TRADIÇÃO

Ogum: história, culto, cultura e o que significa a saudação “Ogunhê"

Como o Orixá atravessou séculos, estruturou práticas religiosas e mantém viva a saudação que celebra sua permanência

Representação de Ogum com suas ferramentas; o ferro marca sua atuação como mestre da tecnologia.Créditos: Reprodução
Escrito en CULTURA el

Presença central no Candomblé, na Umbanda e na cultura afro-brasileira, Ogum é reconhecido como o orixá do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Nos estudos sobre tradição iorubana e religiões de matriz africana, sua figura emerge como um herói civilizador, aquele que inaugura ferramentas, técnicas e modos de vida que transformaram a experiência humana.

Ogum é apresentado como a divindade que inaugura a era do ferro entre os humanos. É ele quem “dá aos homens o segredo do ferro, cria a forja e fabrica os primeiros instrumentos agrícolas” , abrindo caminho para o avanço das técnicas de cultivo e para o aumento da produção de alimentos. A influência do orixá também aparece na caça, pois é Ogum que ensina Oxóssi, conforme a pesquisa registra, “Oxóssi aprende com Ogum a arte da caça” 

Rei de Irê e figura política entre os orixás

Estudos etnográficos indicam que nas tradições iorubás Ogum também aparece como figura de autoridade política. No estudo Dos Terreiros de Candomblé, é citado como rei de Irê, lembrado como um ancestral que inaugura linhagens e estrutura a vida comunitária (p. 5). Outras versões reforçam esse papel, mas revelam contradições importantes. Entre elas, a de que Ogum recusa a coroa de Ifé, centro religioso e político da região iorubá, e em outra narrativa tem o trono assumido por Xangô, que conquista a simpatia do povo, segundo estudos. .

Pesquisadores apontam que essas histórias refletem dinâmicas reais da África Ocidental, marcada por disputas territoriais, mudanças de liderança e conflitos entre reinos, processos que ganham forma simbólica nos mitos dos orixás.

Tecnologia, guerra e transformação material

Nos estudos sobre a tradição iorubana, o ferro é apresentado como o elemento que sustenta a centralidade de Ogum. Mais que uma matéria-prima, ele simboliza uma tecnologia capaz de reorganizar a vida social. Ao introduzir a forja, o orixá inaugura um conjunto de mudanças que afetam o território, a produção de alimentos e as dinâmicas de poder.

Esse domínio técnico permitiu a fabricação de armas de guerra, a ampliação da conquista de bens e o controle de trabalhadores, o que resume o impacto político e militar que o ferro exerceu sobre os reinos da África Ocidental. Nos mitos, é Ogum quem entrega essa tecnologia aos humanos e inaugura um novo ciclo de organização social.

Relações, conflitos e afetos 

Os estudos destacam que Ogum aparece envolvido em dramas que expressam alianças, conflitos e rupturas:

  • Iansã sopra a forja de Ogum, criando vento e tempestade, mas depois se alia a Xangô contra ele.
  • Iemanjá, sua esposa em certos mitos, o engana e o trai.
  • Obá é descrita como sendo “possuída” por Ogum.
  • Oxum Ayalá é chamada de “a avó que foi mulher de Ogum”.
  • Há versões em que Ogum rompe tabus familiares (Aquarelas, p. 13)

Essas tensões não buscam coerência moral, mas representam a plasticidade e a complexidade das tradições orais africanas.

Diversidade das qualidades de Ogum

Nos estudos sobre tradição iorubá", a multiplicidade de Ogum é apresentada como uma das marcas mais fortes do orixá.Sendo assim, cada manifestação corresponde a um aspecto simbólico, territorial ou ritual da divindade. Por isso, dizem que existem muitos Oguns, mas todos são um só, atravessando diferentes estados e qualidades. 

Essa diversidade aparece de forma mais estruturada no Candomblé da Bahia, onde se falam tradicionalmente nos sete Oguns e cada é associado a um caminho, um tipo de trabalho e um conjunto de símbolos. Embora haja variações entre casas e nações (Ketu, Angola, Jeje), as qualidades mais citadas incluem:

1) Ogum Meje / Ogum Méjì

Ligado ao movimento, às estradas e ao combate direto. É visto como o Ogum mais próximo da ideia de “guerreiro”.

2) Ogum Beira-Mar

Associa Ogum às águas salgadas, aos portos e ao trabalho ligado ao mar. É comum em terreiros do litoral.

3) Ogum Rompe-Mato

Relacionado ao desbravamento de matas e caminhos fechados. Atua simbolicamente na abertura de trilhas e na superação de obstáculos.

4) Ogum Megê

Presente nas encruzilhadas, ligado ao cemitério e a demandas mais densas. Tem relação estreita com Exu em certas tradições.

5) Ogum Xoroquê

Considerado uma qualidade liminar, que transita entre Ogum e Exu. Está associado a fronteiras, batalhas e mudanças bruscas.

6) Ogum Alafegue / Alafegbê

O Ogum diplomata, mais ligado à organização, à ordem e ao exercício de autoridade política.

7) Ogum Onirê

Rei de Irê, ligado à realeza e à fundação de cidades. Representa o Ogum estrategista, que organiza territórios.

Por que existem vários Oguns?

