O ex-ministro da Cidadania Ronaldo Vieira Bento assumiu um cargo estratégico na cúpula do Banco Pleno S.A., instituição que surge da reestruturação do antigo Banco Voiter dentro do conglomerado do Banco Master e é tratada no mercado como herdeira dos ativos “saudáveis” do grupo, inclusive em segmentos ligados ao crédito consignado.
ENTENDA:
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Atos societários obtidos pela Fórum indicam que Bento foi nomeado diretor da holding NK 031 Empreendimentos e Participações S.A., controladora do Banco Pleno, e da própria instituição financeira. A NK 031 havia sido adquirida pelo Master em operação aprovada pelo Banco Central, em que o Voiter foi incorporado ao conglomerado antes de ser novamente separado, já com a nova marca.
A nomeação ocorre no mesmo período em que o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro de 2025, por problemas de liquidez e situação econômico-financeira, enquanto a Polícia Federal e a Justiça Federal investigam suspeitas de fraudes bilionárias em operações com o BRB no âmbito da Operação Compliance Zero. Em reportagens anteriores, a Fórum já detalhou prisões, buscas e apreensões contra o controlador Daniel Vorcaro e o impacto da crise sobre clientes e investidores do Master.
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Do Voiter ao Banco Pleno: a engenharia do “banco bom”
Relatórios de administração e comunicados ao mercado mostram que, em 2023, o Banco Master celebrou contrato para adquirir o controle do antigo Banco Voiter por meio da NK 031. A operação foi aprovada pelo Banco Central em 2024, integrando o Voiter ao conglomerado Master. Em 2025, já em meio ao agravamento da crise, o órgão regulador autorizou a saída do Voiter do grupo, que passou a adotar de vez a marca Banco Pleno.
A reconfiguração foi apresentada por executivos e analistas como uma forma de separar “ativos de melhor qualidade” das operações sob maior risco. Em textos promocionais e entrevistas, o Pleno passou a ser descrito como um banco voltado a crédito estruturado, investimentos e carteiras com garantias mais robustas, enquanto o Master permanecia com o grosso dos ativos associados às operações hoje investigadas pela PF e pelo Ministério Público.
Na prática, a operação teve o efeito de concentrar no Banco Pleno a parte mais atraente da carteira – incluindo segmentos ligados ao consignado – e deixar no Master a parte problemática que, posteriormente, seria alvo da Compliance Zero e da liquidação extrajudicial.
Bento no comando do herdeiro
É nesse cenário que o nome de Ronaldo Vieira Bento aparece na estrutura do Pleno. Registros da Junta Comercial e da Receita Federal consultados pela reportagem apontam que, em 2025, ele é indicado como diretor da NK 031 e do Banco Pleno. No mesmo período, documentos já o traziam como administrador da Mettacard Administradora de Cartões, empresa de cartão de benefício consignado cuja marca é licenciada ao próprio Banco Master.
Ou seja, o ex-ministro que, no governo Bolsonaro, participou da formulação e implantação das regras que abriram o consignado para beneficiários do Auxílio Brasil passa, na iniciativa privada, a ocupar posições de comando tanto na empresa de cartões que opera consignado com servidores quanto no banco que herda a parte “boa” do conglomerado Master.
O vínculo entre essas estruturas vai além do papel. A política de privacidade da Mettacard registra que a marca é licenciada ao Banco Master S/A; na loja Google Play, o aplicativo METTAcard aparece tendo o Banco Master como desenvolvedor, com endereço de escritório em Botafogo, no Rio de Janeiro, e e-mail de suporte no domínio do banco. A mesma base de tecnologia é usada para gerenciar operações de crédito atreladas a convênios com prefeituras e entes públicos.
Consignado e servidores: a nova frente de negócios
Enquanto o Banco Pleno se vende ao mercado como instituição “enxuta” e focada em operações estruturadas, documentos obtidos pela Fórum mostram que parte desses negócios passa por carteiras de crédito consignado alimentadas por convênios com entes públicos. Em propostas enviadas a prefeituras, como a de São Paulo, a Mettacard oferece cartões de benefício consignado cuja liquidação financeira é feita em contas mantidas em bancos do grupo, replicando uma lógica semelhante à vista no Auxílio Brasil: o desconto em folha garante a remuneração do produto financeiro.
Com Bento ocupando simultaneamente a administração da Mettacard e a diretoria do Banco Pleno, especialistas em integridade pública ouvidos pela reportagem enxergam um potencial conflito de interesses: a mesma figura que ajudou a construir o ambiente regulatório do consignado no governo passa a comandar empresas que dependem desse mercado, inclusive em uma instituição apontada como herdeira de ativos do Master.
Entre a ruptura formal e a continuidade de práticas
Com a liquidação extrajudicial do Master, clientes foram orientados a buscar ressarcimento junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), enquanto o Banco Pleno tenta se afirmar como entidade distinta, com capital e governança próprios. Em entrevistas e notas, executivos do Pleno insistem que o banco não é sucessor das irregularidades atribuídas ao Master e que seus resultados decorrem de uma gestão de risco “prudente”.
Do ponto de vista jurídico, o Banco Central tratou a saída do Voiter/Pleno do conglomerado Master como uma reorganização societária regular. Do ponto de vista político e econômico, porém, a presença de um ex-ministro diretamente envolvido com a expansão do consignado, e ligado ao partido Republicanos, no comando do novo banco reforça a percepção de que há uma continuidade de pessoas, métodos e interesses entre o “banco ruim” que afundou e o “banco bom” que tenta sobreviver.
A Fórum enviou perguntas ao Banco Pleno e a Ronaldo Vieira Bento sobre a participação do ex-ministro na gestão do banco, o histórico de relações com o Master e as operações de consignado vinculadas a servidores. Até o fechamento deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.