A COP30 começou nesta segunda-feira (10), em Belém (PA), e trouxe para o debate um tema decisivo: como restaurar o planeta que nos alimenta.
Diante da degradação do solo e do avanço da desertificação, o Brasil lançou oficialmente a iniciativa RAIZ – Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Líquida Zero da Terra, uma plataforma internacional que pretende recuperar áreas agrícolas degradadas e mobilizar recursos financeiros e tecnológicos em escala global.
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O programa é coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), em parceria com os ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e da Pesca e Aquicultura (MPA), além da FAO, agência da ONU voltada para alimentação e agricultura.
Segundo estimativas da ONU, cerca de 2 bilhões de hectares de terras já estão degradados no planeta, afetando 3,2 bilhões de pessoas. A cada ano, 10 milhões de hectares de florestas desaparecem — e apenas em 2024 foram perdidos 6,7 milhões de hectares de florestas tropicais primárias, de acordo com o Global Forest Watch.
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O RAIZ surge como resposta à urgência climática e alimentar mundial, propondo um novo pacto global baseado em cooperação, inovação e sustentabilidade.
Brasil propõe um pacto global pela restauração
A iniciativa brasileira busca articular governos, investidores, produtores e instituições multilaterais em torno de um mutirão internacional de restauração ecológica, unindo produtividade agrícola, preservação ambiental e inclusão social.
O projeto prevê o uso de financiamento híbrido (blended finance), combinando recursos públicos, privados e filantrópicos, e priorizando regiões com alto potencial de recuperação e impacto social.
Atualmente, estima-se que restaurar as terras degradadas do planeta exigiria US$ 300 bilhões por ano, mas o investimento global não passa de US$ 65 bilhões. O Brasil pretende dar o exemplo com o Programa Caminho Verde, que prevê restaurar 40 milhões de hectares e já opera com o fundo EcoInvest, modelo que mistura capital público e privado.
Lições da China: 40 anos de políticas ecológicas
A China é hoje referência mundial em restauração ecológica em larga escala. O país se comprometeu a restaurar 30% de seus ecossistemas degradados até 2030 e a consolidar, até 2035, um plano nacional de recuperação que abrange florestas, pastagens, zonas úmidas, áreas costeiras e ecossistemas urbanos.
A política ambiental chinesa começou a se estruturar nos anos 1970, quando tempestades de areia, enchentes e erosão se tornaram gatilhos para uma nova visão de desenvolvimento sustentável. Foi nesse contexto que nasceram os primeiros grandes programas de restauração, entre eles a Grande Muralha Verde da China, um dos maiores projetos ambientais da história moderna.
A Grande Muralha Verde: a barreira ecológica do norte
A Grande Muralha Verde da China — oficialmente chamada de Programa Florestal de Abrigo dos Três Nortes (Three-North Shelter Forest Program) — foi lançada em 1978 com o objetivo de conter o avanço dos desertos e reduzir as tempestades de areia que atingiam o norte do país.
O nome faz referência às três grandes regiões abrangidas — Nordeste, Norte e Noroeste da China — e à analogia com a Grande Muralha da China, símbolo histórico de defesa do território. Hoje, essa nova “muralha verde” cumpre um papel diferente: formar uma barreira ecológica capaz de proteger cidades, solos e comunidades rurais contra o avanço da desertificação e as tempestades de areia.
O projeto tem duração prevista de mais de 70 anos (1978–2050) e prevê a criação de uma faixa contínua de florestas e cinturões verdes que se estende por cerca de 4.500 quilômetros, do deserto de Gobi até o planalto de Loess.
Atualmente, a iniciativa cobre cerca de 42% do território chinês e foi decisiva para elevar a cobertura florestal nacional, que saltou de 12% nos anos 1980 para mais de 23%. É considerada a maior intervenção ecológica humana já realizada.
A “muralha verde” reduziu em até 30% a frequência das tempestades de areia em regiões como Pequim e Mongólia Interior, além de recuperar milhões de hectares de solo degradado.
Contudo, o programa enfrentou problemas em suas primeiras fases, marcadas pelo plantio de monoculturas e espécies exóticas em áreas áridas — o que resultou em baixas taxas de sobrevivência das árvores. Diante disso, o governo reformulou o projeto, priorizando espécies nativas, reflorestamento natural e manejo sustentável da água.
Hoje, a Grande Muralha Verde é vista como símbolo da “civilização ecológica” — conceito central da política ambiental chinesa, que busca conciliar crescimento econômico, segurança climática e conservação da natureza.
Outro marco importante é o programa Grãos por Verde (Grain for Green), criado após as enchentes devastadoras do rio Yangtzé, em 1998, que deixaram mais de 3 mil mortos e 200 milhões de desabrigados. A iniciativa converteu plantações em encostas íngremes em florestas e pastagens, reduzindo a erosão do solo e restaurando ecossistemas degradados.
Planejamento ecológico para o século 21
Nas últimas décadas, a China deixou de reagir a desastres e passou a planejar ecossistemas de forma integrada. O Plano Diretor dos Grandes Projetos Nacionais de Proteção e Restauração de Ecossistemas Essenciais (2021–2035) define as bases dessa nova etapa.
O documento prevê ações estratégicas de restauração em regiões-chave — como o planalto do Tibete, os rios Amarelo e Yangtzé, as zonas áridas do norte e o cinturão florestal do nordeste —, formando uma rede ecológica nacional conectada e resiliente.
Esse plano está inserido na Estratégia Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas 2035, que coloca a civilização ecológica no centro da política nacional. A ideia é clara: prosperidade econômica e equilíbrio ambiental não são opostos, mas partes do mesmo caminho para garantir o futuro do planeta.
Financiamento bilionário e inovação verde
Entre 2011 e 2020, a China investiu cerca de US$ 175 bilhões em restauração ecológica — valor superior ao destinado à conservação ambiental. O governo central responde por 95% dos investimentos, mas empresas e plataformas digitais também têm papel crescente.
O exemplo mais conhecido é o Ant Forest, da Alibaba, que transforma ações sustentáveis de usuários — como economizar energia ou reciclar — em plantio real de árvores. A iniciativa já plantou mais de 122 milhões de árvores, cobrindo 120 km² de áreas degradadas.
O país também investe em tecnologias de sensoriamento remoto, big data e inteligência artificial para monitorar ecossistemas e prever desastres naturais, criando um sistema integrado “terra–mar–ar–espaço” de observação climática.
Por isso, o Plano Diretor dos Grandes Projetos Nacionais de Proteção e Restauração de Ecossistemas Essenciais (2021–2035) enfatiza a gestão adaptativa, o monitoramento comunitário e o uso de novos instrumentos financeiros, como créditos ecológicos e incentivos fiscais verdes.
Com 18% do território protegido e 150 mil km² de mares sob “linhas vermelhas ecológicas”, a China demonstra que é possível crescer economicamente enquanto restaura a natureza.
Uma agenda comum para o futuro
Brasil e China seguem caminhos distintos, mas convergentes. Enquanto Pequim consolida décadas de experiência em reflorestamento e gestão de ecossistemas, o Brasil, com a RAIZ, propõe uma aliança global pela recuperação da terra e pela segurança alimentar.
Ambas as iniciativas partem de uma mesma convicção: o equilíbrio entre o ser humano e a natureza será o eixo central do desenvolvimento no século 21.