Em mais um caso não isolado, na madrugada desta segunda-feira (24), na zona norte do Rio, um policial militar perseguiu de carro dois homens pretos em uma mototáxi, “achando” que fossem os responsáveis pelo roubo do celular da esposa. Ao se aproximar, atirou e atingiu as costas de um trabalhador que voltava para casa após o expediente.
O passageiro atingido é Igor Melo de Carvalho, estudante de Jornalismo na Universidade Celso Lisboa. Casado e pai de um menino de 2 anos, ele reside em Turiaçu, na zona norte do Rio.
Sua esposa, Marina Moura, relatou nas redes sociais que o marido havia acabado de sair do trabalho em uma casa de shows e solicitado uma corrida de moto por aplicativo para voltar para casa. Registros de câmeras de segurança mostram o momento em que ele sobe no veículo, ainda uniformizado, quando no meio do caminho, uma mulher o acusou de roubo.
"Tudo isso se deu porque ele está sendo acusado de roubo por uma mulher que disse que foi assaltada por ele. Alguém efetuou o disparo, não sabemos quem foi, mas temos relatos de um policial que estava lá que a mulher estava visivelmente bêbada", escreveu no X.
Igor foi atingido pelas costas e precisou ser levado às pressas para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha. Submetido a uma cirurgia de emergência, ele teve o rim direito removido. Apesar da gravidade do ferimento, seu estado de saúde é estável, segundo o hospital.
"Quem conhece Igor sabe que ele jamais faria isso. Igor é trabalhador, honesto e pai de família. Todo fim de semana ele trabalha nesse bar e traz nosso alimento, nunca nos falta nada porque eu trabalho e ele trabalha o dobro. Ele está sendo vítima de uma injustiça que não tem tamanho. Eu estou vivendo um pesadelo", disse Marina Moura.
Atualmente, Igor cria conteúdo para o YouTube e redes sociais e é administrador do perfil "Canal do Igor Melo - Informe Botafogo". O clube deve realizar uma visita no hospital.
O advogado Rodrigo Mondego, que acompanha a família por meio da Comissão Popular de Direitos Humanos, o vereador Leonel da Esquerda e o ativista Renê Silva clamam por justiça e dignidade para Igor.
Violência policial no Rio
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em uma análise das estatísticas da polícia fluminense de 2003 a 2023, mostram que nos últimos dez anos, as forças de segurança do Rio causaram a morte de 21.498 pessoas durante ações policiais. Com uma população predominantemente negra, entre 2019 e 2023, a taxa de vitimação de pretos e pardos foi 6,4 vezes maior do que a de brancos.
Em nível nacional, pessoas pretas são quatro vezes mais atingidas pela violência policial em comparação aos brancos. Em termos absolutos, durante esse período, as polícias do estado mataram 5.154 pessoas pretas e 769 brancas. A pesquisa também revela que, em 2023, 99,6% das vítimas de intervenção policial eram homens, 54,5% tinham entre 12 e 24 anos, e um quarto das vítimas eram menores de 30 anos.
Uma pessoa preta é morta pela polícia a cada quatro horas
A cada quatro horas, uma pessoa negra é morta pela polícia no Brasil. Em 2023, foram 2.782 vítimas em nove estados. Desse total, 243 eram crianças e adolescentes de 12 a 17 anos. Os dados fazem parte do relatório "Pele Alvo: Mortes Que Revelam Um Padrão", lançado pela Rede de Observatórios da Segurança, em novembro do ano passado.
O documento fiscalizou o número de mortes por agentes do Estado no Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Através de dados obtidos das Secretarias de Segurança Pública e órgãos correlatos, o Observatório pôde constatar que das 4.025 vítimas da letalidade de ações policiais, 2.782 eram pessoas negras — ou seja, 87%.
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