O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta segunda-feira (18) o líder ucraniano Volodymyr Zelenskyy na Casa Branca. Diferente da reunião de fevereiro — marcada por tensões e críticas públicas — desta vez o ambiente foi mais cordial.
A mudança ficou evidente também no figurino de Zelensky, que trocou a tradicional “farda de guerra” por um blazer preto, sem gravata, no Salão Oval. O detalhe, aparentemente trivial, trouxe forte simbolismo político. Em fevereiro, o estilo militar do ucraniano havia irritado Trump e rendido críticas em Washington, onde se esperava dele maior deferência diante da ajuda bilionária dos EUA.
Te podría interesar
De críticas a elogios
Na reunião desta segunda, Zelensky conseguiu inverter o jogo. Após um repórter comentar que ele estava “fabuloso nesse terno”, Trump completou: “Eu disse a mesma coisa”.
O republicano ainda expôs que o jornalista fora um dos críticos do traje militar em fevereiro. Constrangido, o repórter pediu desculpas, mas Zelensky devolveu com bom humor: “Você está com o mesmo terno. Eu mudei, você não”. A resposta arrancou risadas — inclusive de Trump.
Te podría interesar
O “melhor terno”
Zelensky disse que usava “o melhor terno” que tinha no armário — o mesmo já visto na cúpula da OTAN, em junho, na Holanda, e no funeral do Papa Francisco. Segundo o Axios, a Casa Branca chegou a perguntar previamente a Kiev se ele usaria traje formal, numa tentativa de evitar que a imagem de “líder em combate” voltasse a atrapalhar a reunião, como em fevereiro.
Roupas que falam
Na diplomacia, roupas não são apenas estética, mas linguagem simbólica. O que um líder veste comunica seriedade, respeito e confiança. Por isso, a vestimenta é considerada ferramenta de soft power: um gesto visual que pode influenciar e fortalecer credibilidade.
Entre identidade e pragmatismo
Ao surgir com o mesmo casaco preto da OTAN, Zelensky buscou um meio-termo: formal o bastante para agradar a Trump, mas sem abandonar sua identidade ao dispensar a gravata. Para Washington, foi um gesto diplomático.
Para Trump, que associa liderança ao uso do terno completo, a escolha foi bem recebida. Um funcionário da Casa Branca chegou a comentar que, com o blazer, Zelensky “parecia uma pessoa normal, alguém que deveria estar na OTAN”.
Trump rejeita cessar-fogo imediato
Apesar do tom amistoso, Trump deixou claro que não pretende propor um cessar-fogo imediato para encerrar a guerra. Disse preferir negociar um acordo de paz em paralelo aos combates, argumentando que uma trégua agora permitiria a reconstrução militar de ambos os lados.
Trump afirmou que cabe a Zelensky aceitar concessões e defendeu que a Crimeia siga sob controle russo, além de vetar a entrada da Ucrânia na OTAN — pontos alinhados aos interesses de Moscou.
O que Zelensky pediu
Zelensky reforçou que a segurança da Ucrânia depende de dois pilares: um exército fortalecido por armas e treinamento, e garantias internacionais de proteção oferecidas por EUA, OTAN e União Europeia. Trump chegou a sugerir uma reunião trilateral com Putin, à qual o ucraniano respondeu estar “pronto”.
Apesar do clima mais leve, as divergências permanecem. Trump insiste em posições que favorecem a Rússia, enquanto Zelensky busca garantias de soberania para seu país. Analistas veem na narrativa americana uma pressão para Kiev negociar em posição de fragilidade.
Também participaram do encontro um grupo de lideranças europeias: Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido; Emmanuel Macron, presidente da França; Friedrich Merz, chanceler da Alemanha; Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália; Alexander Stubb, presidente da Finlândia; Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia; e Mark Rutte, secretário-geral da OTAN.
A farda política de Zelensky
Desde o início da invasão russa, em 2022, Zelensky adotou uma estética militar que se tornou sua marca registrada. Em vez do terno e gravata tradicionais, passou a vestir camisetas ou moletons verde-oliva ou pretos, com o tridente ucraniano no peito, combinados a calças cargo e botas. A barba completa o visual de “líder em guerra”.
Essa escolha transformou-se em símbolo político: reforça sua imagem de comandante em resistência, mantém a guerra no foco internacional e comunica que o presidente compartilha o mesmo sacrifício dos soldados.
A cena contrasta com tradições diplomáticas. Ao discursar no Congresso dos EUA em dezembro de 2022, por exemplo, Zelensky manteve o uniforme de guerra, enquanto Winston Churchill, em plena Segunda Guerra, trocou o macacão militar por terno antes de se dirigir aos parlamentares. Zelensky fez o inverso, consolidando uma estética própria de liderança.
As marcas por trás do estilo
A M-TAC é a marca mais associada ao guarda-roupa de inspiração militar de Zelenskyy. O presidente ucraniano tem aparecido com frequência em camisetas, moletons e jaquetas da empresa, especializada em vestuário tático para militares e civis. A escolha reforça o simbolismo de “líder em guerra”, em sintonia com seus soldados.
No encontro desta segunda, porém, ele vestiu uma jaqueta em corte de terno atribuída à Damirli, marca ucraniana que mistura formalidade diplomática com simbologia bélica.
A designer Elvira Gasanova, da Damirli, em entrevista ao site Politico explicou: “Desta vez o presidente está de terno, mas o estilo permanece militar. Ele é um chefe de Estado em guerra, e cada detalhe importa — aparência, humor, emoções. Por isso, escolhe a imagem que melhor corresponde ao momento.”
O próprio Zelensky reforçou essa postura. Em 2022, disse ao Financial Times que não voltaria a usar terno e gravata nem a fazer a barba até a vitória da Ucrânia. Questionado por um repórter, respondeu: “Eu vou usar terno depois que esta guerra terminar, sim. Talvez algo como o seu, talvez algo melhor.”
Assim, o guarda-roupa de Zelensky deixou de ser apenas estilo pessoal e virou parte de sua diplomacia — um instrumento de comunicação política que tanto incomoda críticos quanto inspira aliados.