Os estudos explicam que essas qualidades não são “vários deuses”, mas diferentes modos de atuação de uma mesma força ancestral. Essa multiplicidade é resultado de:

  • diferenças regionais entre povos iorubás,
  • tradições trazidas por africanos de distintos portos e etnias,
  • processos de recombinação cultural durante a diáspora,
  • organização interna dos terreiros, que mantêm linhagens próprias.

Assim, cada Ogum atua num território simbólico: estrada, mar, mata, cemitério, palácio, guerra. Juntos, formam um conjunto de “estados” da mesma divindade, e ajudam a explicar por que Ogum é visto como um orixá de movimento, múltiplas funções e grande complexidade.

Ogum nos terreiros: rituais, culto e presença contemporânea

No Candomblé

Ogum é um dos orixás mais antigos e importantes. Entre suas características litúrgicas:

  • Representa o ferro, o trabalho e a guerra.
  • Suas danças evocam movimentos de corte, golpes e avanços.
  • Suas oferendas incluem inhame, feijoada e bebidas alcoólicas.
  • Recebe ferramentas de metal e símbolos de abertura de caminho.

Estudos culturais mostram que Ogum inspira inclusive obras contemporâneas, como a Trilogia EXERCITO.Ogum, que utiliza ferro, corda, terra preta e objetos rituais.

Na Umbanda

Na Umbanda, Ogum assume um papel militar e protetor:

  • É chefe de falanges espirituais.
  • Atende demandas de abertura de caminhos e defesa.
  • É sincretizado, em muitos terreiros, com São Jorge.
  • Sua bebida ritual é muitas vezes a cerveja branca.
  • Seus pontos cantados exaltam coragem, movimento e luta.

Cores, símbolos e elementos de Ogum

As cores mais associadas ao orixá são:

  • Azul-escuro
  • Vermelho
  • Verde
  • Preto (dependendo da qualidade)

Seus símbolos incluem:

  • Espada, facão, lança, foice e enxada
  • Ferro e ferramentas
  • Estradas, caminhos e trilhas abertas
  • Mangue, mata baixa e pedreiras

Dia de Ogum

No Brasil, Ogum é celebrado em:

  • 23 de abril, data associada também a São Jorge
  • Terças-feiras, seu dia da semana no Candomblé e na Umbanda

Características dos filhos de Ogum

Segundo tradições e estudos de campo, os filhos de Ogum costumam ser descritos como:

  • Intensos, diretos e objetivos
  • Com espírito de liderança
  • Atraídos por desafios e movimento
  • De personalidade forte e pouco tolerantes a injustiças
  • Habilidosos com tecnologia, ferramentas e soluções práticas
  • Propensos a caminhos de luta e conquistas
  • Nos terreiros, diz-se que os filhos de Ogum “não fogem de demanda”.

A origem de Ògún yè e Patakori: o significado de dizer “Ogunhê”

A saudação mais conhecida dirigida a Ogum é “Ogunhê!”, e tem origem na expressão iorubá Ògún yè, que significa “Ogum vive”. A expressão aparece no odù Iwori Méjì, que narra a volta de Ogum após uma batalha. Cansado, sujo e quase irreconhecível, ele retorna acompanhado de seus cativos. Para que o guerreiro fosse visto com a dignidade que lhe era devida, Iwori coloca penas vermelhas de àlùkò em sua cabeça e pede que todos fechem os olhos. Quando os abre novamente, o grupo o vê renovado, altivo, vivo.

É nesse momento que os presentes exclamam: “Ògún yè! Ogum vive!”. O verbo yè significa tanto viver quanto sobreviver, ideia que aparece em expressões usadas nos terreiros, como “Ògún yè! Mo yè!”, Ogum vive, eu vivo; Ogum sobrevive, eu também sobrevivo.

O que significa Patakori

Outro termo frequentemente associado a Ogum é Pàtàkòrí, muitas vezes interpretado de forma equivocada. De acordo com o Eduka Iorubá, a expressão é formada por duas palavras:

  • pàtàkì -  importante, digno
  • orí -  cabeça, liderança

Juntas, formam a ideia de “a cabeça importante”, ou seja, o líder, o chefe nobre e digno.

Por isso, quando devotos dizem: “Ògún yè! Pàtàkòrí!”, estão afirmando:“Ogum vive, o chefe importante, o digno, o nobre.”

É uma saudação que reconhece a liderança do orixá e reafirma sua vitalidade e capacidade de conduzir batalhas, tanto as míticas quanto as da vida cotidiana.

Fontes de consulta

1) Albuquerque, Cleidi.

ALBUQUERQUE, Cleidi. Aquarelas. Cadernos NAUI – Revista de Antropologia e Arqueologia, Universidade Federal do Paraná, s.d. (Arquivo: Aquarelas Cleidi Albuquerque.pdf).

2) Andrade, Marcos.

ANDRADE, Marcos. Auto dos Orixás e espetacularidade. 2025.

3) Andrade, Marcos et al.

ANDRADE, Marcos Roselis de Sousa; WEYL, Francisco; ALMEIDA, Ana Catarina Moreira Pinto da Fonseca. A Arte de Saudar Ogum. In: Revista Sentidos da Cultura, Universidade Federal do Pará, 2020. p. 58–79. (Arquivo: A arte de saudar Ogum p-58-79).

4) Oliveira, Gerente da Revista (Org.).

OLIVEIRA, Dos terreiros de candomblé. s.d. 

5) Eduka Iorubá - Olùkó Vander. VANDER, Olùkó. A Origem da Saudação Ògún yè e Pàtàkòrí. Disponível em: edukaioruba.com.

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