Novo livro

Lançamento em Santos destaca atuação da Cia. Docas de Santos e Codesp na ditadura de 1964

Obra busca revelar como o golpe empresarial-militar de 1964 desarticulou e perseguiu o movimento sindical santista, inserindo o Porto de Santos na lógica de repressão política e econômica que marcou o país no período

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Lançamento em Santos destaca atuação da Cia. Docas de Santos e Codesp na ditadura de 1964
Reprodução/Facebook Memória Paulista

O livro “Cia Docas de Santos/Codesp – Estado empresa na repressão aos trabalhadores durante a ditadura (1964-1985)”, publicado pela Editora Paco, será lançado em Santos no dia 8 de novembro de 2025, das 16h às 19h, na Livraria Realejo, para uma reflexão sobre a história do porto e da cidade. A obra busca revelar como o golpe empresarial-militar de 1964 desarticulou e perseguiu o movimento sindical santista, inserindo o Porto de Santos na lógica de repressão política e econômica que marcou o país no período.

Resultado de uma pesquisa coordenada pela Profa. Dra. Vera Lucia Vieira (PUC-SP) realizada a partir de edital aprovado pelo Centro de Apoio e Acompanhamento à Formação (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), os pesquisadores tiveram acesso a acervos importantes, entre eles o Arquivo da Guarda Portuária, que continha documentos da Companhia Docas de Santos (CDS) e da Companhia Docas do Estado de São Paulo (CODESP) no período aborado, além de atas e fichas de trabalhadores do Sindicato dos Operários nos Serviços Portuários de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão (SINTRAPORT), além de documentos do Arquivo Nacional, do fundo Departamento de Ordem Política e Social de Santos (DOPS-Santos). Esses arquivos permitiram reconstruir o papel das referidas empresas na articulação da ditadura empresarial-militar, revelando, no caso da Companhia Docas de Santos, como o empresariado e o aparato repressivo se entrelaçaram na perseguição aos trabalhadores portuários e às lideranças de esquerda.

A Companhia Docas de Santos e a CODESP, concessionárias responsáveis pela administração do Porto de Santos entre as décadas de 1890 e 1980, mantiveram uma trajetória marcada pela concentração de poder econômico e pela ausência de contrapartidas sociais — desde o Império, a empresa nunca pagou um único imposto à Prefeitura de Santos. Durante a ditadura empresarial-militar, operou como uma extensão do Estado autoritário, promovendo demissões, prisões e vigilância sobre os trabalhadores que ousavam se organizar.

Santos tem como marca registrada de sua história um legado de resistência e organização dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho. sendo uma cidade portuária, porta de entrada do fluxo de trabalhadores imigrantes, comportava também a entrada de ideias e experiencias socialistas, desde final do século XIX, ficando conhecida como a Moscou Brasileira.  Nas décadas de 1950 e 1960, os portuários e demais categorias santistas protagonizaram intensas greves, expressando a força e a capacidade de mobilização da classe trabalhadora. Essas greves, muitas delas realizadas em solidariedade a outras categorias, mostravam a consciência política e a unidade dos trabalhadores da Baixada. Em meio a esse cenário de efervescência sindical, Santos ganhou o apelido de “Moscou Brasileira”, símbolo do seu papel como um dos maiores centros de resistência operária do país.

Antes do golpe empresarial-militar de 1964, os trabalhadores brasileiros, em especial os santistas, se articularam em intersindicais, como o Fórum Sindical de Debates, além de sindicatos, federações e confederações que buscavam fortalecer as pautas comuns e defender a democracia sindical, rompendo a estrutura sindical verticalista e ampliando capacidade de luta e organização, sindicatos. Essas mobilizações expressavam um projeto coletivo de classe que via em Santos um dos principais polos de luta política e social do Brasil.

Participam da obra como autores Elaine de Almeida Bortone, Nilo Dias Oliveira e Milena Fonseca Fontes.

O lançamento em Santos representa um retorno simbólico da pesquisa ao seu território de origem — o mesmo espaço onde, décadas atrás, trabalhadores foram vigiados, fichados e punidos. Hoje, o debate em torno desse passado ajuda a compreender como o autoritarismo e os interesses empresariais moldaram o desenvolvimento urbano e social da cidade.

*Arthur Serra é historiador, mestre em História pela PUC-SP, pesquisador que trata das áreas de História Contemporânea, América Latina e Brasil. É também membro do Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL).

**Maria Aparecida de Paula Rago é doutora em História Social pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professora do Departamento de Economia da PUC-SP.


 

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