Uma espécie de árvore nativa da Mata Atlântica, a canela-preta (Ocotea catharinensis), oferece recursos valiosos e tem um papel fundamental na preservação do bem-estar da floresta.
A árvore, que é quase uma guardiã da Mata Atlântica, enfrenta risco de extinção sobretudo no estado de Santa Catarina — em que sua população foi drasticamente reduzida e já se classifica como criticamente ameaçada —, mas costumava ser uma das espécies mais comuns nas regiões Sul e Sudeste do Brasil até meados do século 20.
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A situação mudou quando a exploração madeireira, que se aproveita da madeira densa e resistente da árvore para atividade de construção (ela é material usado na marcenaria, em pisos e em químicos), iniciou um ritmo predatório e extensivo.
A Mata Atlântica, bioma mais biodiverso do mundo, com um dos maiores graus de endemismo (abriga 60% de todas as espécies terrestres do planeta), tem tido perdas extremas de sua cobertura vegetal desde, pelo menos, o século 16, com o início da colonização imperialista.
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A canela-preta cresce devagar: quando grandes números de indivíduos são removidos do solo florestal, são necessários anos para a retomada da normalidade.
Algumas espécies da família da canela-preta, Ocotea, como a O. odorifera e O. porosa, já têm um declínio populacional estimado entre 53% e 89%.
Isso preocupa, principalmente, porque a canela-preta não é só uma peça valiosa do extrativismo: ela tem papéis específicos no ecossistema do qual é endêmica, como a regulação dos níveis de umidade e do microclima florestal, que favorece, inclusive, o desenvolvimento de outras espécies menos tolerantes ao calor.
Além disso, os frutos produzidos pela canela-preta, semelhantes a pequenas azeitonas, que não têm uso nas dietas humanas, servem de alimento para a fauna local, consumidos por aves, mamíferos e insetos diversos, e regulam as cadeias alimentares.
Créditos: Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) / divulgação
A árvore ainda é conhecida por ajudar na estrutura florestal, porque estimula a regeneração natural e a conectividade entre fragmentos da floresta.
Em Santa Catarina, uma reserva biológica estadual com o nome da espécie foi criada como unidade de conservação, com 1.899 hectares, para se dedicar a proteger a espécie criticamente ameaçada. Organizações têm reintroduzido, progressivamente, mudas de espécies raras em regiões em regeneração, a fim de aumentar sua presença nas matas secundárias de que foram retiradas, como forma de enriquecimento florestal.
Um exemplo é a Grande Reserva Mata Atlântica, um mosaico de áreas protegidas de administração pública e privada entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A iniciativa reúne quase três milhões de hectares em esforços de conservação.
Na Reserva Papagaio-de-Cara-Roxa, administrada pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), em Curitiba, as plantações de canela-preta começaram no final de 2024 para restaurar a biodiversidade perdida da Mata Atlântica regional.
Hoje, os principais desafios na conservação da espécie são a falta de exemplares de grande porte (que produzem sementes viáveis), seu longo tempo de crescimento e a fragmentação dos indivíduos que permanecem, o que limita a dispersão de sementes.