Desde que o mercado de apostas online despontou no país gerando impactos negativos na economia e na saúde de centenas de famílias brasileiras, estudos se dedicaram a investigar esses efeitos. O mais recente, divulgado nesta terça-feira (2), aponta que os danos à saúde causados pelas bets chegam a custar R$ 30,6 bilhões ao país.
O cálculo foi obtido pelo estudo inédito A saúde dos brasileiros em jogo, que mostrou os impactos desse setor nos casos de suicídio, desemprego, afastamento do trabalho e outros gastos com saúde. Ao todo, esses custos chegam a R$ 38,8 bilhões. Eles se dividem da seguinte maneira:
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- R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio;
- R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão;
- R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão;
- R$ 2,1 bilhões com seguro-desemprego;
- R$ 4,7 bilhões encarceramento por atividade criminal;
- R$ 1,3 bilhão diz respeito à perda de moradia
O estudo destaca que, no entanto, a legislação atual destina apenas 1% da arrecadação sobre a receita bruta das empresas de apostas ao Ministério da Saúde, percentual considerado "irrisório" diante da dimensão do problema. Os pesquisadores ainda criticam que, além disso, ainda não há uma vinculação orçamentária específica para o financiamento de ações de cuidado no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial, o que impossibilita verificar a equivalência ou discrepância entre os recursos obtidos pelo Estado com a tributação das apostas e os custos arcados pelo SUS.
Apostas custam à sociedade até 6 vezes mais do que contribuem
Com base em dados da da Receita Federal, o estudo ainda apontou que as apostas online geraram arrecadação de R$ 6,8 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, após a implementação da tributação do setor, o que significa que o setor podem custar à sociedade até 6 vezes mais do que contribuem para a arrecadação do país.
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Outros dados destacados pela pesquisa reforçam que o cenário atual contraria o argumento em defesa das apostas de que o setor poderia dinamizar a economia e gerar empregos. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, a contribuição do setor para o mercado de trabalho é irrisória: somente 1.144 empregos formais ativos em 31 de dezembro de 2024 com 60 empregadores formais – uma média de apenas 19 empregos por empresa.
Soluções e caminhos possíveis
Os pesquisadores citam o modelo de fiscalização britânica, que trata as apostas com uma abordagem integrada, envolvendo regulação estatal forte e destinação considerável de parte da arrecadação para o tratamento de saúde das pessoas afetadas, pode servir de referência para o Brasil, que começa agora a enfrentar os impactos do setor.
O estudo afirma que, apesar das medidas tímidas adotadas recentemente, o Brasil "ainda carece de uma estrutura assistencial forte e especializada, de campanhas públicas de informação e de sistemas de proteção".
"Para além das ações de mitigação dos danos, é essencial que o poder público enfrente também as causas do problema em suas múltiplas origens. Sem atacar essas raízes, as medidas compensatórias terão impacto limitado diante da crescente normalização das apostas na cultura digital brasileira", diz um trecho da pesquisa.
CPI das Bets
Em novembro do ano passado, diante de um cenário nacional trágico causado pelo avanço das bets, o Senado Federal instaurou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o setor de apostas, que ficou conhecida como CPI das Bets.
Durante os mais de seis meses de sessões, foram convocadas diversas pessoas envolvidas em esquemas criminosos do mercado de apostas, como influenciadores. A relatora Soraya Thronicke (Podemos-MS) ressaltou os dados que apontavam prejuízos financeiros e econômicos causados pelas bets, principalmente a famílias mais pobres.
O relatório final identificou crimes de lavagem de dinheiro, evasão fiscal, organização criminosa e manipulação algorítmica com possível fraude de resultados. No entanto, o texto foi rejeitado no dia 12 de junho deste ano e nenhum dos interrogados foi indiciado.
Uma das influenciadoras envolvidas, Virgínia Fonseca, que concentra mais de 50 milhões de seguidores no Instagram, foi acusada de estelionato e publicidade enganosa, mas não foi indiciada.