ESTÉTICAS DA FLORESTA

COP30: o recado da roupa de Fafá de Belém

Cantora paraense abriu a conferência do clima com um look que transforma moda em discurso político e celebra a cultura amazônida

COP30: o recado da roupa de Fafá de Belém.Cantora paraense abriu a conferência do clima com um look que transforma moda em discurso político e celebra a cultura amazônidaCréditos: Agência Brasil (Bruno Perez)
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A cantora Fafá de Belém abriu a primeira reunião da 30ª Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas (COP30), nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), com uma apresentação surpresa que emocionou o público.

Mais do que um momento musical, a performance ressaltou a força simbólica da Amazônia — não apenas pela voz da artista, mas também pelo figurino carregado de significados culturais e ambientais.

Com um look inspirado nos saberes e materiais da floresta, Fafá transformou o palco em um manifesto visual sobre identidade, sustentabilidade e pertencimento amazônico, mostrando que a moda também pode ser uma forma de discurso político e ecológico.

No palco, ela dividiu os holofotes com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, em uma celebração da diversidade cultural da região.

Logo após a apresentação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou pedindo que os países presentes na conferência cumpram seus compromissos climáticos e adotem ações concretas para conter o aquecimento global, destacando a Amazônia como território essencial na luta contra as mudanças climáticas.

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O recado da roupa de Fafá

Ricardo Stuckert

Durante a abertura, Fafá emocionou o público ao cantar Amazônia, de Nilson Chaves, uma canção que fala sobre o amor e a defesa da floresta. Mas não foi apenas a voz da cantora que falou — a roupa também transmitiu uma mensagem poderosa sobre cultura, espiritualidade e sustentabilidade.

Assista (a partir de 47 minutos e 22 segundos)

Em entrevista ao programa Estúdio I, da GloboNews, Fafá explicou o simbolismo do figurino que usou na COP30.

“A estampa daquele vestido são rolos de pêno, rolos de juta. Nós não vivemos sem a nossa cestaria. A nossa cestaria, a arte plumária e a arte do barro — através das urnas marajoaras e tapajônicas — são fundamentais para a sustentação de uma base da sociedade”, disse.

Os rolos de juta representados no tecido simbolizam o início do processo artesanal amazônico — o trabalho de quem transforma fibras naturais em cestos, pratos, roupas e objetos que carregam história e identidade.

“Eu escolhi os rolos de pêno porque achei tão lindo — e achei bonito vocês terem olhado pra isso.”

Os acessórios também tinham significados profundos.

“O brinco representa os olhos do guaraná — algo fundamental pra nós. A pulseira é da Bárbara Müller, feita com refugo de floresta e uma imagem de Nossa Senhora. Nada ali é extraído da natureza de forma predatória. Até a pedra do meu anel é feita com refugo de pedra descartada.”

Para Fafá, vestir-se é um ato político e ético.

“Você não pode só falar: tem que ser o que defende. Usar e defender o que acredita.”

Assista

A tríade da cultura amazônida

A fala de Fafá de Belém remete à tríade simbólica da cultura amazônida — a cestaria, a arte plumária e a arte do barro. Essas três expressões formam o coração da vida cultural e espiritual do povo da floresta.

Elas não são apenas manifestações artísticas, mas também formas de existência, que traduzem a maneira como os amazônidas se relacionam com a natureza, o trabalho e o sagrado. Juntas, representam uma economia sustentável, uma estética própria e uma filosofia de vida baseada na reciprocidade com o meio ambiente.

Cestaria – o trançado da vida cotidiana

Feita a partir de fibras naturais como palha, arumã, cipó e tucum, a cestaria vai muito além do artesanato. Ela é memória e linguagem: cada trançado expressa um modo de viver, uma técnica aprendida na observação da floresta e transmitida de geração em geração.

Os cestos, peneiras, tapetes e bolsas não servem apenas ao uso doméstico — eles materializam saberes ancestrais e simbolizam o equilíbrio entre o ser humano e o ambiente que o sustenta.

A cestaria é também um ato político de resistência, porque preserva o fazer manual em tempos de produção industrial e garante renda e autonomia a famílias ribeirinhas e indígenas que dependem dela para viver.

Arte plumária – espiritualidade em cores

A arte plumária é uma das mais antigas expressões da Amazônia. Feita com penas de araras, papagaios, gaviões e outras aves, ela dá forma a cocares, colares, mantos e adornos cerimoniais usados em rituais e celebrações.

Mas essa arte vai muito além da ornamentação: as penas têm significado espiritual profundo. Para muitos povos, cada cor e cada ave representa uma força — sabedoria, proteção, energia vital ou ligação com o sagrado.

