Filho – e aprendiz – de padeiro, o jovem Fritz Eberle se aventura no violoncelo, aluno em uma escola em que os professores sabem quase tão pouco quanto seus alunos. Num dia de apresentação de parte da turma, os pais de Eberle – mais a mãe que o pai, homem rude – se encantam com o filho. Desse encanto nasce o sonho totalmente equivocado do rapaz de tornar-se músico profissional. Mais: de tornar-se cellista da orquestra da cidade. Esse sonho torna-se obsessão, e essa obsessão tem o poder – truculento – de colocar em risco a vida do vocacionado cellista titular da orquestra em jogo, o judeu Erich Krakau. Estamos nos primeiros anos da década de 1930, Hitler já havia se tornado chanceler da Alemanha, e o antissemitismo vem tomando a forma de um monstro que espalha seus tantos tentáculos por toda a Europa.
A Shoá conseguiu a proeza de produzir (boa) literatura em três tempos: antes, durante e depois de si mesma. “O diário de Anne Frank” é o mais famoso exemplo do segundo tempo. O terceiro tempo pode ser representado por inúmeros livros de memórias escritos por judeus sobreviventes dos campos de concentração, além de livros escritos por historiadores que nasceram décadas depois de 1945. O livro do alemão Karl Alfred Loeser (1909-1999) ocupa um lugar especial no primeiro desses três tempos, e por mais de uma razão.
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Os manuscritos de “Réquiem” foram encontrados apenas depois da morte do autor, mas seu primeiro editor, Peter Graf, especialista em livros esquecidos (faz parte de seu catálogo o romance “O passageiro”, de Ulrich Alexander Boschwitz, livro publicado somente 80 anos depois de escrito), acredita que Loeser tenha escrito seu formidável romance em 1938, já em terras brasileiras. Mais ou menos como o Doutor Spitzer, um dos personagens de “Réquiem”, Loeser e sua esposa, Helene, fugiram da Europa em 1934, com destino a América Latina. Mas antes passaram uma temporada na Holanda – exatamente como o supracitado Doutor. Uma vez no Brasil, Loeser tentou se estabelecer no Rio de Janeiro, mas sem conseguir trabalho, acabou se instalando definitivamente em São Paulo, onde trabalhou em um banco holandês. Loeser tocava violino em uma orquestra amadora e escrevia histórias, jamais publicadas até então.
Fritz Eberle é um pária: inábil para tudo, é frequentemente ridicularizado por seus pares na escola. Mas com o advento do Terceiro Reich, a mediocridade e seus sentimentos e aspirações mais reprováveis ganham legitimação, afinal, se um pintor frustrado pode tomar o poder de um dos países mais evoluídos do mundo, por que um músico sem talento não pode fazer parte de uma orquestra municipal?
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Eberle encontra em um jornalista sem caráter e mercenário, Wendt, o veículo para fazer seu nome chegar ao regente da orquestra. Wendt, por uma boa quantia em dinheiro, aceita levar até Jung um bilhete acintoso escrito pelo jovem Eberle, em que pede o cargo de Krakau. E dá uma carteirada: pede uma audição, com o argumento de que os combatentes da causa nacional devem ter prioridade. Segue abaixo trecho final do bilhete:
“Meu professor, Arthur Eberle, é líder da Estandarte 101, associada à SA, o que, acredito, deve já dizer o suficiente. Pelos motivos elencados, posso ter esperanças de receber em breve uma resposta satisfatória”.
Jung mostra o bilhete a Krakau, um homem generoso, e dele ouve: – faremos a audição.
Loeser cria subtramas que adensam a história, engrossam o caldo, tornando o relato mais complexo, mais rico, substancioso. É numa dessas subtramas que conhecemos Spitzer, médico com carreira consolidada na Alemanha, que, mais precavido, decide fugir quanto antes de seu país, em função do crescimento do antissemitismo. Enquanto isso, somos apresentados a uma personagem que será definitiva na parte final do romance: Lisa, paciente de Spitzer, a mulher enfermiça de Krakau.
A audição com Eberle, obviamente, é um fracasso. Tocando uma peça de Schumann, o jovem arrivista consegue deixar muito clara sua falta de talento, e Krakau suporta arrogância, mas não uma agressão a seus tímpanos. Eberle é aconselhado a seguir a carreira do pai, ou seja, preparar pães. A vingança começa a ser gestada no mesmo dia, e com a ajuda – paga – do canalha Wendt, que arregimenta os tipos mais truculentos da SA e acerta com eles de atacarem Krakau em um concerto já com data marcada. Krakau é preso sob custódia, em meio a uma imensa confusão causada pela “falange” de Wendt e Eberle. E uma vez preso, o músico judeu some, para desespero de Lisa.
Talvez não seja ocioso lembrar que mesmo antes da nomeação de Hitler como chanceler do Reich, em janeiro de 1933, inúmeras apresentações musicais de artistas judeus já haviam sido interrompidas pela Liga de Combate pela Cultura Alemã (Kampfbund für deutsche Kultur), fundada pelo ideólogo nazista Alfred Rosenberg em 1928.
Com absoluto domínio da técnica do romance, Loeser criou uma história envolvente e rica em significado daquilo que estava sendo preparado pelo Terceiro Reich. Uma história que se passa na província de Vestfália e que, hoje sabemos, ganhou território por toda a Alemanha, fazendo com que Thomas Mann, por exemplo, se refugiasse na Suíça e, posteriormente, se tornasse cidadão norte-americano (sua mulher era judia).
No posfácio da edição de “Réquiem”, da Companhia das Letras, assinado por Peter Graf, pode-se ler uma informação importante:
“Poucas semanas após a ascensão dos nacional-socialistas ao poder, em 7 de abril de 1933, foi promulgada a Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional. Sua aplicação resultou na demissão de inúmeros maestros, cantores e instrumentistas judeus de orquestras estatais e municipais, casas de ópera e teatros. Em setembro do mesmo ano, entrou em vigor a Lei da Câmara de Cultura do Reich, que estabelecia, entre outras medidas, que todos os músicos e compositores – inclusive os do setor privado – deveriam ser membros da Câmara de Música do Reich. Como a filiação era praticamente negada a judeus, isso equivalia a uma interdição profissional. Embora tenha levado algum tempo para que os nacional-socialistas atingissem plenamente seus objetivos, no final de 1935 quase todos os músicos judeus haviam emigrado ou sido demitidos, e forçados a ingressar na Liga Cultural dos Judeus Alemães, fundada em 1933”.
O fim de Krakau parece previsível, mas não o era à época em que Loeser escreveu seu romance. O autor de “Réquiem” deve ser lembrado como um homem com visão ampla dos fatos e da história de seu país, músico amador que guardava em si enorme talento para a criação literária, e que deixou, por fim, como legado, um romance de altíssimo nível artístico, que funciona também como documento de uma época triste da história recente do mundo.
*Henrique Wagner é poeta e crítico literário. Autor de As costelas de Michelângelo.