Reminiscências

Bares Brasil afora X – Baía da Traição etc. – Por Mouzar Benedito

Minhas passagens por Baía da Traição, Rio Tinto, Andradina e São Luiz do Paraitinga

Escrito en Opinião el
Mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).
Bares Brasil afora X – Baía da Traição etc. – Por Mouzar Benedito
Carnaval em São Luiz do Paraitinga cresceu muito nos úlitmos anos. Divulgação/Prefeitura da cidade

Baía da Traição (PB)

Em 1501, uma expedição comandada por Américo Vespúcio parou ali, perto do litoral. Viram na praia um grupo de indígenas chamando para que fossem lá. Mandaram um grupo num bote, que desembarcou na praia e... foi comido (oralmente!). Os marinheiros viraram churrasco. Por isso, Vespúcio e sua trupe deram ao lugar o nome Baía da Traição.

É um lugar bonito, até hoje quase inteiro reserva indígena dos Potiguara (comedores de camarão, em tupi – embora na época comessem gente também, re-re...).

Lá pelos anos 1990, o amigo Jô Amado, jornalista vindo da imprensa alternativa e, na época, recém-saído do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, convenceu a mulher, a Alice, a pedir demissão do Banco do Brasil e se mandarem juntos pro Nordeste, um lugar que fosse gostoso e quente (o Jô odiava o frio). Ela topou. Ah, ganhou uma graninha razoável, pois sua saída do banco foi num plano de demissão voluntária, que “premiava” quem topasse se demitir. Puseram a “mudança” num fusca e foram pelas estradas próximas ao litoral (boa parte, a BR-101), entrando em tudo quanto era estradinha que desse para cidades praianas. Onde gostassem parariam.

Uns meses depois, o ex-presidente do nosso sindicato, Robson Moreira, amigo de longa data do Jô, me telefonou:

— O Jô mandou te avisar que está morando num lugar que você não conhece.

Pois é, muita gente acha, há muito tempo, que conheço tudo quanto é lugar do Brasil, coisa logicamente infundada. Estive sim em todos os estados e até no então território de Fernando de Noronha, mas por causa dessa fama tentei me lembrar de todos os lugares que conheço e não chegam a 600, entre os 5570 municípios brasileiros.

Perguntei ao Robson que lugar era esse escolhido pelo Jô e pela Alice.

— Baía da Traição — respondeu seco.

Ri. pois eu conhecia, sim, estive lá várias vezes, a primeira em janeiro de 1977, quando era um povoado ainda não promovido a cidade, no litoral norte da Paraíba. E descrevi o lugar pro Robson, falando de um recife que parece uma estrada que passa “raspando” na ponta das Trincheiras e avança pelo mar aberto. Depois o Robson me contou que telefonou pro Jô contando isso e que nosso amigo ficou injuriado.

A Alice e o Jô abriram um bar e restaurante a beira-mar, o Sol Nascente, nome dado porque a Alice era nissei e porque o local era próximo ao ponto extremo leste do Brasil e das Américas (nisso não incluem Fernando de Noronha, que é mais ao leste ainda). Com essa notícia, fui lá encontrar os amigos, e fiquei freguês. O problema era que cobravam de mim e da minha mulher menos do que o custo do que consumíamos. Numa semana, consumimos o que avaliei em mais de mil reais na época e nos cobraram R$ 150 e não aceitaram nada mais. Não houve jeito.

E o tratamento que recebíamos, vixe!, era bom demais. Lagosta e camarão lá não tinham valor nenhum, e a Alice nos enchia disso. Parece esnobismo dizer que enjoei de lagosta numa das vezes que fomos lá. Um dia, caminhando pela cidade, vi um pé de fruta-pão, que conhecia só de fotos, mas parecia não ter nenhuma madura naqueles dias. Comentei com a Alice e no dia seguinte, no café da manhã, além de sucos de frutas, queijos, pães e outras coisas... fruta-pão! Comi com manteiga, como manda a tradição.

Outra coisa interessante era que muitos antropólogos de vários países iam à Baía da Traição para conhecer o povo Potiguara. Então, cada vez que ia lá conhecia gente interessante de países como Alemanha, Espanha e França.

