A cantora Fafá de Belém abriu a primeira reunião da 30ª Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas (COP30), nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), com uma apresentação surpresa que emocionou o público.
Mais do que um momento musical, a performance ressaltou a força simbólica da Amazônia — não apenas pela voz da artista, mas também pelo figurino carregado de significados culturais e ambientais.
Te podría interesar
Com um look inspirado nos saberes e materiais da floresta, Fafá transformou o palco em um manifesto visual sobre identidade, sustentabilidade e pertencimento amazônico, mostrando que a moda também pode ser uma forma de discurso político e ecológico.
No palco, ela dividiu os holofotes com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, em uma celebração da diversidade cultural da região.
Te podría interesar
Logo após a apresentação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou pedindo que os países presentes na conferência cumpram seus compromissos climáticos e adotem ações concretas para conter o aquecimento global, destacando a Amazônia como território essencial na luta contra as mudanças climáticas.
LEIA TAMBÉM: Lula na abertura da COP30: "É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas"; vídeo
O recado da roupa de Fafá
Durante a abertura, Fafá emocionou o público ao cantar Amazônia, de Nilson Chaves, uma canção que fala sobre o amor e a defesa da floresta. Mas não foi apenas a voz da cantora que falou — a roupa também transmitiu uma mensagem poderosa sobre cultura, espiritualidade e sustentabilidade.
Assista (a partir de 47 minutos e 22 segundos)
Em entrevista ao programa Estúdio I, da GloboNews, Fafá explicou o simbolismo do figurino que usou na COP30.
“A estampa daquele vestido são rolos de pêno, rolos de juta. Nós não vivemos sem a nossa cestaria. A nossa cestaria, a arte plumária e a arte do barro — através das urnas marajoaras e tapajônicas — são fundamentais para a sustentação de uma base da sociedade”, disse.
Os rolos de juta representados no tecido simbolizam o início do processo artesanal amazônico — o trabalho de quem transforma fibras naturais em cestos, pratos, roupas e objetos que carregam história e identidade.
“Eu escolhi os rolos de pêno porque achei tão lindo — e achei bonito vocês terem olhado pra isso.”
Os acessórios também tinham significados profundos.
“O brinco representa os olhos do guaraná — algo fundamental pra nós. A pulseira é da Bárbara Müller, feita com refugo de floresta e uma imagem de Nossa Senhora. Nada ali é extraído da natureza de forma predatória. Até a pedra do meu anel é feita com refugo de pedra descartada.”
Para Fafá, vestir-se é um ato político e ético.
“Você não pode só falar: tem que ser o que defende. Usar e defender o que acredita.”
Assista
A tríade da cultura amazônida
A fala de Fafá de Belém remete à tríade simbólica da cultura amazônida — a cestaria, a arte plumária e a arte do barro. Essas três expressões formam o coração da vida cultural e espiritual do povo da floresta.
Elas não são apenas manifestações artísticas, mas também formas de existência, que traduzem a maneira como os amazônidas se relacionam com a natureza, o trabalho e o sagrado. Juntas, representam uma economia sustentável, uma estética própria e uma filosofia de vida baseada na reciprocidade com o meio ambiente.
Cestaria – o trançado da vida cotidiana
Feita a partir de fibras naturais como palha, arumã, cipó e tucum, a cestaria vai muito além do artesanato. Ela é memória e linguagem: cada trançado expressa um modo de viver, uma técnica aprendida na observação da floresta e transmitida de geração em geração.
Os cestos, peneiras, tapetes e bolsas não servem apenas ao uso doméstico — eles materializam saberes ancestrais e simbolizam o equilíbrio entre o ser humano e o ambiente que o sustenta.
A cestaria é também um ato político de resistência, porque preserva o fazer manual em tempos de produção industrial e garante renda e autonomia a famílias ribeirinhas e indígenas que dependem dela para viver.
Arte plumária – espiritualidade em cores
A arte plumária é uma das mais antigas expressões da Amazônia. Feita com penas de araras, papagaios, gaviões e outras aves, ela dá forma a cocares, colares, mantos e adornos cerimoniais usados em rituais e celebrações.
Mas essa arte vai muito além da ornamentação: as penas têm significado espiritual profundo. Para muitos povos, cada cor e cada ave representa uma força — sabedoria, proteção, energia vital ou ligação com o sagrado.
Vestir a arte plumária é revestir-se da floresta: é trazer para o corpo a presença dos espíritos e das forças da natureza, em um gesto que mistura fé, beleza e identidade.
