COP30

A Terra está farta de nós

A Terra exige reparação. Belém não é palco de conferência, é o tribunal onde a humanidade é acusada de devastação premeditada. Estes diálogos são inconvenientes, mas 100% verdadeiros.

Escrito en Opinião el
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.
A Terra está farta de nós
Cama afunda após furacão em Cuba. YAMIL LAGE/AFP

Em Belém, o planeta não veio para conversar — veio para cobrar. Entre marés cansadas e florestas mutiladas, a Terra rompeu o silêncio. A 30ª Conferência das Partes, a COP30, começou como se fosse mais um encontro, mas o que ecoa em Belém é um julgamento: o réu somos nós.

Era fim de tarde. O ar trazia o cheiro do rio e a lembrança do que fomos. Dentro da casa, o tempo parecia preso entre o antes e o nunca mais. Duas cadeiras, uma jarra d’água e a voz antiga — não maternal, mas ferida — da Terra.

— Não vim pedir nada — disse ela. — Vim avisar.

A humanidade, inquieta, desviou o olhar.
— Eu sei que exagerei, que destruí mais do que pude reparar…
— “Exagerar” é palavra leve demais — interrompeu a Terra. — Vocês me rasgaram em nome do progresso, drenaram meu sangue em nome do lucro. Chamaram de riqueza o que sempre foi ruína.

Ela respirou fundo, e o ar pareceu arder.

— As águas já estão em marcha — disse. — O mar está subindo não por vingança, mas por exaustão. Vocês ocuparam os mangues, zombaram dos alertas. Agora as marés apenas voltam ao lugar de onde nunca deveriam ter sido expulsas.
— Há vítimas, há perdas — balbuciou a humanidade.
— Há culpa — corrigiu a Terra. — E não é minha.

Do lado de fora, o sol se dissolvia num cobre amargo.

— O calor que vocês chamam de verão é febre. O planeta delira — continuou. — Queimaram minhas florestas, e o fogo não apagou: mudou de endereço. Ele agora arde dentro de vocês.
— As cidades estão insuportáveis — confessou a humanidade. — O ar pesa, o asfalto queima os pés.
— Vocês chamaram de civilização o ato de me sufocar com concreto. Construíram templos de cimento e esqueceram o que é sombra.

O vento cessou. A Terra parecia falar mais baixo, mas cada sílaba cortava.

— A seca é minha ferida aberta. Meus rios emagrecem, minhas nascentes agonizam. Vocês bebem como se não houvesse sede depois de vocês.
— Eu tento economizar — murmurou a humanidade.
— Economizar? Vocês privatizaram a água. Transformaram o milagre em produto, o ciclo em comércio. A água não falta: foi roubada.

Lá fora, o céu se armava.

— E quando chove, vocês me chamam de assassina — disse a Terra. — Mas sou só resposta. Vocês pavimentaram tudo, expulsaram as árvores, e esperam que a chuva peça licença.
— É que o conforto nos cegou — admitiu a humanidade.
— Não confundam conforto com anestesia. O cimento não respira. Vocês ergueram fortalezas contra mim e chamaram isso de proteção.

A noite desceu. O calor continuava.

— Minhas florestas estão ficando mudas — disse a Terra, com voz quase embargada. — Cada espécie que cai é uma sílaba que desaparece da linguagem da vida.
— E nós seguimos escrevendo tratados — respondeu a humanidade. — Assinamos metas, promessas, relatórios.
— Palavras que não brotam viram cinza — devolveu a Terra. — Não quero promessas, quero árvores.

Ela se inclinou, como se olhasse dentro do tempo.

— Até o relógio se perdeu — disse. — As estações se misturam, os ventos enlouquecem.
— Eu sei — respondeu a humanidade. — Não sei mais quando plantar, nem o que esperar.
— Vocês adulteraram meu pulso, e agora pedem estabilidade. Mas não existe equilíbrio no corpo de quem foi violado.

O silêncio se instalou. Apenas o som do mercado distante, o rumor das frutas, o grito de um barco no rio.

A humanidade olhou para a jarra d’água sobre a mesa — simples, transparente, cada vez mais rara.

— Ainda dá tempo? — perguntou.

A Terra hesitou.
— O tempo é o que vocês mais desperdiçaram. Mas se houver arrependimento que se transforme em ação, talvez eu ainda aceite o acordo.

— Qual acordo? — quis saber a humanidade.

— O único possível: parar de me tratar como cenário. Sou casa. E casas, quando maltratadas, desabam.

A humanidade abaixou a cabeça.
— Quero que meus filhos ainda vejam o entardecer depois da chuva — disse. — Não quero museus de lembranças; quero futuro.
— Então parem de me chamar de mãe — respondeu a Terra. — Chamem-me de vítima.

O vento entrou pela janela, desta vez áspero, denso, como aviso.

Belém respirou fundo.
E, por um instante, pareceu que o mundo inteiro percebeu — tarde demais — que não era conversa o que a Terra queria. Era justiça.

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