Vestir a arte plumária é revestir-se da floresta: é trazer para o corpo a presença dos espíritos e das forças da natureza, em um gesto que mistura fé, beleza e identidade.

Arte do barro – memória e permanência

A arte do barro — ou cerâmica amazônica — é herança direta das antigas civilizações marajoara e tapajônica, que floresceram na região séculos antes da colonização.

Em suas urnas, vasos, potes e esculturas, moldadas à mão e decoradas com grafismos geométricos, vive uma narrativa de vida, morte e renascimento.

Essas peças eram usadas em rituais, sepultamentos e no cotidiano, sempre com o mesmo princípio: devolver à terra o que dela veio.

A argila, ao ser moldada e queimada, guarda o gesto humano e a marca da terra — um elo entre passado e presente, natureza e cultura.

Por isso, a cerâmica amazônica é testemunho e resistência, mantendo viva a memória das sociedades originárias da floresta.

Uma civilização ecológica

Essas três formas de arte — trançada, colorida e moldada — revelam como o povo amazônida constrói sua cultura a partir da floresta e em harmonia com ela.

A cestaria, a arte plumária e a cerâmica não são apenas expressões estéticas, mas modos de pensar e viver. Elas demonstram que é possível criar sem destruir, transformar sem explorar e celebrar a natureza sem dominá-la.

Essa tríade é o símbolo de uma civilização ecológica, onde o belo, o útil e o espiritual se entrelaçam — exatamente o que Fafá de Belém quis representar em sua roupa na abertura da COP30: uma arte que nasce da floresta e devolve à floresta o seu canto.

O olho do guaraná: o símbolo que observa a floresta

O olho do guaraná, que Fafá de Belém usou em forma de brincos durante sua apresentação na COP30, é um dos símbolos mais marcantes da Amazônia — um elo entre espiritualidade, identidade e natureza. A design responsável pela peça conta como foi feita a pesquisa.

Quando o fruto do guaraná amadurece, sua casca vermelha se abre e revela uma semente escura envolta por uma polpa branca, lembrando o formato de um olho humano.

Em tupi, a palavra waraná significa literalmente “fruta como os olhos das pessoas”, e daí nasce o nome e o mito que acompanham essa planta há séculos.

Um mito que fala de vida e renascimento

Na mitologia dos Sateré-Mawé — povo indígena que primeiro domesticou e cultivou o guaraná —, a planta nasceu dos olhos de um jovem sábio morto injustamente.

De suas lágrimas e de seu olhar brotou a semente que daria força e vitalidade ao seu povo.

Por isso, o “olho do guaraná” simboliza vida, proteção, sabedoria e resistência — um olhar que nunca se fecha sobre a floresta.

Essa narrativa é mais do que uma lenda: ela expressa a visão amazônida de continuidade entre o humano e o natural, em que cada planta e cada fruto carrega uma história, uma memória e uma energia vital.

Energia, economia e ancestralidade

Além de seu valor espiritual, o guaraná é uma planta de grande importância econômica para comunidades indígenas e ribeirinhas.
Suas sementes, ricas em cafeína natural, são usadas há séculos como fonte de energia e alimento ritualístico.

Hoje, o fruto é cultivado em larga escala em estados como o Amazonas, o Pará e a Bahia, gerando renda e autonomia para centenas de famílias.

Assim, o guaraná se tornou um símbolo duplo: ao mesmo tempo em que é força espiritual, é também sustento material — uma ponte entre o sagrado e o trabalho humano.

O olhar da floresta: moda, identidade e resistência

Ao escolher brincos em forma de olhos de guaraná, Fafá de Belém transformou um acessório em manifesto simbólico. O gesto foi uma reverência à floresta e às suas origens, um reconhecimento do olhar vigilante da Amazônia sobre o mundo.

Em um palco global como o da COP30, o “olho do guaraná” representou o olhar coletivo dos povos da floresta — atento, sábio e resistente diante das ameaças ambientais. Mais do que um detalhe estético, o adorno expressou a mensagem central da artista: a floresta vê, sente e fala através de quem a defende.

O figurino de Fafá foi mais que uma escolha visual — foi uma declaração de princípios. Ao unir arte, fé e sustentabilidade, ela traduziu na roupa o espírito da COP30: defender a floresta sendo parte dela.

Cada elemento do look — dos tecidos inspirados na juta e na cestaria aos brincos de guaraná — contou uma história sobre pertencimento e respeito à Amazônia.

Fafá mostrou que a moda também fala, e que, no coração da floresta, vestir-se pode ser um gesto de resistência, orgulho e amor pelo território.

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