A 21ª Mostra Internacional do Cinema Negro (MICINE), com o tema “Cinema Negro e a Contemporaneidade Inclusiva”, chega a São Paulo reafirmando seu compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira e das minorias étnicas. Mais do que um festival de cinema, o evento se consolida como um espaço de reflexão sobre o tempo presente e o papel do audiovisual na construção de uma sociedade inclusiva, diversa e livre de estereótipos.
A curadoria é assinada pelo Prof. Dr. Liv. Doc. Celso Luiz Prudente, que propõe compreender o contemporâneo não como um recorte temporal, mas como um processo dinâmico, um entrelaçamento entre passado, presente e futuro. Em sua concepção, a contemporaneidade só se realiza quando é inclusiva, e o cinema negro ocupa papel central nessa construção.
“O cinema negro é a filmografia do afrodescendente enquanto maioria minorizada, e das minorias como um todo, tornando-os sujeitos do exercício autoral que rompe com a tentativa de subordinação”, afirma Prudente.
Essa subordinação, segundo o curador, está historicamente ligada à hegemonia imagética eurocêntrica e ao mito da superioridade racial, reproduzidos pela indústria hollywoodiana. A MICINE busca confrontar esse anacronismo excludente, promovendo uma nova estética de dignidade da imagem, base para o que Prudente chama de democratização cultural ancorada no respeito à diversidade. Essa perspectiva se torna o eixo da mostra, entendida como um gesto político, artístico e pedagógico de afirmação da alteridade e construção da cultura de paz.
De 20 de novembro a 22 de dezembro, a MICINE ocupará diferentes espaços culturais de São Paulo, como o Centro Cultural Fiesp, o Reag Belas Artes, o MIS-SP, a Faculdade SESI de Educação e a Diversitas/USP. A programação inclui exibições de filmes, lançamentos de livros, debates, rodas de conversa e aulas abertas, reunindo obras e artistas que ampliam o debate sobre identidade, ancestralidade e representatividade.
Entre os títulos selecionados estão 1798: Revolta dos Búzios, de Antonio Olavo; O Trem do Soul, de Clementino Junior; Virgem Margarida, de Licínio Azevedo; Maria Luiza do Quilombo Boca da Mata, de Hilton Pereira da Silva; e curtas como Cabo Verde: Um Sonho Possível, dirigido por Celso Luiz Prudente.
A mostra contará com dois momentos especiais que marcam o início da programação. No dia 25 de novembro acontece a Festa de Abertura das Exibições de Filmes, com o Festival de Pipoca, Refrigerante e Água, um gesto simbólico que reforça o caráter popular e inclusivo do evento. Já no dia 26 de novembro será realizada uma cerimônia solene com a presença do curador Celso Luiz Prudente e do Prof. Dr. João Alegria, da PUC-Rio e da Fundação Roberto Marinho.
Realizada pelo SESI e FIESP, a Mostra Internacional do Cinema Negro se afirma como um projeto de educação das relações étnico-raciais e um ato de resistência simbólica contra a fragmentação dos traços epistêmicos afrodescendentes. Ao unir cinema, filosofia e inclusão, a MICINE propõe um olhar crítico e poético sobre o nosso tempo, um convite à escuta, ao diálogo e à reconfiguração das imagens que moldam o imaginário coletivo.