Entidade que acolhe crianças em São Vicente pode fechar por falta de apoio
Casa Crescer e Brilhar vive crise financeira por defasagem nos repasses públicos e atrasos sistemáticos nos pagamentos devidos pela gestão municipal
A Casa Crescer e Brilhar, entidade referência que há quase 50 anos acolhe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de São Vicente, no litoral paulista, corre sério risco de fechar. A entidade vive uma grave crise financeira, provocada, principalmente, pela defasagem nos repasses públicos e atrasos sistemáticos nos pagamentos devidos pela gestão municipal.
Por mais de quatro décadas, a Casa Crescer e Brilhar tem sido uma espécie de porto seguro para essas crianças e esses adolescentes, cumprindo um papel fundamental previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Fundada por lideranças comunitárias históricas, como Angelina Pretti da Silva, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal, a entidade sem fins lucrativos é, hoje, referência regional em acolhimento institucional e proteção da infância.
Agora, essa trajetória corre o risco de ser interrompida. E não por falta de trabalho, competência ou impacto social. Desde o início de 2024, a entidade vem alertando autoridades sobre uma grave crise financeira.
Ainda em 2024, o custo total da folha salarial chegou a R$ 63 mil por mês. Considerando 13 meses (incluindo o 13º salário), totaliza R$ 819 mil no ano. Já os repasses públicos somaram apenas 10 parcelas de R$ 47 mil, ou seja, R$ 470 mil no mesmo período, gerando um déficit anual de mais de R$ 349 mil apenas com a folha de pagamento. Isso sem contar os gastos com alimentação, manutenção, higiene, transporte, saúde, lazer e atividades socioeducativas.
Para sobreviver, a entidade sempre teve robustas ajudas de pessoas abnegadas que vem diminuindo ano a ano, por isso, tem recorrido a empréstimos bancários, usando inicialmente o cheque especial, o que já resultou em uma reorganização financeira para sair do cheque especial e para um empréstimo de R$ 81 mil de dívida ativa e quase R$ 29 mil pagos em juros apenas em 2024.
“São anos de atrasos no pagamento do convênio que a prefeitura mantém. Mesmo os recursos do estado e do governo federal, que dependem da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SEDES), acabam vindo com atraso. O prefeito Kayo Amado (Pode), que está no segundo mandato, nunca visitou a entidade, mesmo com sucessivas denúncias públicas”, relatou Bertholdo Maurício da Costa, voluntário da Casa Crescer e Brilhar.
“O salário dos funcionários, a conta de luz, o valor pago a psicólogos, a médicos, vencem todo mês, porque a prefeitura não fornece os serviços com a qualidade e com a pontualidade necessárias a essas crianças e adolescentes”, destacou.
Bertholdo contou que, no local, são 20 crianças e adolescentes atendidos. “Desses, pelo menos 3 possuem características de deficiências, como espectro autista, deficiências intelectuais. Eles precisam de tratamento especializado, de transporte para esse tratamento”.
O voluntário disse, ainda, que Casa está à beira do fechamento. “O que a prefeitura paga é, praticamente, um terço da despesa total. Vários doadores e doadoras da cidade já envelheceram ou já faleceram, e não tem mais como bancar essa doação mensal que faziam há anos. Isso foi sendo reduzido”, lamentou Bertholdo.
“A Casa, nos últimos anos, contraiu empréstimos bancários, para pagar os salários dos funcionários. Não se trata de gasto excessivo, não é má-administração. Foi muito carinho, muita atenção com essas crianças. Hoje, cerca de 85% do pouco que nós recebemos em doações e também do convênio com a prefeitura é gasto com o pessoal”, completou.
Mobilização e abaixo-assinado
A Frente Popular está organizando ações de mobilização, denúncias públicas, pedidos de reunião emergencial com o Ministério Público e Defensoria Pública, e articulação para garantir a liberação de emendas parlamentares de custeio, como as da deputada estadual Mônica Seixas (PSOL), que somam R$ 350 mil.
“O que está em risco é a dignidade da infância em São Vicente. A Casa não pode fechar. A cidade e o estado precisam se posicionar”, afirmou um dos articuladores da Frente.
Também foi criado em abaixo-assinado em defesa da Casa Crescer e Brilhar. Para ajudar, basta assinar aqui.
Visita e expectativa por providências
Depois de algumas tentativas frustradas, o secretário de Desenvolvimento Social, Jailton Jatobá, enfim, visitou a entidade. Os integrantes da Casa voltaram a ressaltar as dificuldades vividas e a necessidade de que haja mais atenção com os recursos destinados ao local.
O presidente da Casa Crescer e Brilhar, Anguair Gomes, destacou a visita e aguarda providências concretas. “Depois que a gente ampliou as discussões, recebemos a visita do secretário Jatobá para equacionar todas as questões referentes ao que tinha sido divulgado. O objetivo é que a Casa Crescer e Brilhar não venha a fechar. E feliz da vida, porque a gente começa a apontar um rumo, não só para a Casa Crescer e Brilhar, mas para um projeto mais amplo de assistência social”, avaliou.
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