Quando algum estrangeiro aparecia na cidade falando numa língua que ninguém entendia, algum morador o levava ao Sol Nascente, pois se entenderia com o Jô, que falava fluentemente francês, espanhol e inglês, e se virava em russo, japonês, alemão e italiano. Então, o Sol Nascente virava ponto deles, e conheci muitos lá.

Mas o que é bom dura pouco, no caso até que durou razoavelmente: na última vez que fui à Baía da Traição, acho que em 2000, o governo anunciava que ia asfaltar a estrada de Mamanguape para lá, passando por Rio Tinto. O pessoal festejava, mas eu não:

— No Brasil, onde chega o asfalto chega o assalto — falei.

Não deu outra. Pouco tempo depois o Jô e a Alice acordaram no meio da madrugada com mascarados apontando metralhadoras para eles. Pelo palavreado deles, parecia terem nível universitário. Levaram todo o dinheiro e todas as bebidas mais caras.

O Jô e a Alice prestaram queixa na delegacia, não me lembro se de Rio Tinto ou Mamanguape e o delegado nem ligou. Parecia cúmplice. Tinha sentido: alguns homens que se comportavam como “coroné” ali odiavam o casal, porque eram acostumados a mandar e desmandar em tudo, e no Sol Nascente não conseguiam isso. Lembro-me de uma vez que um rapaz tipo playboy filho de coroné parou a caminhonete na praia, ocupou uma mesa e gritou pro menino que trabalhava como garçom:

— Ô, macaco! Traz uma cerveja...

O jovem ficou estático, o Jô foi lá e falou:

— Ele não é macaco e não vai te servir. Nem eu nem ninguém. Você não vai ser servido aqui.

O cara foi embora xingando e ameaçando, falando o típico jargão autoritário: “Tu não sabe com quem está falando”.

Rio Tinto (PB) e Andradina (SP)

Falando da Baía da Traição eu me lembrei da primeira vez que fui lá com uns amigos e, na volta para João Pessoa, paramos num bar de Rio Tinto para beber um pouco naquele calorão. A cidade era toda com casas de tijolo aparente, como vilas operárias inglesas. Até a igreja matriz era (e é) assim. Foi fundada por herdeiros do sueco Herdman Theodor Lundgren, fundadores das Casas Pernambucanas. A Paraíba era grande produtora de algodão e eles resolveram abrir uma fábrica de tecidos ali, Compraram terras do então Engenho da Preguiça e abriram lá a Companhia de Tecidos Rio Tinto. Algumas pessoas achavam que o nome Rio Tinto seria porque a fábrica de tecidos despejava restos de tinta no rio, mas o que se sabe é que o rio que passa ali era vermelho naturalmente.

Bom, paramos num bar e bebemos, e bebemos... De repente um cara parou em frente à nossa mesa e falou olhando brabo pra mim:

— Ô, Fulano... Nós esperando você ir no banheiro pra continuar a viagem e você fica aí bebendo com esse pessoal!

Estranhei:

— Ô, cara, eu nem te conheço!

Ele ia falar qualquer coisa quando saiu do banheiro um sujeito que era meu sósia total, sem tirar nem pôr. Risadas gerais, tiramos uma foto juntos, parecendo gêmeos idênticos, mas não sei onde essa foto foi parar.

Sobre isso de sósia, aconteceu algo parecido em Andradina, extremo oeste do estado de São Paulo. Um amigo, o Mário, e eu íamos a Itapura, pequena cidade onde o Tietê deságua no rio Paraná, e paramos um dia em Andradina. À tarde, ele disse que ia comprar anzóis e não sei que mais pra gente pescar com umas amigas que nos esperavam num sítio bem na foz do Tietê, e eu fiquei num bar esperando.

Acontece que o bar era encostado na zona de prostituição, eu ocupava uma mesa sozinho e apareceu uma moça aparentando uns trinta anos, falando comigo:

— Jair... Você sumiu, por onde andou? Tô há uns dois anos sem te ver.

Pensei: é aprontação do Mário, vou dar corda.

— Cê sabe, né..., — falei. — Fui pego, passei uns tempos em cana.

