ESCALADA

Maior navio de guerra dos EUA entra em águas da América Latina e aumenta tensão com a Venezuela

Porta-aviões USS Gerald R. Ford simboliza a escalada de Donald Trump na região e desperta lembranças da invasão do Panamá e do intervencionismo de Washington

Maior navio de guerra dos EUA entra em águas da América Latina e aumenta tensão com a Venezuela.Porta-aviões USS Gerald R. Ford simboliza a escalada de Donald Trump na região e desperta lembranças da invasão do Panamá e do intervencionismo de WashingtonCréditos: Marinha dos EUA
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O governo de Donald Trump enviou para o mar do Caribe o USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo e o mais moderno da Marinha dos Estados Unidos. A embarcação entrou na área do Comando Sul dos EUA, que cobre toda a América Latina e o Caribe, e chega em um momento de forte tensão com a Venezuela.

Segundo o Pentágono, o porta-aviões está acompanhado de outros navios de guerra, aeronaves e destróieres, formando o maior grupo militar estadunidense na região desde a invasão do Panamá, em 1989.

Disputa de força com Caracas

O presidente venezuelano Nicolás Maduro reagiu ao anúncio e disse que o país fará um “grande movimento militar” com tropas terrestres, navais, aéreas e até milícias civis. Segundo ele, a presença dos EUA perto da costa venezuelana representa “a maior ameaça que o continente enfrenta em 100 anos”.

Para analistas internacionais, o avanço militar é interpretado como uma pressão política para desestabilizar o governo Maduro, que Washington considera ilegítimo após as últimas eleições.

Trump fala em “guerra às drogas”

Trump justificou o envio do porta-aviões dizendo que a operação faz parte de sua “guerra às drogas”, supostamente voltada ao combate ao tráfico nas águas do Caribe e do Pacífico.

A ofensiva, no entanto, já resultou em ataques aéreos a embarcações civis, com pelo menos 76 mortos desde setembro, segundo registros da imprensa internacional.

O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, declarou que o USS Gerald R. Ford — com mais de 4 mil marinheiros e dezenas de aviões — reforçará a capacidade dos EUA de “detectar e interromper atividades ilícitas” e “enfraquecer o narcotráfico internacional”.

Reação da América Latina

Durante a 4ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e da União Europeia, realizada em Santa Marta, Colômbia, no dia 9 de novembro, os líderes dos dois blocos aprovaram uma declaração conjunta reafirmando o compromisso com o direito internacional, o multilateralismo e a não utilização da força em conflitos.

“Rejeitamos o uso ou a ameaça do uso da força e qualquer ação que não esteja em conformidade com o direito internacional e com a Carta das Nações Unidas”, afirma o texto, publicado pelo Conselho da União Europeia.

O documento foi assinado por 58 dos 60 países participantes da cúpula — entre eles, os 33 Estados-membros da CELAC e 27 países da União Europeia. Embora não cite diretamente os Estados Unidos, a declaração é amplamente interpretada como uma resposta diplomática à escalada militar norte-americana no Caribe, que envolve o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford para águas próximas à Venezuela.

As únicas exceções entre os signatários foram Venezuela e Nicarágua, que se recusaram a endossar o texto. Ambos os governos consideraram a declaração branda demais, cobrando uma posição mais firme de condenação a Washington.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que tem buscado manter um diálogo pragmático com Trump sobre comércio e redução de tarifas, também evitou adotar um tom de confronto direto.

“Somos uma zona de paz. Não precisamos de guerra aqui. O problema na Venezuela é político e deve ser resolvido com política”, afirmou Lula durante o encontro.

A chegada do porta-aviões USS Gerald R. Ford ao Caribe é vista por analistas como um recado de força dos Estados Unidos na região, reacendendo lembranças da invasão do Panamá, em 1989, último grande episódio de intervenção militar de Washington na América Latina.

Entenda o contexto da ameaça

Um relatório do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social — Carta Semanal nº 45, publicada no último dia 6 de novembro— alerta para o risco de intervenção militar dos EUA e analisa possíveis cenários de ação contra a Venezuela.

O documento, elaborado em parceria com organizações como Alba Movimentos, Assembleia Internacional dos Povos e o Instituto Simón Bolívar, afirma que o Pentágono tem ressuscitado a retórica da “Guerra às Drogas” para justificar um cerco militar e político semelhante às operações de desestabilização da Guerra Fria.

Entre as medidas recentes, Washington reclassificou grupos venezuelanos como “organizações terroristas”, como o Tren de Aragua e o Cartel de los Soles, sem apresentar provas de atuação transnacional.

Mesmo assim, Trump ofereceu uma recompensa recorde de US$ 50 milhões pela captura de Maduro — a maior já feita no programa de recompensas do Departamento de Estado.

O relatório também destaca o papel da oposição venezuelana, citando María Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2025 com apoio de parlamentares cubano-americanos e da Fundação Inspire America, sediada em Miami. Para o Tricontinental, a premiação teria funcionado como parte de uma estratégia para legitimar uma mudança de regime.

Cenários e resistência

De acordo com o documento, os EUA vêm intensificando operações militares desde agosto: bombardeios a embarcações civis, sobrevoos de bombardeiros B-52 sobre Caracas e o deslocamento de tropas e submarinos nucleares para o sul do Caribe.

O relatório identifica cinco possíveis cenários de ação estadunidense:

  • “Opção Brasil 1964” – apoio a um golpe militar interno;
     
  • “Opção Panamá 1989” – ataque aéreo e captura de líderes políticos;
     
  • “Opção Iraque” – bombardeios em larga escala para desmoralizar o governo;
     
  • “Opção Golfo de Tonkin” – criação de um falso pretexto de guerra;
     
  • “Opção Qasem Soleimani” – assassinato de líderes bolivarianos via drones.

Diante da ameaça, Caracas mobilizou forças armadas e milícias populares e iniciou o Método Tático de Resistência Revolucionária (MTRR), inspirado nas táticas do general vietnamita Võ Nguyên Giáp, símbolo da guerra do Vietnã.

O Instituto Tricontinental alerta que China e Rússia dificilmente permaneceriam inertes em caso de agressão militar, podendo recorrer ao Conselho de Segurança da ONU.

“A esperança não basta. É preciso ampliar o campo da paz”, conclui o texto, assinado por Vijay Prashad, diretor do instituto.

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