GROTESCO

O bucho de Bolsonaro: Fazendo das tripas votação

Há quem se alimente dessa nojeira vendo nela um rumo para o Brasil. Você se encaixa nisso? Se sim, esse texto é sob medida para você que fez da vida política no país esse chiqueiro

Créditos: Instagram/Reprodução
Escrito en POLÍTICA el

Quem acompanha a vida política em qualquer nação mundo afora sabe como as coisas funcionam. Sair vitorioso da arena onde duelam forças antagônicas tem um custo elevado, muitas vezes com caneladas e encontrões que deixam hematomas, entorses e ferimentos que não cicatrizam, mas tudo sempre no sentido figurado. Nos últimos anos, em decorrência do surgimento de correntes autoritárias que surfam as próprias contradições do modelo liberal, a coisa piorou muito, mas como tudo na vida parece existir um parâmetro minimamente visível a olho nu do que é aceitável.

Dito isso, focalizemos no Brasil das últimas semanas. O cenário deveria ser claro: uma extrema direita derrotada nas urnas por muito pouco na disputa pela Presidência, e com forte coro no parlamento, seguiria seu papel de oposição com seu jogo baixo e sujo já habitual, enquanto o governo, de centro-esquerda, por ser dado a reações e comportamentos tradicionais, seguiria seu rumo tentando neutralizar os adversários no campo das ideias. Pois é, deveria ser isso, mas não é.

Jair Bolsonaro (PL) venceu a eleição de 2018, ocupou o cargo de presidente da República por quatro e, diante de um mandato pífio e patético, conseguiu ser o primeiro ocupante do Palácio do Planalto a não se reeleger, mesmo com a máquina na mão. Os quatro anos caóticos do bufão à frente do Estado brasileiro só não parecem um pesadelo para quem perdeu a habilidade essencial de diferenciar a realidade da ficção.

Agora, quase dois anos e meio fora do poder e réu pela tentativa de golpe de Estado que promoveu ao final do mandato, no desespero por se conservar no cargo à força, prestes a ir para a cadeia ainda este ano, Bolsonaro, os filhos e o séquito mais próximo demolem por completo todo e qualquer resquício de civilidade que poderia habitar em seus seguidores imbecilizados. E para isso vale até a escatologia extremada.

Internado há três semanas para uma cirurgia de correção de aderências intestinais, o ex-presidente, após transformar a UTI onde estava instalado num circo de horrores e postar a retirada aflitiva de sua sonda nasogástrica, resolveu divulgar para o Brasil inteiro uma foto de suas tripas. Sim, abdômen aberto de alto a baixo e o grande “linguição” vermelho charmosamente exposto. Confesso que já ouvi falar de gente com medo da cadeia, mas pela enésima vez se fazer de vítima (posando uma vida inteira de machão) e publicar na timeline alheia as próprias vísceras é um expediente tão surreal que força até os limites do acreditável.

Bolsonaro transformou a vida política brasileira nessa nojeira. O nojo, literal, é também ferramenta de seu mecanismo abjeto de angariar e manter poder. Sonda jorrando secreções, tripas ao vivo, tudo calculado para render dividendos. No seu caso, para além de manter a “tropa” engajada, o procedimento tenta capitalizar no campo da anistia que o deixaria impune.

Em outra frente, o pupilo 03 do “capitão”, aquele que largou um mandato popular para se deleitar no “american way of life” do extremismo yankee, saiu espalhando para quem quisesse ouvir, gritando do alto da colina, que finalmente o governo de Donald Trump, o homem por quem mantém uma obsessão patológica, enviaria ao Brasil um representante para anunciar sanções contra o malvadão ministro Alexandre de Moraes, o magistrado que não dá moleza para seu pai e que apenas faz cumprir a lei.

Como uma criança sem vergonha na cara, o sujeito descompromissado com qualquer triz de verdade foi desmentido pela própria Casa Branca, que confirmou a ida do emissário para tratar de assuntos de Estado, sem nenhuma relação com Moraes ou STF, uma questão interna do Brasil e sobre a qual a potência estrangeira não tem interesse.

Se ao olhar para esses dois casos extremos de canalhice política você segue acreditando em Bolsonaro e em seu entorno, aí nós já temos um caso de cumplicidade. Bolsonaro faz a política do nojo para colar justamente com gente nojenta. Quem se refestela nessa imundice é parte integrante da nojeira.

Olhar para um mentiroso compulsivo que expõe o próprio intestino nas redes para gerar engajamento e tentar se livrar da cadeia, sem um pingo só de dignidade, e nele ver o rumo desejado para o Brasil é mais do que uma radiografia do momento que vivemos, é um retrato claro de que você perdeu a percepção de tudo.

Nós só nos encontramos nessa fossa política atual porque existe, para além de tudo, quem acredite que é possível fazer política mostrando seus intestinos. Bolsonaro é o que é porque existe uma plateia de desajustados que aplaude e se emociona até com tripas.

Reporte Error
Comunicar erro Encontrou um erro na matéria? Ajude-nos a melhorar