Ela continuou conversando comigo como se eu fosse o tal Jair. Acabamos indo pra cama juntos, num hotelzinho ali perto. E nos despedimos combinando um encontro no dia seguinte. Voltei pro bar e o Mário estava chegando lá. Falei pra ele:

— Sabe a mulher que você mandou dar um trote em mim?

Ele me olhou meio surpreso e falei (desculpem-me o tom machista):

— Comi...

O Mário insistiu que não mandou mulher nenhuma me dar trote. E como ela não me cobrou nada pelo “programa”, achei que podia ser verdade. Recentemente me lembrei disso e pensei: “E se o tal Jair, que era caso dela, fosse um atual?”. Não. Ele não se parece nem um pouquinho comigo.

São Luiz do Paraitinga (SP)

Conheci em 1967, quando estava no primeiro ano do curso de Geografia, na USP, a cidade minúscula na época, em que nasceu o então meu professor Aziz Ab’Saber e o cientista Oswaldo Cruz. Pensei: como pode esse lugarzinho ter dado dois cientistas desse porte?

Em 1980, soube que um amigo e colega Américo Rodrigues, que chamávamos de Zé Américo, ou simplesmente Zé, tinha se mudado para uma chacrinha lá e era professor de Geografia. Passei a frequentar a cidade. O Zé se irritava com uns caras que se diziam pecuaristas e tinham um gadinho magro, porque as terras tinham sido esgotadas no ciclo do café e só davam um pasto com capim ralo. Um dia, comprou um bezerro e deu a ele o nome de Gado. Quando estávamos num bar bebendo e chegava algum desses “pecuaristas”, ele dizia, dando a impressão que tinha muitas vacas:

— Vou embora, tenho que tratar do Gado.

Mais tarde, comprou uma ovelha prenha e aconteceu algo meio raro: ela pariu gêmeos. Como acontece em casos de animais com pouco leite, sem condições de amamentar dois filhotes, ela desprezou um para que o outro sobrevivesse. A natureza tem dessas “crueldades”. O Zé adotou o outro, passou a dar mamadeira pra ele, cuidar como se fosse uma mãe... e tornou-se mesmo “mãe” do carneirinho. Onde ele ia, o danado ia atrás. Parava para beber num bar e o carneirinho deitava ao lado da mesa esperando até que fossem embora. 

Com uma belíssima arquitetura da época do Ciclo do Café, a cidade é muito religiosa, ao mesmo tempo que festiva, sempre teve muitos músicos. E teve carnaval muito animado até que, nas décadas iniciais do século XX, um padre proibiu a festa pagã e o povo acatou. A proibição continuou com os padres que se seguiram. Num bar do centro da cidade, jovens resolveram peitar o padre e festejar o carnaval de 1981. Eu estava no meio da turma. Criamos para o primeiro carnaval uma banda chamada “Peida N’Água”, que saía da chacrinha do Zé e ia até o centro da cidade. Ele e eu éramos os compositores das marchinhas da banda. Saímos alguns anos, até que o carnaval ficou grande demais pro meu gosto e parei de ir.

Bom... Contei da história do casal Alice e Jô e seu bar e restaurante Sol Nascente, na Baía da Traição. Depois do assalto que sofreram, a Alice não quis mais ficar lá de jeito nenhum, e voltaram para São Paulo, mais especificamente Taubaté. A Alice resolveu abrir lá um novo Sol Nascente. Falei:

— Em Taubaté? Por que não abrem em São Luiz do Paraitinga que é muito mais legal?

Não conheciam a cidade. Indiquei amigos que moravam lá, foram conhecer e gostaram. Abriram o restaurante revivendo o nome Sol Nascente, onde em 2003 criamos a Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci.

Uma vez, ocupava uma mesa no alpendre do Sol Nascente, no início da subida do Morro do Cruzeiro, quando apareceu indo em direção à subida o artesão e contador de causos Geraldo Tartaruga. Gritei pra ele, convidando pra beber com a gente. Ele não bebia, mas se aproximou e contou o que estava pensando:

— Eu tava lembrando... Antigamente, o diabo aparecia pros fazendeiros aqui. Agora ele não aparece mais. Tem medo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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