Arte do barro – memória e permanência
A arte do barro — ou cerâmica amazônica — é herança direta das antigas civilizações marajoara e tapajônica, que floresceram na região séculos antes da colonização.
Em suas urnas, vasos, potes e esculturas, moldadas à mão e decoradas com grafismos geométricos, vive uma narrativa de vida, morte e renascimento.
Essas peças eram usadas em rituais, sepultamentos e no cotidiano, sempre com o mesmo princípio: devolver à terra o que dela veio.
A argila, ao ser moldada e queimada, guarda o gesto humano e a marca da terra — um elo entre passado e presente, natureza e cultura.
Por isso, a cerâmica amazônica é testemunho e resistência, mantendo viva a memória das sociedades originárias da floresta.
Uma civilização ecológica
Essas três formas de arte — trançada, colorida e moldada — revelam como o povo amazônida constrói sua cultura a partir da floresta e em harmonia com ela.
A cestaria, a arte plumária e a cerâmica não são apenas expressões estéticas, mas modos de pensar e viver. Elas demonstram que é possível criar sem destruir, transformar sem explorar e celebrar a natureza sem dominá-la.
Essa tríade é o símbolo de uma civilização ecológica, onde o belo, o útil e o espiritual se entrelaçam — exatamente o que Fafá de Belém quis representar em sua roupa na abertura da COP30: uma arte que nasce da floresta e devolve à floresta o seu canto.
O olho do guaraná: o símbolo que observa a floresta
O olho do guaraná, que Fafá de Belém usou em forma de brincos durante sua apresentação na COP30, é um dos símbolos mais marcantes da Amazônia — um elo entre espiritualidade, identidade e natureza. A design responsável pela peça conta como foi feita a pesquisa.
Quando o fruto do guaraná amadurece, sua casca vermelha se abre e revela uma semente escura envolta por uma polpa branca, lembrando o formato de um olho humano.
Em tupi, a palavra waraná significa literalmente “fruta como os olhos das pessoas”, e daí nasce o nome e o mito que acompanham essa planta há séculos.
Um mito que fala de vida e renascimento
Na mitologia dos Sateré-Mawé — povo indígena que primeiro domesticou e cultivou o guaraná —, a planta nasceu dos olhos de um jovem sábio morto injustamente.
De suas lágrimas e de seu olhar brotou a semente que daria força e vitalidade ao seu povo.
Por isso, o “olho do guaraná” simboliza vida, proteção, sabedoria e resistência — um olhar que nunca se fecha sobre a floresta.
Essa narrativa é mais do que uma lenda: ela expressa a visão amazônida de continuidade entre o humano e o natural, em que cada planta e cada fruto carrega uma história, uma memória e uma energia vital.
Energia, economia e ancestralidade
Além de seu valor espiritual, o guaraná é uma planta de grande importância econômica para comunidades indígenas e ribeirinhas.
Suas sementes, ricas em cafeína natural, são usadas há séculos como fonte de energia e alimento ritualístico.
Hoje, o fruto é cultivado em larga escala em estados como o Amazonas, o Pará e a Bahia, gerando renda e autonomia para centenas de famílias.
Assim, o guaraná se tornou um símbolo duplo: ao mesmo tempo em que é força espiritual, é também sustento material — uma ponte entre o sagrado e o trabalho humano.
O olhar da floresta: moda, identidade e resistência
Ao escolher brincos em forma de olhos de guaraná, Fafá de Belém transformou um acessório em manifesto simbólico. O gesto foi uma reverência à floresta e às suas origens, um reconhecimento do olhar vigilante da Amazônia sobre o mundo.
Em um palco global como o da COP30, o “olho do guaraná” representou o olhar coletivo dos povos da floresta — atento, sábio e resistente diante das ameaças ambientais. Mais do que um detalhe estético, o adorno expressou a mensagem central da artista: a floresta vê, sente e fala através de quem a defende.
O figurino de Fafá foi mais que uma escolha visual — foi uma declaração de princípios. Ao unir arte, fé e sustentabilidade, ela traduziu na roupa o espírito da COP30: defender a floresta sendo parte dela.
Cada elemento do look — dos tecidos inspirados na juta e na cestaria aos brincos de guaraná — contou uma história sobre pertencimento e respeito à Amazônia.
Fafá mostrou que a moda também fala, e que, no coração da floresta, vestir-se pode ser um gesto de resistência, orgulho e amor pelo território.