindo "sem anistia" aos golpistas. Quem está nas ruas são os bolsonaristas. A democracia precisa de vigilância constante, porque está sempre sob ameaça”, destacou.

No momento, três processos sobre a anistia estão em tramitação no Supremo Tribunal Federal, que perdoou responsáveis por crimes políticos ou conexos cometidos entre 1961 e 1979, impedindo a punição de torturadores e de quem causou a morte de opositores durante o regime militar. “O torturador do meu pai ainda está vivo, morando em Botafogo [bairro do Rio] e ganhando aposentadoria", disse Marcelo.

"O mundo inteiro está por dentro do julgamento. Os jornalistas americanos, os franceses que me entrevistam. Aliás, tem um jornalista presente aqui, do New York, que acabou de falar nisso. Eles estão orgulhosos de esperar com o que nós conseguimos fazer eo que os americanos não conseguiram. É incrível. É provável que a nossa democracia, de fato, está solidificada na nossa alma como desejo para a maioria da população. E para encerrar, eu queria citar a frase que foi citada aqui quando eu entrei: que a vida presta, e eu vou dizer que a luta presta. A luta vale a pena"

Fim da linha para Bolsonaro

O maior medo de Jair Bolsonaro, antes de uma provável condenação à prisão, se tornou realidade neste domingo (16) em Copacabana, no Rio de Janeiro. Antes do ato pela "anistia", Bolsonaro confessou a aliados próximos que seu maior receio era não conseguir uma foto que mostrasse apoio popular à narrativa de que é perseguido pela "ditadura do judiciário".

Pelos cálculos do ex-presidente, segundo esses aliados, seria necessário aglomerar 400 mil apoiadores na orla de Copacabana para se obter a imagem, que seria propagada ao mundo para provar a narrativa do clã. No entanto, ao subir no trio elétrico ao lado de Malafaia, Bolsonaro viu que seus planos foram por água abaixo.

O público flopado no ato foi confirmado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que estimaram em 18,3 mil pessoas os presentes no ápice da manifestação, o menor público já registrado em eventos da ultradireita bolsonarista.

A manifestação bolsonarista "mostrou ao mundo um Bolsonaro cada vez mais fraco e isolado".  A opinião é do advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, que chama atenção para o papel desempenhado pelo governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, no ato.

"Tarcísio, ao lado de outros governadores, já disputa o legado do seu chefe, mas, em uma aposta arriscada, revelou ser uma face da mesma moeda. Um candidato de uma extrema direita raivosa e sectária, sem um projeto que atenda aos reais interesses do país", disse Marco Aurélio à Fórum

Em seu discurso no protesto bolsonarista, Tarcísio, que é um dos nomes mais cotados da extrema direita para concorrer à presidência em 2026, visto que Bolsonaro está inelegível e prestes a se tornar réu por tentativa de golpe de Estado, criticou a inelegibilidade do ex-mandatário e lançou ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Ninguém aguenta mais arroz caro, gasolina cara, o ovo caro. Prometeram picanha e não tem nem ovo. E, se está tudo caro, volta Bolsonaro (...) Qual a razão de afastar Jair Bolsonaro das urnas? É medo de perder a eleição, e eles sabem que vão perder?", disparou o governador. 

Bolsonaro, por sua vez, insistiu nos pedidos de anistia aos golpistas do 8 de janeiro, que em última instância, se aprovada, pode beneficiá-lo, disse que seria "um problema" para seus opositores "vivo ou morto" e, ainda que tenha afirmado que será candidato em 2026, já admitiu que há pessoas capazes de substituí-lo.

Segundo Marco Aurélio Carvalho, a manifestação, que contou com um número muito menor de pessoas do que o esperado por Bolsonaro (o ex-presidente esperava 1 milhão, mas o ato reuniu 18,3 mil pessoas em seu ápice, segundo estudo), foi "um verdadeiro cortejo fúnebre", com Tarcísio já "disputando o legado do defunto". 

"As manifestações foram um verdadeiro cortejo fúnebre. Bolsonaro foi velado à luz do dia. E o guela, como se diz no Nordeste, é o Tarcísio, que já disputa, em frente ao caixão, o legado do defunto", analisa o advogado.

LEIA A ENTREVISTA: Bolsonaro foi velado à luz do dia em cortejo fúnebre, diz coordenador do Grupo Prerrogativas

Reporte Error
Comunicar erro Encontrou um erro na matéria? Ajude-nos a melhorar