Rastafari: o que é e no que acreditam os seguidores do rastafarianismo

Entenda mais das crenças e costumes dessa religião pouco conhecida mas muito estereotipada

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Historiadora e professora, formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Escreve sobre história, história politica e cultura.
Rastafari: o que é e no que acreditam os seguidores do rastafarianismo
O movimento rastafari utiliza a bandeira imperial da Etiópia como símbolo oficial. wikipédia

O movimento Rastafari surgiu na Jamaica na década de 1930, em um contexto de forte opressão social, legado colonial britânico e desigualdade econômica. Sua formação está ligada diretamente às ideias do líder jamaicano Marcus Garvey, que defendia o orgulho negro, o retorno simbólico ou literal à África e a valorização da herança africana. Embora Garvey não tenha fundado o movimento, seus discursos nacionalistas e pan-africanistas serviram como base para sua construção ideológica.

A coroação de Haile Selassie I como imperador da Etiópia, em 1930, foi interpretada por vários seguidores de Garvey como a realização de uma profecia. Para os primeiros rastafáris, Selassie representava o retorno de um messias negro e a restauração espiritual do povo africano na diáspora. Esse entendimento consolidou o movimento como uma religião distinta, com teologia e cosmologia próprias.

Imperador Haile Selassie
(foto: wikipédia)
 

Concepções teológicas, espirituais e costumes

Os rastafáris veem Haile Selassie como uma figura divina, frequentemente entendida como a encarnação de Jah, termo que representa Deus. A ideia central é que Jah reside tanto no indivíduo quanto na coletividade negra, reforçando a noção de dignidade, autoestima e empoderamento das populações africanas e afrodescendentes.

O movimento também valoriza a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, reinterpretado a partir da experiência africana e caribenha. A Etiópia é entendida como uma terra sagrada, símbolo da resistência negra e da divindade. O “retorno à África” pode ser literal, mas também espiritual, significando a reconexão com identidades e raízes ancestrais.

Embora a religião seja amplamente estereotipada pelo uso da maconha (ganja), os rastafáris não a utilizam de modo recreativo. Para muitos grupos, ela é considerada um sacramento, um meio de purificação espiritual e de conexão com Jah durante rituais, meditações e “reasonings” (diálogos filosóficos). Seu uso não é universal, e parte dos rastafáris não faz uso da substância.

Natureza e alimentação

O Rastafari também incorpora um estilo de vida naturalista. Muitos adeptos seguem dietas chamadas “ital”, que buscam evitar alimentos processados, excesso de sal, carne e produtos industrializados. A ideia de pureza física está associada à pureza espiritual.

Estética e os dreadlocks

Os dreadlocks têm forte simbolismo religioso. Inspirados no voto bíblico de Nazireu, representam força espiritual, ruptura com padrões estéticos coloniais e conexão com a ancestralidade africana. Eles também podem simbolizar a “leoa de Judah”, associada a Haile Selassie.

Música, cultura e expressão

A música desempenha papel crucial na prática rastafári. Cânticos nyabinghi, tambores cerimoniais e posteriormente o reggae tornaram-se meios de expressão espiritual e política. O reggae, especialmente por meio de artistas como Bob Marley, projetou o movimento ao cenário global, embora nem toda a música reggae seja rastafári.

Bob Marley, o rasta mais famoso
(foto: wikipédia)

O movimento não possui uma hierarquia centralizada ou clero formal. Existem diferentes “mansões” ou tradições internas, como os Nyabinghi, os Bobo Ashanti e os Twelve Tribes of Israel, cada uma com interpretações específicas, mas compartilhando a reverência a Haile Selassie e os valores fundamentais do movimento.

A comunidade rastafári enfatiza solidariedade, consciência racial, crítica ao colonialismo, ao capitalismo predatório e às estruturas opressoras que chamam de “Babilônia”. Para os adeptos, viver de modo autêntico e moralmente íntegro é uma forma de resistência.

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